domingo, 6 de fevereiro de 2011

A 4ª vaga de Democratização?

No momento em que escrevo este artigo, Mubarak ainda se mantém no poder. De qualquer modo, os acontecimentos no Egipto têm-se precipitado de tal forma que não seria de estranhar que hoje, sexta-feira, alterações grandes já tivessem ocorrido. A impressionante pressão popular a que está a ser sujeito o regime autoritário com mais de 30 anos promete não deixar nada como dantes. O regime até pode sobreviver a curto prazo, mas as suas bases parecem seriamente danificadas para resistir ao tempo que passa.

As expectativas e holofotes internacionais que agora estão centrados no Cairo não acontecem por acaso. A queda de ditaduras e a tentativa de implantação de democracias pode de facto ser algo muito contagioso.A forma como a revolução tunisina se fez sentir na região envolvente, mas não só, demonstra isso mesmo. Esta propagação, contágio ou efeito dominó (como preferirem) é um dos factores que está na base das chamadas vagas de democratização, fenómeno significativamente estudado no âmbito da Ciência Política.

A título de exemplo, a conhecida terceira vaga de democratização teorizada por Samuel Huntington começou em 1974 em Portugal e alastrou-se nos anos seguintes a Espanha, Grécia, América Latina e Europa Central e de Leste. O último quarto do século XX foi nitidamente marcado pela referida vaga. Segundo Huntington (TheThird Wave, 1993: 26), existiam 30 Estados democráticos em 1973. Em 1990, passaram a ser 59. Claro que podemos discutir o grau de consolidação das referidas democracias, mas o que é facto é que em poucos anos o número de regimes democráticos ou com fortes contornos democráticos duplicou.

Importa igualmente distinguir duas dimensões centrais. A queda de um regime autoritário é apenas a primeira fase necessária para se dar início a um processo de transição para a democracia. O sucesso deste processo, que envolve uma série de outros desafios (primazia do Estado de Direito, respeito pelas liberdades fundamentais, realização de eleições livres), é naturalmente incerto.

Tal como já tem sido bastante discutido nos últimos dias, a queda de Mubarak assumiria um simbolismo gigantesco em toda a região, podendo impulsionar um formidável efeito dominó de colapso de regimes autoritários. Por outro lado, afastados alguns fantasmas do fundamentalismo islâmico, parece claro que é sobretudo o desejo de democracia que está a mover a onda de oposição ao regime. É certo que profetizar que uma 4ª vaga de democratização poderá nos próximos anos varrer o Magrebe e o Médio Oriente não passa disso mesmo, de um misto de desejo e futurologia. De qualquer modo, são também estranhas misturas como esta que ajudam as coisas a acontecer.

Artigo publicado ontem no Esquerda.net
(Imagem: UDFL)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Já nas bancas

Em destaque neste mês a onda de mudança no mundo árabe. Mais info aqui.

Adeus Liedson

Fico com um grande problema: "Liedson" é único jogador do Sporting que o meu filho sabe apontar. Esta saída pode colocar em causa todo o esforço de evangelização que tenho levado a cabo lá em casa...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Pressão Internacional, sff

Apesar de decadente e de observado em directo em todo o mundo, o regime de Mubarak não se coibiu de impulsionar a onda de violência que hoje varreu o país. Resta esperar que a pressão internacional faça agora o seu papel, apoiando fortemente as forças pró-democracia. Mubarak tem de perceber que se encontra num beco sem saída.

Google Art Project

Já há algum tempo que se ouvia falar deste projecto que foi ontem finalmente lançado. O Art Project do Google (http://www.googleartproject.com/) possibilita com tecnologia street view a visita a 17 dos mais importantes museus do mundo. É formidável. E as obras podem ser observadas em altíssima resolução. Escusado será sublinhar o potencial e mais valia criada por um projecto como este. Para além do seu carácter lúdico, nos domínios da educação, por exemplo, é fantástico um estudante poder visitar em pouco tempo e com poucos cliques o MoMA, o Reina Sofia e o Hermitage. Revolucionário, sem dúvida.
(Imagem: Google Art Project)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Vaga de Democratização?

As expectativas internacionais que agora estão depositadas no Cairo não acontecem por acaso. A queda de ditaduras e a tentativa de implantação de democracias pode de facto ser algo muito contagioso. São as chamadas vagas de democratização, fenómeno significativamente estudado no âmbito da Ciência Política.

A título de exemplo, a conhecida terceira vaga de democratização teorizada por Samuel Huntington começou em 1974 em Portugal e alastrou-se nos anos seguintes para a Espanha, Grécia, América Latina e Europa Central e de Leste. Seria portanto formidável que uma 4ª vaga se iniciasse agora com base no que se está a passar na Tunísia e no Egipto.
(Imagem: Neoavatara)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A excêntrica frontalidade de Passos Coelho

Passos Coelho pediu ontem que o Governo apresentasse um programa de reestruturação de todo o sector público empresarial, identificando quais são as empresas que dão prejuízos crónicos e que devem fechar. Bem... Num momento em que uma auto-estrada parece ter-se aberto à sua frente para ser primeiro-ministro, falar em encerrar empresas públicas que dão prejuízos é, no mínimo, "excêntrico".

Muitos dirão que foi um sinal de frontalidade do líder do PSD. Pessoalmente, julgo restarem poucas dúvidas que se tratou de uma tremenda gafe. Não é aliás a primeira vez que tal acontece. Quando tudo parece correr-lhe às mil maravilhas, Passos decide oferecer de bandeija uma gafe aos seus adversários. Devia seguir mais à risca uma regra de ouro nestes momentos em que o vento sopra ferozmente a seu favor: sorrir muito e falar o mínimo possível.

domingo, 30 de janeiro de 2011

O papel da Aljazeera




Tem sido impressionante acompanhar a onda revolucionária através da Aljazeera Assiste-se literalmente à revolução em directo. A cobertura intensiva de tudo o que se está a passar e o seu nítido comprometimento democrático faz com que a estação esteja a ser uma peça chave em todo este processo.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A Lei da Selva (Política)

Independentemente da gravidade do que se passou com o Cartão do Cidadão nestas autárquicas, é sintomático que o pedido de demissão do Ministro responsável esteja a ser pedida com tanta veemência. A situação é também o reflexo da fragilidade em que se encontra o actual Executivo.

Ou seja, se o Governo estivesse absolutamente saudável e o ministro em causa de boa saúde (política), tal pedido de demissão não surgiria com tanta facilidade. O que actualmente se assiste é ao nítido aproveitamento da debilidade do actual Executivo por parte da oposição. Prática que, escusado será dizer, é mais do que legitima, fazendo parte do jogo democrático.

Ou muito me engano, ou veremos ser pedida a demissão a alguns ministros nos próximos tempos. Qualquer gota de água poderá despoletar tais pedidos. Uma rápida remodelação governamental não resolverá o problema, mas poderá servir para estancar algumas feridas do actual Governo.
(Imagem: Blog do Neto)

Ah e tal, o gajo apareceu na televisão...


No video acima poderão ver a última edição do Prova das 9, programa da RTP Açores em que participei na passada quarta-feira.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Isto sim merece ser notícia


O valor recorde da abstenção nestas presidenciais tem sido bastante discutido. E ainda bem. Olhando para o gráfico abaixo, verifica-se facilmente que o valor tem vindo a subir gradualmente nas eleições presidenciais, manifestando-se sobretudo quando está em causa um reeleição.

Mas mais do que a abstenção, o que foi de facto impressionante nestas eleições foi a subida vertiginosa dos votos em branco e dos nulos. Ver tabela abaixo. Relativamente aos brancos, o valor foi mais do dobro do que que alguma vez tinha sido verificado.

Aliás, os números absolutos falam por si. Existiram mais de 190 000 portugueses que foram às urnas para votar em branco. Uma vaga de protesto até hoje sem paralelo, pelo menos no que a eleições presidenciais diz respeito
.
PS: Obrigado Patrícia por me teres chamado a atenção para esta questão.

Activismo de Sofá no Prova das 9

Hoje, pelas 21h40 dos Açores, 22h40 do Continente, participarei no programa Prova das 9 da RTP Açores. Trata-se de um programa de debate da actualidade, moderado por Rui Goulart e que conta com os comentadores residentes Gilberta Rocha, Álvaro Borralho e Bastos e Silva. Isto de passar do conforto do sofá blogosférico para a televisão promete ser doloroso... A ver vamos ;)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

6 Apontamentos sobre as Presidenciais

Cavaco Silva venceu, mas algo ficou no ar. Apesar de ter descido percentualmente e em termos absolutos relativamente ao que obteve há cinco anos, a sua vitória foi indiscutível. Deixou o principal adversário a mais de 30 pontos, uma margem que fala por si. De qualquer modo, Cavaco sai com algumas mossas sérias deste processo. Ficaram no ar dúvidas graves e legitímas quanto à sua proximidade às figuras do BPN/SLN. A questão das acções compradas a preço de saldo a um grupo que cometeu inúmeras irregularidades e a questão da sua casa de férias na aldeia BPN, cuja escritura é mais do que duvidosa, mancharam a imagem que os portugueses tinham de Cavaco Silva. A sua honestidade e idoneidade sairam machucadas de todo este processo. Ficou no ar uma nova e bastante obscura faceta do Cavaquismo: o SLNismo.

O resultado de Manuel Alegre é o reflexo da missão quase impossível que tinha pela frente. Bater-se contra um presidente que se recandidata é um tarefa hérculea. Mas como se tal não bastasse, saltou à vista uma contradição grande na sua campanha: é que ao mesmo tempo que se afirmava como o candidato do Estado Social contra o candidato que venera os mercados, Alegre foi apoiado pelo partido responsável por um dos piores planos de austeridade de que há memória. Foi uma candidatura com uma dificuldade acrescida para encontrar o seu espaço, em assumir um posicionamento claro relativamente à agenda governamental em vigor. O problema de Alegre não foi tanto o facto de ter sido apoiado pelo PS e pelo BE, mas sim a sua candidatura ter coincidido com um momento de fragilidade e impopularidade impares do Partido Socialista.

As grandes surpresas vieram de Fernando Nobre e José Manuel Coelho. Ambos conseguiram resultados bem acima do que lhes era apontado nas sondagens. Quanto a Fernando Nobre, apesar de alguns momentos menos felizes, conseguiu sair-se bem tendo em conta toda a componente civica da sua candidatura. Quanto a José Manuel Coelho, diria que os 4,5 % que obteve são preocupantes dado perfil populista da candidatura. Coelho é aliás o exemplo de que até na oposição o jardinismo consegue fazer escola. Posto isto, importa realçar que os candidatos exteriores ao sistema partidário foram os que obtiveram resultados mais surpreendentes.

Francisco Lopes e Defensor Moura foram os que menos surpresas trouxeram à noite eleitoral. O primeiro, apesar de ter diminuido o score comunista obtido nas legislativas, teve um resultado que está muito longe de envergonhar. Por seu turno, o ex-presidente da Câmara de Viana do Castelo teve um baixo resultado, mas tal não impediu que terminasse de forma honrada depois de ter feito uma boa campanha.

O nível da abstenção foi terrível, mas pouco surpreendente. Um dos factores que mais determina o obstencionismo é a falta de competitividade previsível do acto eleitoral. Tendo em conta que as sondagens asseguravam a reeleição de Cavaco com valores próximos dos 60% e a mais de 30 pontos do segundo classificado, era mais do que expectável que o cenário abstencionista fosse negro.

Quanto ao futuro, tudo continua a indicar que um novo ciclo político surgirá em 2011. Saber se Sócrates cairá fruto de uma dissolução vinda de Belém, de uma moção de censura ou da sua própria demissão, é um pormenor nesta fase. Os dados estão lançados para que a impopularidade do actual Governo continue a crescer. Assim sendo, qualquer passo em falso poderá ser a gota de água para que o eleitorado passe a concordar com a sua queda. E este último aspecto é determinante para que os restantes actores políticos resolvam avançar com o golpe de misericórdia.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

É a chamada mudança na continuidade…

Cavaco foi reeleito com uma margem indiscutível. Mas algo mudou. Em primeiro lugar, a imagem que os portugueses têm do actual PR transformou-se. Ficaram evidentes as suas ligações pouco claras ao BPN/SLN. O mito do Cavaco ultra sério, ultra idóneo e ultra honesto desvaneceu-se.

Em segundo lugar, com o discurso agressivo que ontem fez, Cavaco mostrou que o estilo “presidente de todos os portugueses” parece ter terminado. Este novo Cavaco demonstrou estar pouco preocupado em parecer magnânimo e conciliador.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Bartoon no seu melhor

Cavaquismo e SLNismo


Neste último dia de campanha, uma coisa parece certa relativamente a Cavaco Silva: foi igual a si mesmo em todo este processo. No fundo, apresentou na perfeição algumas das características mais claramente associadas ao estilo cavaquista de se estar na política. A primeira delas foi o sempre preocupante facto de Cavaco não se considerar um político. Ou seja, a figura política da nação que mais cargos de relevo e durante mais tempo ocupou na democracia portuguesa não pertence à classe política. Continua a considerar-se um “humilde professor”, um técnico especializado que coloca despretensiosamente os seus serviços ao dispor do Estado e do povo português. Enfim, a oeste nada de novo.

A segunda característica de destaque que não surpreendeu foi o seu difícil relacionamento com o confronto político e com o questionamento da comunicação social. Mais uma vez, optou pela figura reservada que prefere o silêncio ao confronto de ideias, prefere o caminho do tabu e da vitimização pessoal ao esclarecimento. A terceira característica igualmente preocupante que se destacou foi a ideia de que se pode prescindir da democracia se causas de força maior se impuserem. Foi o que o actual Presidente da República fez ao invocar o contexto de crise e os custos dos actos eleitorais para que uma 2ª volta não aconteça. No fundo, considerou deste modo que até na democracia se pode poupar, ideia que assenta na perfeição no tal estilo cavaquista.

Mas esta campanha eleitoral tornou clara para a generalidade da população uma característica do Cavaquismo até agora algo mitigada: o SLNismo. Com tantos factos por esclarecer, com tantas proximidades e ingenuidades muito mal explicadas por parte do actual presidente, muitas dúvidas ficaram no ar. O país ficou a perceber que o honestíssimo, incorruptível e ultra-sério Cavaco Silva afinal parece ter uma série de coisas a esconder. Não que qualquer responsabilidade criminal lhe possa ser atribuída por tais proximidades, mas sim inevitáveis responsabilidades políticas por estar tão perigosamente próximo das caras que estão na origem do maior rombo nas finanças públicas de que há memória.

O Cavaquismo já tinha muitas facetas. Mas parecem restar poucas dúvidas que o SLNismo foi a maior revelação desta campanha. Importa assim acreditar que, entre todas as outras dimensões, esta falta de transparência, estas relações duvidosas, estas promiscuidades que tanto lesam o erário público, não sejam esquecidas quando os portugueses votarem no próximo Domingo. Se tal esquecimento suceder, se se fingir que nada se passou, tal não será certamente um sinal de saúde democrática.

Artigo hoje publicado no Esquerda.net

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A Fase da Parvalheira

No mesmo dia, Fernando Nobre brindou-nos com dois momentos algo delirantes. Primeiro desafiou Alegre a desistir a seu favor na 2ª volta, algo que não faz qualquer sentido uma vez que tal só se colocaria caso passassem os dois. À noite surgiu a do “Deem-me um tiro na cabeça porque sem um tiro na cabeça eu vou para Belém”. Comentários para quê?

Um amigo meu com experiência nestes domínios disse-me uma vez que os últimos dias são sempre desesperantes para os spin doctors que coordenam as campanhas. É que a mistura explosiva de cansaço e espírito do “tudo ou nada” leva a que os maiores disparates sejam cometidos pelos candidatos nestes sprints finais. Neste prisma, as tristes tiradas de Fernando Nobre não são mais do que o reflexo desta fase em que a síndrome da parvalheira tende a manifestar-se fortemente nos diversos candidatos.
(Imagem: Principals Page)

E a e-Campanha, como correu?

Não existiram grandes novidades no recurso à web para fazer campanha. Relativamente aos sites das candidaturas, regra geral têm bons grafismos e dispõem de grande informação. Alguns candidatos apostaram mais nos seus sites do que outros e as diferenças encontram-se nos detalhes. À semelhança do que já acontece com o site da Presidência da República, o site da candidatura de Cavaco Silva é forte. Até possui uma aplicação para descarregar e poder acompanhar a campanha via smarth phone. Há que tirar o chapéu.

Mas em alguns aspectos, a campanha até foi um pouco pobre relativamente ao que já assistimos em Portugal. Os candidatos estiveram em massa nas redes sociais (e.g. Twitter, Facebook, You Tube), mas apostou-se pouco em interactividade. Estar lá é fácil, interagir é que é mais complicado. Não existiram conferências de blogues, por exemplo, e que eu saiba os blogues de apoio às candidaturas não assumiram a projecção que anteriormente se viu. Em suma, parece que até na web esta campanha ficou aquém…

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Bora poupar na democracia?

Invocar o contexto de crise e os custos dos actos eleitorais para que uma 2ª volta não aconteça é de um "exotismo" impressionante. Já agora, abdicava-se da 1ª volta também, não? Evitava-se assim que os cidadãos se dessem ao trabalho de decidir e ainda se poupavam uns belos trocos...

Não sei porquê mas estas declarações fazem-me lembrar aquele episódio da senhora que sugeriu que se suspendesse a democracia. Olha, que engraçado... Coincidência das coincidências, a senhora é muito amiga e assumida discípula do autor das presentes declarações... Que coincidência, não é?
(Imagem: Simpsons Trivia)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Mas será que quer ser escutado?

Cavaco afirma que um presidente deve apontar caminhos estratégicos para o país. Certo, até podemos estar globalmente de acordo. Mas será que o actual presidente quer ser escutado? É que da última vez que se falou em escutas com o actual inquilino de Belém, houve direito a cafés na Avenida de Roma, a assessor recolocado na presidência e a declarações ao país que mereciam figurar no best of do Isto só Vídeo... ;)
(Imagem: News 352)