sexta-feira, 26 de abril de 2013

Life of PS



Quem os viu e quem os vê… É sempre interessante ver a capacidade que as sucessivas lideranças do PS têm de inverter posições, de mitigar posicionamentos passados, de se adaptarem ao sabor das circunstâncias. Somos sempre brindados com a típica esquizofrenia de um partido 100% focado no poder. Temos um determinado PS quando está no Governo e um PS totalmente diferente quando está na oposição. Nada de novo, é mesmo assim, toda a gente sabe-o. E parece que já nem há grande vontade em disfarçar. 

No momento atual, com um Governo totalmente desorientado e cada vez menos credível aos olhos dos mais insuspeitos setores, o PS surge rapidamente como o grande salvador da Pátria. Torna-se rapidamente o campeão da renegociação da dívida, o grande ideólogo do “basta de austeridade” e o grande oponente da malvada troika. Temos de repente um PS equerdalho, com o keynesianismo na ponta da língua e com o cravo na lapela. Um PS inconformado, indignado, a grandolar e pronto para fazer a luta. Um PS do 25 de Abril, do 1º de Maio, aos abraços com os sindicatos e jurando lutar por amanhãs que cantam.

Esta romanceação do seu papel presente, assente num branqueamento do que até há pouco tempo defendia, é uma espécie de “Life of Pi”, com o argumento devidamente adaptado. Na história agora contada, não foi o PS que trouxe a troika para Portugal e que assinou o memorando de atendimento. Pelo contrário, o PS nunca teve nada a ver com isso. Na história agora contada, o PS também nunca defendeu a austeridade como mal necessário. Pelo contrário, os socialistas sempre se opuseram a este caminho. A sucessão de PECs que caraterizou o fim do governo de Sócrates foi apenas uma forma de, no fundo, evitar a austeridade (impondo austeridade). Na história agora contada, o PS também sempre defendeu a renegociação da dívida. Aliás, a expressão “calote” para qualificar a renegociação nunca foi utilizada por Sócrates há dois anos atrás. Nada disso! O PS sempre foi pela renegociação, pelo fim da austeridade e por uma política de crescimento.

Como partido tipicamente de poder, o PS tem esta incrível capacidade de romancear e tornar fantástico o seu percurso. Para quê contentar-se com a realidade quando podermos ter a fantasia? Para quê manter na nossa memória episódios tristes quando podemos facilmente colorí-los, contorná-los ou até esquecê-los? No “Life of Pi”, o protagonista fantasia para esquecer uma tragédia ocorrida. Nesta “Life of PS”, os protagonistas do partido entram numa espécie de delírio coletivo para escamotear as suas responsabilidades na situação atual. Porque não? Tirando o facto de pretenderem com isso passar um atestado de estupidez a todos os portugueses, não há problema nenhum…

Artigo hoje publicado no Esquerda.net

sexta-feira, 12 de abril de 2013

É melhor fazer uns desenhos





Tal como foi desde logo manifestado pelos mais insuspeitos setores, a decisão do Governo de suspender e submeter à consideração do Ministério das Finanças a quase totalidade da despesa da Administração Pública é um quase crime para o normal funcionamento das instituições. No fundo, qualquer instituição pública é obrigada a submeter-se a um processo de aprovação que tem como único propósito estrangular a contratação. E embora tal já fosse uma má prática em anos anteriores, ocorrendo tipicamente em Setembro ou Outubro, este ano tudo ocorreu passados apenas três meses do início do ano. Por esta decisão governamental revelar o grau de desorientação em que este Executivo se encontra mergulhado, se calhar é melhor fazer uns desenhos ao Dr. Coelho e companhia sobre as causas e consequências do que acabaram de fazer.

Em primeiro lugar, é quase anedótico verificar a relação de causalidade criada entre a decisão do Tribunal Constitucional e a necessidade de apertar ainda mais o cinto. Como se não houvesse outro caminho possível. O que este acórdão devia desde logo levar-nos a concluir é que Portugal precisa mais do que nunca de uma profunda negociação da dívida. Dilatando os prazos de pagamento e sobretudo reduzindo as contrapartidas lamentavelmente acordadas, este é o momento em que a renegociação faz mais sentido do que nunca. Este é o primeiro desenho que temos de fazer ao presente Executivo.

Em segundo lugar, mesmo com a calamidade social em curso, o Dr. Coelho e companhia parecem não ter ainda percebido que responder à austeridade com mais austeridade tem esfrangalhado o país. Os efeitos sociais são gigantescos, sendo até desnecessário aqui enumerar dada a evidência que encerram. Mas é também o perigoso efeito napalm que representam para a economia que devia preocupar seriamente todos os que não se coíbem de colocar a economia à frente das pessoas. Neste caso concreto, estrangular a contratação pública nesta fase do ano representa também estrangular todos os fornecedores da Administração Pública, que por sua vez estrangularão todos os que com eles se relacionam. Ou seja, gera-se aqui um efeito incendiário na economia nacional que vai conseguir o extraordinário feito de acrescentar calamidade à calamidade existente.

Em terceiro lugar, e como é também evidente para os mais diversos setores, este chumbo do Tribunal Constitucional veio colocar a nu a crescente falta de legitimidade democrática do atual Governo. Há muito já se demonstrou que as previsões feitas para justificar as suas medidas de austeridade falharam em toda a linha. Para além do oco reconhecimento internacional, não existe um único indicador que suporte o que tem vindo a ser feito. Mas como se tal não fosse suficiente, consegue-se agora a enorme proeza de demonstrar o desrespeito pelo quadro constitucional Português. Não só reincidindo em medidas que anteriormente foram declaradas inconstitucionais, mas também determinando que o país se afunde à custa da sua birra política na sequência da decisão do Tribunal Constitucional.

O último desenho que poderemos fazer a este senhores é que está de facto na hora de irem embora. Deixaram de ter a mínima legitimidade para conduzir o país na grave situação em que se encontra. Do lado de cá, fica apenas a faltar a constituição de uma alternativa sólida que demonstre que há um mundo de caminhos diferentes para resolver os graves problemas que temos entre mãos.

Artigo hoje publicado no Esquerda.net

quarta-feira, 10 de abril de 2013

5 anos


Há precisamente 5 anos, a vida deste activista nunca mais seria a mesma. Esta coisa de ser pai muda-nos de uma maneira quase indiscritível. A responsabilidade que sentimos por sermos a figura "pai" faz com que tudo mude. A forma como vemos o mundo, a forma como pesamos as diversas prioridades da vida, o modo como encaramos os problemas. No meu caso, reforçou até a vontade de mudar o mundo que nos envolve. Não só pelo típico "quero deixar um mundo melhor para o meu filho", mas sobretudo porque quero que o meu filho saiba que depende dele a mudança no mundo.

Eis então o Henrique fazendo hoje 5 anos. Não é por ser o meu filho :), mas é um miúdo fantástico,  desinibido, genuino, verdadeiro, observador, muitos amigo dos seus e que (não é por ser meu filho) transpira  felicidade. Para além de todas as normais funções de pais, julgo que o nosso papel tem sido muito o de lhe mostrar o mundo, de lhe fazer viver experiências connosco. Seja ajudando-o a descodificar as mensagens que recebe na escola ou na televisão, trazendo-o sempre connosco em viagens ou até trazendo-o a manifestações, queremos dar-lhe todas as ferramentas para que a descoberta do mundo seja uma forma de ele descobrir-se a si mesmo. 

Tudo o que  posso esperar é que ele seja quem ele quiser ser. E o seja de forma convita, apaixonada até. De sofá ou não, o que importa é que seja um ativista na vida. Venham mais 5!

segunda-feira, 8 de abril de 2013

É a Renegociação, estúpido!


O chumbo do Tribunal Constitucional não determina a inevitabilidade de mais cortes no Estado Social. Determina sim a inevitabilidade de uma renegociação da dívida. Alguém faça pf um desenho ao sr. primeiro-ministro.

domingo, 7 de abril de 2013

Que Cratinice


Acho fantásticos os aplausos a Nuno Crato neste processo Relvas. O Sr. Ministro ficou uns mesitos com o processo na gaveta, mas apesar disso todos acham que Crato foi inabalável e não se deixou influenciar... Lindo.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O ritmo dos Srs. Juizes





No meio de todo ete processo, importa também não esquecer o quão expedito é o Tribunal Constitucional. Três meses depois dos pedidos de fiscalização sucessiva da contitucionalidade, eis que surge o acordão. Três meses...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Notas da Viagem


Ver mapa maior

Duas semanas na estrada numa autocaravana, com míudos e tudo. 6000 km percorridos. Cansados, mas com a alma cheia, eis o tipo de férias que mais aprecio. E quando cada dia é um novo dia, consegue-se deixar a rotina do trabalho com um estalar de dedos. Deixo apenas algumas notas do percurso e das cidades onde estivemos:

San Sebastian
  • No País Basco, apenas conhecia Bilbau. San Sebastian era um dos destinos que há muito sentia como obrigatório;
  • A cidade é muito bonita, conseguindo conjugar a sua dimensão urbana e bastante organizada com uma zona costeira deliciosa.
  • Fica a vontade de lá regressar com mais calma para explorar melhor os seus recantos;
Cannes
  • Divinal. Cidade pequena que consegue fazer bem a ponte entre a dimensão turística de um destino obrigatório do sul de França e o facto de ser a capital europeia do cinema;
  • Zona costeira da cidade é deliciosa. Vale mesmo a pena visitar
Nice
  • Claramente a capital da  Côte D'Azur. Cidade com alguma dimensão, mas que me fez lembrar uma pequena Paris, com um  traço urbano lindíssimo.
  • Consegue aliar o facto de ser uma cidade costeira, nitidamente preparada para veraneantes, com uma boa componente cultural. Embora não tenha conseguido visitar, fica a vontade de conhecer pelo menos o Museu Chagall e o Museu Matisse; 
Mónaco
  • Correspondeu na perfeição ao que são os lugares comuns que sobre ele existem: riqueza desmesurada que se nota nos imponentes iates da marina, nos carros que circulam, etc.
  • Fica a sensação de ser um sítio engraçado, mas também algo mafioso, com gringos de Ferraris e Porshes a dar com um pau...
Florença
  • Destino obrigatório do norte de Itália, sem dúvida com uma aura artística ímpar;
  • Centro histórico delicioso
  • Convém apreciar bastante a arte renascentista. De outro modo, pode-se ficar um pouco enjoado com tanta Igreja, tanta estátua, etc :)
Roma
  • Palavras para quê? Simplesmente maravilhosa, claro. 
  • Romântica, com monumentos em cada canto, mas também com ruas e vielas deliciosas, onde se encontra sempre uma boa esplanada, uma boa livraria, ou até uma boa loja de brinquedos para criança;
  • Valeu a pena, claro, ir ao Vaticano. E vimos mesmo o Papa.

Milão
  • Superou as expectativas
  • Bonito centro histórico. Não possui a monumentalidade de Roma, nem nada que se pareça, mas a boa dose de urbanidade e a sofisticação faz com que se sinta logo que se está numa grande cidade.
Genebra
  • Antes de mais, o caminho para lá, vindo de Milão é delicioso, atravessando-se os Alpes e mergulhando-se bem naquela paisagem de montanha que nos enche a alma;
  • Gostámos de Genebra, sim, mas ficou a sensação de ser uma cidade algo impessoal. Não é uma grande cidade, mas também não senti o "aconchego" que as cidades com uma dimensão mais modesta proporcionam;
  • Lago Léman e os canais que atravessam a cidade são um dos traços mais interessantes;
Andorra
  • Férias de neve, claro. 
  • Arinsal, perto de Massana, foi a instância que conhecemos. Não percebendo muito do assunto, valeu muito a pena
Madrid
  • Apesar de ter sido muito breve, todas as oportunidades são boas para visitar Madrid. 
  • Embora atolhada de turistas, a zona dos grandes museus enche a alma. Dispenso o Prado. O Reina Sofia e o Thyssen-Bornemisza deixam-nos de barriga cheia.
Arronches
  • Paragem familiar, destacando-se a vontade de matar saúdades da gastrononia portuguesa :)

terça-feira, 2 de abril de 2013

O Grande Narrador



Sim, lamento mas este é mais um artigo, mais um comentário, mais uma opinião sobre a entrevista de Sócrates. É de facto impossível passar ao lado da entrevista de um ex-primeiro-ministro que se remeteu ao silêncio há quase dois anos atrás, apenas se sabendo que foi estudar para Paris. E é sobretudo inconcebível não comentar a entrevista de alguém a quem são atribuídas tão grandes responsabilidades pela situação atual do país. Sócrates voltou, é um facto, e voltou igual a si mesmo. Voltou também, como muitos entretanto sublinharam, para fazer política e não para comentar a política. Muitos pontos podiam ser sublinhados nesta entrevista. Optaria por destacar dois aspetos que me parecem determinantes.

Em primeiro lugar, foi interessante verificar o maniqueísmo que ressurgiu em torno das suas responsabilidades quanto ao estado a que o país chegou. De um lado, a direita política que durante estes dois anos não se cansa de sublinhar que “a culpa é do Sócrates”. A culpa por todo o endividamento do país? Do Sócrates, claro. A culpa do país ter caído na desgraça dos mercados e sofrido uma intervenção externa? Evidentemente do Sócrates. E a austeridade a que hoje estamos sujeitos, com cortes nos salários, desemprego em alta e uma economia verdadeiramente esfrangalhada? Tudo culpa Sócrates, de quem poderia ser? Não é pois de estranhar que a forma como desconstruiu esta “narrativa” tenha sido tão elogiada por uns e tenha gerado tanto desconforto perante outros.

Como hoje todos os factos demonstram, mas como era já evidente há dois e até há três anos atrás, a crise financeira internacional gerou dinâmicas incontroláveis por qualquer governo nacional. Perante a especulação frenética dos mercados financeiros, que atacam qualquer economia guiados apenas por uma racionalidade de casino, a margem de atuação de qualquer governo é limitada. Atribuir portanto a responsabilidade e as consequências destas dinâmicas aos Executivos nacionais é perfeitamente redutor e populista até. O ex-primeiro-ministro esteve bem a desmonstar a referida narrativa de que “a culpa é do Sócrates”. Mas importa sublinhar que o fez de forma exatamente igual à utilizada na campanha para as legislativas de 2011. É portanto anedótico e sintomático da falta de memória o súbito brihantismo que lhe é atribuído a este respeito...

Mas é na explicação da crise política que levou ao fim do seu governo que Sócrates mais patinou, demonstrando que ele próprio não conseguiu descolar da sua própria narrativa. Segundo o ex-primeiro-ministro, o PEC 4 era a solução que o país precisava, que até já tinha sido negociada com a Comissão Europeia. Mas a malvada oposição encarregou-se de deitar fora tal oportunidade, mergulhando o país numa crise política. Esqueceu-se de dizer apenas alguns detalhes: que a forma como conduziu o processo do PEC 4, sem sequer informar a oposição ou até o Presidente da República, foi verdadeiramente kamikaze. Sabia evidentemente que daquela forma o PEC 4 nunca seria aprovado, i.e., sabia que com aquela jogada haveriam eleições antecipadas.

E esta sua linha de argumento sobre o PEC 4 chega a meter dó pela fragilidade que encerra. Por um lado, omite o facto dos PEC serem já a face visivel de uma política austeridade que vinha crescendo aos olhos de todos. Ou seja, os PEC foram os primeiros passos no “escavar” que agora tanto horroriza Sócrates. Por outro lado, ao ritmo que o seu governo apresentou novos PEC, se não tivesse entretanto caído, estariamos hoje provavelmente a discutir o PEC 20. 

Sócrates é um bom comunicador? É. A culpa da crise não foi toda dele? Claro que não. Os zigue zagues da sua entrevista demonstram que continua a ser alguém a quem eu não compraria nem um porta-chaves? Pois... Mas sim, é um grande narrador, sem dúvida.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

sexta-feira, 15 de março de 2013

Fomos Papados?



Com maiores ou menores expectativas, é difícil passar ao lado da eleição de um novo papa. A mudança do responsável máximo da Igreja Católica é demasiado relevante para poder passar despercebida. Não é necessário aprofundar o papel que a Igreja continua a ter na formação das mentes e da cultura dos povos, ou a influência que tem direta ou indiretamente no fenómeno político. Somos obrigados a concordar que a escolha sobre quem ocupará o cargo de papa não é um mero pormenor. Pelo contrário, com maior ou menor mão de deus, o peso estratégico desta escolha determina que tenhamos de estar atentos às suas consequências.

Como é evidente, mais do que saber se é do país A ou B, se anda de transportes públicos ou se é amante de futebol e de tango, importa saber se teremos um novo papa conservador ou reformista.Teremos alguém do status quoou alguém empenhado na mudança? O novo papa será capaz de inverter o endurecimento da Igreja que Bento XVI corporizou ou procurará marcar pela mudança? Será capaz de agarrar de frente os míticos tabus internos da organização – como o celibato dos padres e o acesso das mulheres ao sacerdócio – ou mantê-los-á intactos? Será capaz de gerar mudança em posicionamentos sociais quase primitivos – como a igualdade entre homens e mulheres, o sexo como algo separado do processo de procriação, a possibilidade dos casamentos terminarem ou a normalidade da homossexualidade?

Pelos vistos a escolha a que se chegou não traz grande animação a quem espera pela mudança na Igreja. Jorge Mario Bergoglio é conhecido por liderar a ala conservadora da Igreja argentina e por constar em processos judiciais pela sua cumplicidade com a ditaduraque o seu país viveu. As nebulosas quanto a esta última dimensão são mais do que muitas e o seu papel muito ativo contra a legalização da IVG em caso de violação ou de risco de vida da mãe e do bebépermitem-nos perceber com clareza o nível do seu conservadorismo. A Associação Novos Rumos, que representa os homossexuais católicos em Portugal, também já veio recordar que Bergoglio se referiu ao casamento entre pessoas do mesmo sexo como sendo "um plano de Satanás para enganar os filhos de Deus". Comentários para quê?

Estranho seria que o conclave que elegeu Bento XVI e que até foi reforçado por escolhas suas, tivesse agora escolhido um papa progressista, de mangas arregaçadas e com vontade de colocar mãos à obra de reformar a Igreja. Não foi isso que de facto aconteceu e é naturalmente exasperante pensar que teremos com certeza de esperar mais uma série de anos para que tal possibilidade exista novamente. A Igreja escolhe o seu destino, mas é naturalmente lamentável que uma instituição com a sua dimensão persista em viver literalmente no além.

Artigo hoje publicado no Esquerda.net

terça-feira, 12 de março de 2013

Bullshit?


Bullshit ou não, a carta do PS abrindo as portas a coligações em concelhos onde PSD e CDS concorrem juntos é um passo interessante. Se for sincera, tanto melhor. Se for pura bullshit, servirá no mínimo para PCP e Bloco justificarem bem aos seus eleitorados o porquê de afastarem à partida este tipo de hipótese. Um exercício sempre interessante nos tempos que correm.

Depois do Adeus

E quando achávamos que o "Conta-me como foi" seria algo absolutamente único e irrepetível, eis que a RTP (aquele canal público que nem faz serviço público) brinda-nos com o "Depois do Adeus". Para os que ainda não viram, apenas digo que estarão certamente a perder mais uma das melhores séries portuguesas dos últimos anos.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Façamos o contrário do que eles dizem


É no mínimo caricato ver Passos Coelho a falar em barreiras para o emprego... E quanto a António Borges, nem falar. É um pouco como um ladrão vir falar de barreiras à segurança, ou como um corrupto vir falar de barreiras à integridade. Na dúvida, o melhor é fazer sempre o contrário do que eles dizem. 

terça-feira, 5 de março de 2013

Chávez


Foi um populista? Foi. Pisou demasiado os limites democráticos? Sim, e tal não deve ser esquecido. Do mesmo modo,  importa não esquecer que representou uma enorme esperança e fez muito pela generalidade do povo venezuelano e mudou o panorama político na América Latina. Justiça à sua memória, aos bons e aos maus momentos.

Estamos Contentes?



José Contente oficializou no passado Sábado a sua candidatura à presidência da Câmara de Ponta Delgada. Com o forte apoio dos presidentes do PS Açores, o ex-secretário regional apresentou a sua ambição para a cidade, governada há 20 anos pelos sociais-democratas. Tal como já tive oportunidade de sublinhar anteriormente, inclusive neste espaço, a permanência de um partido no poder por longos períodos acarreta inúmeros vícios. Neste sentido, uma mudança de cor política em Ponta Delgada poderia ser uma forma de arejar o executivo municipal, trazendo novas dinâmicas e abordagens, novas ideias, novas prioridades e até novas caras. 

No entanto, a candidatura com elevado potencial vencedor agora apresentada por José Contente acaba por apresentar um baixissimo “potencial de arejamento”. Ou seja, diversos fatores limitam à partida a sua capacidade para representar uma mudança de facto para a cidade. Comecemos pelo posicionamento do executivo da cidade relativamente ao Governo da região. Ponta Delgada é hoje um dos poucos concelhos açorianos que ainda não é dominado pelo PS. E o facto de Berta Cabral ter utilizado o concelho para competir com o poder regional está longe de ser necessariamente mau. Pelo contrário, este tipo de competição tipicamente beneficia os próprios municípes, que são assim particularmente “acarinhados” por um autarca que se quer diferenciar do quadro político circundante. Ganha também a democracia na região por ter na maior cidade do arquipélago um contrapeso ao partido dominante.

Mas o factor acima acaba por se revelar secundário quando temos em conta o perfil e currículo do actual candidato socialista à autarquia. Falar de renovação em Ponta Delgada e apresentar José Contente é no mínimo paradoxal. José Contente é um dos mais antigos rostos do Governo PS na Região. Foi Secretário Regional nos últimos 16 anos, período durante o qual foi quase sempre considerado o braço direito de Carlos César. Complicado seria encontrar alguém com tanta rodagem como José Contente. Aliás, será particularmente interessante acompanhar o debate eleitoral em Ponta Delgada. Contente colocar-se-á naturalmente como challenger, questionando a obra do PSD na cidade e o que teria feito melhor. Acontece que Contente foi ele mesmo o super-Secretário Regional das Obras Públicas, sendo pouca a obra do Governo Regional que não tenha passado pela sua mão, nomeadamente em Ponta Delgada. 

Se a isto somarmos o facto deste desafio de Ponta Delgada surgir na sequência de um delicado processo de sucessão PS, ficamos com a série impressão de que se trata de uma candidatura que resulta de uma espécie de negociação palaciana que a todos os delfins procurou agradar. Vasco Cordeiro ficou com a Presidência do Governo, Sérgio Ávila ficou como super-secretário, José Contente ficou com Ponta Delgada e Carlos César conseguiu o magnífico feito de continuar a ser presidente do PS Açores. Um bonito quadro, apoiado mais uma vez por um unanimismo que reflete bem o nível de debate interno que deve existir no PS Açores.

Num momento em que tanto se discute a limitação dos mandatos dos autarcas, e a legitimidade destes se candidatarem ou não ao concelho ao lado, temos aqui o exemplo do “velho” governante que aspira agora a ser autarca. E que quase de certeza ganhará, tendo em conta a fraquíssima notoriedade do seu adversário. Estamos contentes com a candidatura do PS a Ponta Delgada? Na minha humilde opinião, o PS tem nas suas fileiras quadros bem mais novos e arejados do que José Contente. É pena que não os aproveite, procurando pelo contrário presentear quem neste momento ganharia em fazer uma saudável sabática no exercício de cargos públicos. 

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental
(Imagem: PS Açores)

domingo, 3 de março de 2013

Júlio dos Reis Pereira no CAM


Vale mesmo a pena visitar a exposição de Júlio dos Reis Pereira na Gulbenkian. A sua obra relembra-nos que o surrealismo também se fez sentir bem neste país. A exposição está disponível até 7 de Abril.

Do Terreiro do Paço à cultura da Azeitona


"O Terreiro do Paço, onde não cabem 180 mil pessoas, não chegou a encher". Esta notícia do Público de hoje procura assim deitar por terra alguns números avançados pela organização das manifestações de ontem. E o mesmo raciocínio foi ontem seguido pelas televisões ao longo do dia. Só é pena que quem assuma este raciocínio perceba tanto de manifestações como eu percebo da cultura da azeitona.

Como é evidente, não me compete aqui defender os 700 ou 800 mil ontem anunciados pela organização só em Lisboa. Mas qualquer pessoa que tenha estado na manifestação em Lisboa sabe que o Terreiro do Paço não encheu porque a vasta maioria das pessoas não permaneceu ali quando o percurso terminou. E é bastante típico que assim aconteça neste tipo de manifestações.

Ou seja, ao mesmo tempo que desaguavam milhares de pessoas no Terreiro do Paço, outras tantas dispersavam. Relembro que quando a cabeça da manifestação chegou ao Terreiro do Paço, a sua cauda ainda se encontrava no cimo da Avenida da Liberdade. Só jornalistas da cultura da azeitona podem achar que as pessoas lá ficariam à espera até que a praça estivesse completa.

Mais do que discutir números...




... Que pouco ou nada interessam neste momento, importa constatar que afinal o país está vivo políticamente. As pessoas mobilizam-se, as pessoas sentem, as pessoas querem a mudança. Sem melo-dramatismos, é muito bom ver que as pessoas participam, que a democracia está viva.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Uma Ganda Manif


Estamos condenados a ter amanhã uma “ganda manif”. Ou melhor, gandas manifs. Com mais ou menos ajudas das grandoladas que sucedem um pouco por todo o país, com maior ou menor relevo dado pela comunicação social e com mais ou menos apoio dos comentadores da praça, o 2 e Março será um grande dia. Com toda a agitação que se sente nas redes sociais, com o desagrado que se sente nas ruas e com as correntes da saúde, da educação, feministas ou LGBT, está visto que será a confluência de diversas vontades. E, como dizem os manuais, as grandes manifestações são feitas destas confluências.

Como é evidente, a má notícia é que o sucesso da mobilização para o próximo sábado deve-se ao facto do país ter batido estrondosamente no fundo. Com um desemprego com níveis inacreditáveis, com uma economia estraçalhada, com a hipoteca de qualquer futuro digno, com uma fuga maciça de cérebros para o estrangeiro, com a redução de direitos como nunca se viu, com a destruição do Estado Social, este Governo tem conseguido de unir setores políticos bastante distantes.

Por seu turno, a boa notícia é que a tragédia em curso teve a capacidade de demonstrar mobilizações populares raras em democracia. O 15 de Setembro foi um exemplo paradigmático a este respeito, com números impressionantes e ocorrendo até em cidades com muito pouca tradição nestes domínios. As pessoas, e não apenas os suspeitos do costume, parecem ter-se recordado que a democracia também se faz nas ruas, mostrando indignação, mostrando que se é exigente e que a vontade de mudança é uma arma que pode e deve ser mostrada. Não tenhamos dúvidas que temos assistido nestes últimos tempos a uma saudável reativação da participação política, cumprindo-se assim o clássico enunciado de que a democracia não se esgota com a inserção do boletim na urna de quatro em quatro anos.

O 2 de março está condenado a ser um grande dia. Não será certamente o último deste Governo que já mostrou ter diversas vidas. Não será também um ponto de chegada, mas sim mais um passo importante na demonstração de que vale a pena indignar-se. Venha a alternativa!

Artigo hoje publicado no Esquerda.net