segunda-feira, 26 de março de 2012

Verdades La Cavaquice


Infelizmente, este tipo mensagens redondas do Presidente da República são o pão nosso de cada dia. Será que existe alguém que não quer saber tudo o que se passou no Chiado? Todos queremos saber tudo e gostamos sempre de saber tudo. No Chiado ou no BPN, queremos sempre toda a verdade.
(Imagem: Bancada Directa)

domingo, 25 de março de 2012

Sobre a Dependência Financeira da Política

A profissionalização da política merece obviamente todo o respeito. Ao serviço direto do partido ou num cargo público por nomeação política, a profissionalização da política é uma conquista da república e da democracia. De outro modo, a política apenas seria acessível a quem tivesse rendimentos suficientes para se poder dedicar à política sem qualquer necessidade de remuneração.

De qualquer modo, a dependência financeira também cria constrangimentos a uma verdadeira liberdade de pensamento e atuação política. Se dependo financeiramente de um partido, dificilmente entrarei em posições de crítica aberta à sua atuação. Tenderei a ser muito mais ponderado, arriscarei muito menos. Sob pena de ser "despedido"

E se num partido pequeno, a dependência financeira já se faz sentir em alguns quadros, nos grandes partidos do poder, a situação assume outras proporções. Ao olhar para o congresso do PSD, quantos delegados não dependerão financeiramente do partido? Quantos delegados não são deputados, presidentes de câmara, vereadores ou mesmo presidentes da junta? Quantos não são membros da direcão de um instituto ou empresa pública, membros de um gabinete de um ministro ou de um secretário de Estado?

Claro que há pensamento político livre apesar da dependência financeira. Mas não haja dúvida que a liberdade interna nos partidos é maior quando a dependência financeira não é tão acentuada entre os seus membros.

sábado, 24 de março de 2012

Parcimónias (e a falta delas)




Apesar de tudo, acho que a cor política continua a diferenciar a forma como um governo reage a incidentes como o excesso de força policial. Um governo de centro-esquerda, mesmo que mais de centro do que de esquerda, reage com alguma parcimónia. Até pode não ir há muito em conversas de manifestantes, mas algo continua a obrigá-lo a respeitar um pouco este tipo de situações.

Por seu turno, um governo de centro-direita preocupa-se pouco com este tipo de questões, sobretudo num momento como o actual. A polícia infiltra-se nas manifestações e incita à violência? Temos pena. A polícia agride jornalistas? Temos pena. Está visto que estes são tempo de paulada e cacetada. Preparem-se.

quinta-feira, 22 de março de 2012

A festa das Privatizações


Privatizar tornou-se um verbo bastante vulgar na agenda dos Governos Portugueses das últimas décadas. Todos, independentemente da sua cor política, avançaram com o seu leque de privatizações. Poder-se-á dizer que tal apenas revela que existiam demasiados sectores económicos nas mãos do Estado. Poder-se-á também contra-argumentar que tal sempre foi uma forma simples de arrecadar uns trocos no final do ano para contrabalançar défices crescentes. È uma discussão interessante, mas não é de facto na mesma que nos centraremos neste texto. Concentrar-nos-emos sim nas polémicas que normalmente envolvem estes processos.

As privatizações surgem sempre legitimadas por um discurso de redução de encargos para o Estado. Argumenta-se então que a gestão privada é mais eficiente que a pública, surgindo assim a privatização como solução para libertar os contribuintes de um honorário superfluo, ao mesmo tempo que dinamiza a economia com mais um actor livre das garras do Estado. O problema é que, como o caso português demonstra, acaba por não ser bem assim que as coisas acontecem. Por um lado, dificilmente se diminuem encargos para os contribuintes quando se privatizam empresas que dão lucro. Por outro lado, naquelas em que tal não acontece, a manutenção de contratos com o Estado para a prestação de serviço público acaba por ser tão ou mais honorosa do que o que acontecia anteriormente. Acrescente-se ainda o caso da privatização de empresas monopolistas, em que se acaba assim por colocar em mãos privadas uma mais valia anteriomente do domínio público.

O presente caso da EDP veio mais uma vez confirmar os efeitos perniciosos de inúmeros processos de privatização. Considerou-se de menor importância o valor estratégico que a referida empresa possui para o Estado Português. E pouco importou que grandes países europeus continuem a ter as suas empresas públicas de electricidade. Nós, Portugueses, não precisamos cá dessas coisas. Tudo acabou portanto com a entrega da EDP a uma empresa detida em 100% pelo Estado Chinês. Comentários para quê... Importa igualmente não esquecer que se privatizou uma empresa supostamente com óptima saúde. Ou seja, o argumento dos encargos para os contribuintes não se aplica. Privatizou-se também uma empresa praticamente monopolista. Não existem portanto efeitos positivos a curto prazo na dinamização do mercado da electricidade em Portugal. Pelo contráro, o que antes era um monopólio público, passou a ser agora um monopólio privado.

E quando se tentou reduzir o valor dos fantásticos contratos que ligam a empresa ao Estado, tudo acabou com a saída do Governo do Secretário de Estado da Energia. Nem pensar em fazer tal coisa uma vez que nos contratos firmados com o “parceiro” chinês, lá constava que as rendas com o Estado Português (vulgo, com os contribuintes Portugueses) deviam permanecer inalteradas. Um negócio da China, portanto. E para que tudo se torne ainda mais engraçado, importa não esquecer que o recém-nomeado chairman da referida empresa, com um salário astronómico, foi um dos grandes mentores do programa económico do Governo. Eis um bom exemplo do universo das privatizações em Portugal.

Podíamos aqui esmiuçar também a privatização do BPN para reforçar este ponto de vista, Mas mais do que preocupar-se com o que se passou ou está a passar, consegue ser ainda mais preocupante o que aí vem. Dos CTT à RTP, da ANA à TAP, esta promete ser uma legislatura bastante animada nestes domínios. Sim, preparemo-nos porque a festa só agora está a começar.

Artigo publicado terça-feira no Açoriano Oriental

sexta-feira, 16 de março de 2012

Os Fantasmas Alemães

Considerar que a falta de solidariedade alemã é a única e grande responsável pela crise em que a Europa continua mergulhada é excessivo. Contrariamente à perceção que nos é passada pela comunicação social, a Europa não se resume à Alemanha, à França e aos PIGS. Existem os restantes 20 países europeus de quem pouco se ouve falar. Se calhar a sua mudez não reflete menos a falta de solidariedade europeia do que os posicionamentos de Merkel. De qualquer modo, pelo papel preponderante enquanto maior economia europeia, e pela perda de quaisquer complexos ou pruridos em assumir um papel liderante do todo comunitário, não há como ignorar as grandes responsabilidades alemãs.

E quando esmiuçamos o porquê de tal falta de solidariedade de Merkel, surge-nos sempre a história do fantasma da inflação que supostamente atormenta o eleitorado alemão. As recordações dos anos 20, a imagem de um carrinho cheio de notas para comprar um pão, são então apresentadas como grandes explicações do atual comportamento germânico. Reduzir ao mínimo as ajudas aos países em dificuldades, focar-se apenas no equilíbrio das contas públicas, eis a receita que tem sido seguida por Merkel para afugentar o referido fantasma.

Mas o mais curioso de todo este universo fantasmagórico alemão em torno da inflação é que um outro fantasma germânico desapareceu por completo nestes últimos anos: o fantasma da II Guerra Mundial. Um fantasma que, importa não esquecer, permitiu acalmar os ânimos alemães na segunda metade do século XX e que, por sinal, garantiu o empenhamento alemão numa Europa unida, solidária, convencida dos benefícios de um desenvolvimento harmonioso dos seus Estados-membros. Um fantasma muito útil, portanto.

Em poucos anos, Merkel conseguiu que a Alemanha voltasse a ser alvo de fortes animosidades um pouco por toda a Europa. Perguntem a um grego, a um português, e um espanhol ou a um italiano o que hoje acham dos alemães. Os sentimentos anti-germânicos atingem agora níveis como há muitas décadas não se via. Merkel conseguiu afastar o fantasma da II Guerra da mente do seu eleitorado. O problema é que este fantasma passou agora a andar à solta, atormentando o consciente e inconsciente de cada vez mais europeus. Escusado será sublinhar a gravidade deste cenário.

Artigo hoje publicado no
Esquerda.net
(Imagem: Bens Blog)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Holanda, gerações de avanço


Curta estadia em em Roterdão em trabalho. Apesar de já não vir à Holanda há 14 anos, continuo com a sensação de se tratar de uma espécie de país superior. O seu povo consegue aliar a rectidão nórdica com um sangue quente (tipo latino). Têm portanto o melhor de dois mundos.

Estão gerações à nossa frente, em desenvolvimento mas sobretudo em mentalidade. Dois exemplos totalmente diversos, mas que mostram bem esta questão:

1) Aqui as bicicletas são de facto um meio de transporte. Usam-na não como hobby, não para fazer exercício, mas como um meio de transporte perfeitamente convencional. Usam-na jovens e mais velhos, gordos e magros, engravatados e chungas. Vejo literalmente mais bicicletas no centro de Roterdão do que carros.

2) Em termos de valores político-morais estão tão avançados que até acontecem fenómenos curiosos no cenário político holandês. Recordo-me sempre do caso de Pim Fortuyn, líder populista de direita e homossexual assumido (assassinado em 2002) que queria fechar as fronteiras do país aos muçulmanos por, entre outras coisas, estes ameaçarem o liberalismo moral holandês. É muito à frente...

Fonte: Harnhem)

terça-feira, 13 de março de 2012

Mais um problema de Passos: não sabe separar as águas


"Ex-colega de Passos Coelho na Águas de Portugal. Paulo Caetano estava ligado à área das energias renováveis na Fomentinvest, onde trabalhava o primeiro-ministro." (in Expresso)
(Imagem: Aventar)

segunda-feira, 12 de março de 2012

A Aventura Americana


Duas semanas depois, terminaram as férias em terras americanas e canadianas. Foram 3400 km percorridos de estrada. E que valeram bastante a pena. O que há a dizer sobre estas férias? Pois... O problema é precisamente resumi-las porque cada dia era um novo dia. Deixo apenas algumas notas por cidade.

Chicago
  • É uma cidade simplesmente fantástica. Junta bem a dimensão dos arranha céus com os bons parques urbanos;
  • Nova Iorque é uma grande cidade do mundo. Chicago é uma grande cidade americana;
  • Da arquitectura à arte pública, Chicago respira de facto cultura. Neste sentido, destaco o Art Institute of Chicago, a Cloud Gate, a Pritzker Pavilion e a Crown Fontain, todos localizados no Millenium Park.
  • O Magnificent Mile (forma como é correntemente conhecida a Michigan Avenue), artéria comercial da cidade acaba por proporcionar também um passeio agradável.
Detroit
  • Fizémos uma curtíssima passagem de uma noite. Não nos pareceu de facto ser uma cidade que marca pelo seu explendor. Mas sim, qualquer cidade merece ser visitada.
Toronto
  • A capital económica do Canadá surpreendeu por não corresponder de facto à imagem verdinha e organizada que por vezes se tem das terras canadianas;
  • A forte imigração asiática dá-lhe uma grande aura multicultural;
  • O traçado urbano divide-se entre grandes arranha-céus e uma aquitectura constituida por casas e jardins mal abandonamos o centro da cidade;
  • A CN Tower é um marco na cidade que deve ser visitado
Boston
  • Imperdível. O traçado urbano é formidável, com construção antiga e onde se vê bem o esforço de manutenção da traça histórica. Não admira porque lhe chamam a mais europeia das cidades americanas;
  • Nota-se bem nas ruas o peso da população universitária da cidade;
  • A influência de grandes universidades de referência vê-se que determina a vida empresarial e cultural da cidade.

Providence
  • A capital de Rhode Island, o menos popuoso estado americano, é definitivamente pitoresca;
  • A traça antiga, o espaço público cuidado, os jardins no meio da cidade, as casas com jardim em frente tornam a cidade de facto acolhedora e simpática.
  • O forte peso de Universidades como a Brown faz-se sentir positivamente na cidade, com a forte população universitária, uma vida cultural desenvolvida, etc.

Nova Iorque
  • Não sendo a primeira vez na Big Apple, o que há a dizer sobre Nova Iorque? Tudo soaria a cliché. Mas sim, continua a ser "a cidade".
Uma última nota geral sobre as férias: apesar de parecer violento à primeira vista, para quem tem crianças, vale sempre a pena trazê-las. Para além de lhes abrir horizontes, mostrar coisas novas, experiências novas, etc, elas disfrutarão o alto astral dos pais nestes momentos, o que é por si só uma grande mais-valia.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Fui aos Estados Unidos e já venho


Estarei nestas duas semanas de férias por terras americanas, algures entre Chicago, Boston e Nova Iorque (com tempo para dar um salto a Toronto e tudo). As minhas desculpas aos milhões e milhões que por aqui passam diariamente. Estarei de volta a 11 ou 12 de Março. Até lá!
(Imagem: Destination 360)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Criador tem costas largas



A adopção por casais homossexuais foi mais uma vez chumbada. Telmo Correia iluminou-nos ao dizer que a adopção por casais do mesmo sexo “contraria o criador”. Ó grande profeta Telmo, obrigado por nos ajudares a interpretar os desígnios do criador.

Andamos a sacrificar-nos acima das nossas possibilidades


Anda aqui a malta a fazer sacrifícios, de cinto apertado, a piar fininho sem grande confusões, e afinal a situação económica em Portugal está a agravar-se. Isso é muito injusto... Estamos todos muito surpreendidos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Fazes cá falta

Escolher uma das suas músicas neste dia é complicado. Escolho o Senhor. Arcanjo por ter sido, que me recorde, uma das primeiras que me chamou a atenção quando eu era "um jovem".

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Ver-se Grego



'Vi-me grego" ou "senti-me grego", eis duas expressões mais do que familiares no léxico nacional. Caracterizam, como é sabido, situações em que nos sentimos em apuros, ansiosos, em que estamos confusos, sem saber o caminho a seguir, sem ter noção do resultado final. Não tendo sido muitas as grandes interacções entre Portugal e a Grécia nos últimos anos, sempre que tal aconteceu, a referida expressão veio ao de cima. Veja-se a nossa derrota no Euro 2004. Vimo-nos gregos, não foi? E no momento actual, com a Grécia em tão grandes apuros e com Portugal tão dependente da crise grega, não admira que nos sintamos novamente gregos.

Mas tem sido sobretudo curioso procurar a reacção de inúmeros sectores nacionais ao que se está a passar na Grécia. Desde as correntes de email que nos chegam contando o "viver acima das possibilidades" grego, até à conversa no café da esquina censurando a reacção desordeira e violenta nas ruas de Atenas. Rapidamente, acompanhando o mote que nos chega do norte da Europa, os gregos passaram a ser vistos por cá como um povo malandro que trabalha pouco, vive à grande e que ainda tem o desplante de reclamar contra a austeridade que lhes vem sendo aplicada.

Em Portugal, parecemos esquecer que os mesmo alemães, austríacos ou dinamarqueses que apontam o dedo aos gregos, fazem-no exactamente da mesma forma para este quadrado luso à beira mar plantado. A sua ligeira complacência apenas se deve ao facto de sermos o segundo na fila. Ou alguém tem dúvidas que, deixando de existir o problema grego (com a sua saída da moeda única, por exemplo), os holofotes se virarão imediatamente para Portugal? Não só os holofotes dos mercados, mas também os de uma Europa que procura desenfreadamente bodes expiatórios para o beco sem saída que teimou a seguir.

Muitos estão convencidos que somos e continuaremos a ser tratados de forma diferente por nos estarmos a portar bem. No fundo, por estarmos a cumprir escrupulosamente o que foi combinado no memorando. Tais vozes acham mesmo que é a desordem e o caos instalado na Grécia que nos deve incentivar ainda mais a seguir este caminho de obediência e sacrifício redentor. Defendem, portanto, que devemos olhar para a Grécia para termos a certeza do que não queremos.

Curiosamente, algumas vozes a nível internacional começam a convidar os gregos a olhar para Portugal com a mesma lógica. Ou seja, devem olhar para nós como exemplo claro de que os sacrifícios e a austeridade matam de facto a economia, quer sejamos bem ou mal comportados. Que os mercados não reagem com base na delicadeza e simpatia dos povos, mas sim com uma natural especulação pouco preocupada se o país se porta bem ou não. No caso Português, o nosso espírito redentor tem levado ao afundamento da economia, com o desemprego a atingir níveis recorde, com a iniciativa privada a retrair-se dramaticamente e com a dívida pública a aumentar devido à retracção económica.

Se calhar, em vez de infantilmente olharmos para os gregos como se o que lá se passasse não tivesse nada a ver connosco, devíamos sim perceber que estamos exactamente no mesmo barco. Toda a Europa devia aliás perceber que o destino de um dos seus Estados-membros não é algo a que possa alhear-se. Assim é não só por causa solidariedade em que sempre assentou o projecto Europeu, mas também porque os mercados financeiros internacionais desregulados que agora estão a devorar os gregos, dificilmente ficarão saciados por aqui. Sejamos realistas: ver-se ou sentir-se grego, no sentido literal da expressão, deve portanto constituir-se como uma obrigação no momento actual. É o futuro dos 27 que está em causa.


Artigo publicado ontem no Açoriano Oriental

(Imagem: Gold Alert)

Cuidado com os Spinanços

Continuam a multiplicar-se as notícias sobre cortes, reduções, racionalizações e outras similares. Continua o clima de quase transe colectivo em que, não havendo tempo para se indignar com todas as medidas que vão sendo tomadas, apenas as que assumem relevo na agenda são alvo de atenção. As restantes vão passando com uma ligeireza impiedosa. Eis o terreno perfeito para atividades de spin.

Vejamos um modelo típico de spinanço. É plantada a possibilidade de se avançar com uma medida extrema. Medida esta que nem foi devidamente equacionada. Apenas serve como “disparate útil” para agarrar as atenções num determinando momento, permitindo que sejam passadas longe dos holofotes uma série de outras medidas tão ou mais graves. Após o debate público, o Governo ganha então a possibilidade de ser magnânimo e recuar na tal medida extrema onde tudo começou, ao mesmo tempo que conseguiu o seu objetivo de passar uma série de outras medidas que encontrariam com certeza forte resistência.

Mas nada como um exemplo concreto para melhor ilustrar este tipo de situação. Veja-se a recente possibilidade da meio hora de trabalho diário adicional para os trabalhadores do sector privado. Depois de uma grande discussão em torno de uma proposta que era um manifesto disparate, o Governo recuou. E já podia de facto fazê-lo, porque enquanto o país discutia a meia hora, um pacote com bolsas de horas, com os dias de férias forçados, com redução nos pagamentos das horas extraordinárias foi passando sem grande oposição. No fim, o Governo teve então oportunidade de fazer o tal recuo magnânimo que ainda lhe valeu um aperto de mão histórico com a UGT. Engraçado, não é?

O recente episódio da mobilidade forçada dos funcionários públicos para qualquer concelho do país parece ter contornos semelhantes. No meio de um pacote alargado de reformas para os trabalhadores da Administração Pública, ganha proeminência uma medida radical que consegue agarrar as diversas manchetes da comunicação social. Não tarde nada e é possível que haja um recuo nesta medida, ao mesmo tempo que uma série de outras passaram já sem grande alarido. O Governo sairá novamente magnânimo e, com sorte, ganhará um novo aperto de mão da UGT.

Estes são tempos extremamente propícios a este tipo de manobras. Não sendo fácil identificá-las e denunciá-las, convém no mínimo estar bastante atento. A desatenção sai um bocadinho cara.



Artigo publicado na sexta-feira no Esquerda.net

(Imagem: Spin Original)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Euro Fundo

"Vários países rejeitam Grécia no euro e preferem incumprimento". A isto se pode chamar bater no fundo. Eis o estado de coesão a que a Europa chegou.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Aí Sporting...


A saída de Domingos faz-me quebrar estes dois anos de blackout sobre o Sporting (mais mês, menos mês, o Sporting está a jogar mal há uns dois anos...). Esta coisa de mandar embora o treinador quando a equipa está mal é de uma infantilidade medonha. Mas enfim, quem não quer ver infantilidades, não vê futebol, certo? Força, Sá Pinto.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Direito ao Progresso

Num momento como o atual, falar em ter direito à qualidade de vida soa a algo totalmente lunático. Numa altura em que o “vivemos acima das nossas possibilidades” é a nova máxima nacional e a acusação suprema da vida pecaminosa que até agora os portugueses têm vindo a levar, falar em direitos já é ser excêntrico. Falar em direito à qualidade de vida é ser doido varrido. Um atrevimento insuportável perante a purificação nacional em curso.

No entanto, a questão da qualidade de vida está longe de ser um ideal político novo. Nas sociedades do pós-guerra onde o Estado Providência se desenvolveu e os cidadãos adquiriram direitos sociais que lhes permitiram pensar além da simples sobrevivência do dia-a-dia, novos valores se impuseram naturalmente. Valores ecológicos, valores espirituais, valores de igualdade e de não discriminação (contra o racismo, contra a xenofobia, contra a homofobia), eis alguns dos que ficaram conhecidos como valores pós-materialistas. Valores que, no fundo, apoiando-se em direitos adquiridos nos domínios da saúde, da educação ou da segurança social, procuram ir mais além. Entrou-se assim num estágio de desenvolvimento em que algo tão supremo como o conforto, o bem-estar ou mesmo a felicidade passaram a ser legitimamente perseguidos por cada cidadão.

Nos tempos que correm, recordar esta evolução que se começou a esboçar há 50 anos é totalmente contra-corrente. Aliás, criada a convicção do “vivemos acima das nossas possibilidades”, a tendência é para sermos empurrados a achar que o modelo de sociedade preconizado nestas últimas décadas foi irresponsável, lunático e até pecaminozo. Que essa coisa das pessoas quererem melhorar as suas condições de vida, de quererem viver melhor que os seus pais, de quererem ter acesso ao lazer, à cultura e a perseguir a felicidade, são luxos que devemos depressa abandonar. Acreditar na coesão social passou a ser um luxo. Acreditar numa sociedade com o limite das 35 ou 40 horas de trabalho passou a ser um luxo. Acreditar que alguém se deve reformar aos 65 anos passou a ser considerado um luxo. Ou seja, põem-se em causa progressos civilizacionais sem pestanejar. Como se fosse essa a raiz do problema da atual crise.

Como é sabido, mas às vezes esquecido, a crise em curso teve como primeira origem um sistema financeiro internacional totalmente desregulado, assente em especulação cuja única racionalidade baseia-se na gestão de espectativas e de nervosismos dos mercados. No entanto, em vez de se actuar em tal problema estrutural, procurando regulação para que os Estados e as vidas dos cidadãos estejam menos expostas a tal casino financeiro, opta-se por aplicar perigosas receitas de austeridade. Como se fosse possível resolver um problema apenas a jusante, deixando intocável o que se passa a montante.

Assim sendo, não confundindo direitos sociais com luxos ou progresso com pecado, se calhar não faz sentido abrir mão assim tão facilmente dos importantes avanços civilizacionais das últimas décadas. Sim, por mais excêntrico que possa parecer, estamos a falar de legítimas aspirações dos cidadãos à dignidade, perseguindo a sua felicidade, a sua realização, procurando um mundo melhor, com mais qualidade de vida, mais coeso, com menos desigualdades, com espaço para todos. Tudo isto são avanços civilizacionais que, como é natural, mais do que ser negados e censurados, deviam sim ser defendidos e até aprofundados. Pelo contrário, parecemos quase todos empenhados em pedir desculpa pelos progressos económicos, sociais e culturais ocorridos nas últimas décadas.

Artigo publicado hoje no Açoriano Oriental
(Imagem: Acantarela)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O Grande Álibi




Implementar políticas ditas difíceis implica não só avançar com medidas
consideradas impopulares, mas fazê-lo a contragosto. Ou seja, fazê-lo contra a doutrina político-económica que se preconiza. Neste sentido, é tristemente engraçado verificar o argumentário de coragem e simultâneo lamento com que o Governo aplica a atual receita de austeridade. Como se o que estivesse a ser aplicado fosse totalmente contra as linhas programáticas do PSD.

Com a direção mais liberal de que há memória, que nunca se inibiu aliás de mostrar as suas convicções, o receituário liberal previsto no memorando da troika é uma valiosa fonte de legitimação de todo um programa político. Aliás, para um governo que nunca prometeu menos do que profundas reformas liberais, é uma autêntica dádiva.

“No programa eleitoral que apresentámos no ano passado e no nosso programa do Governo não há uma dessintonia muito grande com aquilo que é o memorando de entendimento”, afirmou Passos Coelho na passada quarta-feira, sublinhando que o acordo com a troika não consiste numa “obrigação pesada”. “Não fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz às costas”, salientou (in Público). Comentários para quê?

Considerar que um liberal aplica a contragosto um programa como o da troika equivale a pensar que alguém de esquerda subiria a contragosto o salário mínimo ou uma qualquer prestação social.

Artigo hoje publicado no Esquerda.net

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Sobre os 150 milhões de perdas causados pela greve dos transportes


O Governo anunciou que a greve dos transportes trará perdas de 150 milhões ao país. Três comentários:
  1. Este avançar de números dos prejuízos cada vez que há uma greve é todo um modo de actuação.
  2. Gostava de perceber como se chegam a estes números, nomeadamente em termos de balanço receitas/despesas. Por exemplo, não percebo como é que greves em transportes tão assentes em passes mensais conseguem gerar assim tanto prejuízo.
  3. 150 milhões? Mais três greves destas e não temos dinheiro para a capitalização prevista para o BPN no orçamento de Estado de 2012...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Mais 600 milhõeszitos para o BPN



Um dia destes vou-me apresentar num balcão do BPN e pedir os meus subsídios de férias e de Natal... À porta da embaixada de Angola também não era mau pensado... Mas melhor mesmo era fazê-lo à porta da casita do pobre Cavaco na herdade da Coelha.