sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Vamos a isto!

As autárquicas representam um esforço hercúleo para os diversos partidos. Conseguir estruturar centenas ou mesmo milhares de candidaturas, não é com certeza uma tarefa fácil. Sobretudo quando se pretende manter uma linha política coerente, séria, focada nas pessoas e não nos jogos político de curto prazo. Neste sentido, o Bloco tem naturalmente na fase de preparação das eleições de tipo autárquico um desafio particularmente grande.. 

Enquanto partido ainda recente, com uma estrutura organizacional relativamente leve, a preparação administrativa e logística das autárquicas e as necessidades de campanha inerentes não são com certeza uma tarefa fácil. Estruturar e desenvolver candidaturas por todo o país, preparando os candidatos, apoiando-os administrativa e logisticamente, são um verdadeiro teste à organização de qualquer máquina partidária, sobretudo às mais recentes.

Por outro lado, o facto de não pertencer ao centro político, o facto de ser focado em objetivos claros de mudança social, económica, política, cultural, entre outros, determina que a coerência seja o seu nome do meio. A verticalidade com que tem de se apresentar a estes atos eleitorais, ou a qualquer desafio que se lhe põe, eleva naturalmente o nível de dificuldade da sua missão.

E se a isto adicionarmos o facto de os restantes principais partidos levarem décadas de avanço no desenvolvimento de estruturas partidárias locais, implantação no terreno, conhecimento das especificidades locais, entre outras dimensões, percebemos claramente que as autárquicas são o desafio dos desafios do Bloco, enquanto partido político. Torna-se até difícil apontar um desafio tão grande como este que agora acorre.

É tendo em conta as dificuldades acima apontadas, assim como muitas outras que não são certamente aqui referidas, que podemos dizer que o trabalho realizado foi gigantesco. Não é sequer necessário estar muito por dentro dos seus meandros para perceber isso mesmo. Os milhares de militantes e simpatizantes que conseguiram colocar de pé esta mega-campanha têm com certeza razões para estar satisfeitos. Não porque tudo tenha sido perfeito, ou porque não seja possível encontrar melhores formas de o fazer, mas porque foi com certeza feito o que foi possível e impossível até.

O Bloco nunca gostou de desafios pequenos. Pelo contrário, são os grandes que nos motivam. São os desafios críticos, os desafios a doer, os desafios a sério que nos fazem correr. E a política para nós não é para nós uma profissão ou um trampolim. Estamos cá para mudar, é isso que nos move. Estamos prontos! Vamos isto!

Artigo hoje publicado no Esquerda.net

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Bluffs, Moralismos e Vingançazinhas


Passos Coelho brindou-nos no Domingo com mais um discurso do tipo “ou eu, ou o caos”. Pedro explicou na Universidade de Verão da JSD que a decisão do Tribunal Constitucional contra o sistema de requalificação dos funcionários públicos roçou a irresponsabilidade. Sem os 900 milhões de euros que o Governo previa daí arrecadar, onde irá agora o país buscar tal verba? Uma coisa parece certa para o primeiro-ministro: a medida justa, iluminada e bem-intencionada do Governo foi travada pelos chatos juízes do constitucional. O bando de malandros da função pública conseguiu mais uma vez levar a melhor e tal sairá certamente caro ao país. Quase ouvimos o Pedro suspirar: “Caramba, logo agora que tudo parecia estar a ir ao sítio, e vem-nos o Tribunal constitucional estragar a festa.” E o pior é que, com este chumbo, o Pedro não terá alternativa a não ser ir buscar a outro lado que será ainda mais doloroso para os contribuintes. Ele não queria, mas o Constitucional não lhe deixa alternativa.

Bem… Comecemos pelo fim. Tem sido interessante ver a mudança de discurso operada pelo Governo nestas últimas semanas. Pedro e Paulo assumem (agora) que o país bateu no fundo, mas que a recuperação está já a acontecer. Se calhar não reparámos mas a economia está já a recuperar. O único problema desta mensagem é que ela não condiz com o que vem a seguir. Por um lado, continuamos a ouvir que é preciso intensificar a austeridade. Ou seja, continuar o caminho que nos levou a bater no fundo… Por outro lado, ouvimos também que caso não intensifiquemos a austeridade, haverá com certeza um segundo resgate. E aí ficamos mesmo sem perceber. Segundo resgate? Mas há pouco não nos tinham dito que a economia estava já a recuperar?

Sendo uma jogada bem conhecida em política, Pedro e Paulo bem podiam esforçar-se por variar um pouco nesta estratégia de bluff seguida de vingançazinha. Ou seja, primeiro tentam sempre convencer-nos que não existe alternativa à medida proposta. Ela é dura, mas tem de ser. Foi assim com a Taxa Social Única, foi assim com os cortes dos dois subsídios da Função Pública e muitos outros exemplos poderiam aqui ser citados

Depois, quando bloqueada pelo Constitucional ou oposição, ficamos a perceber que a medida não só era dura, mas era também justa. Visava portanto repor uma qualquer disfuncionalidade do nosso sistema. Entrámos então na fase moralista. Veja-se o exemplo dos despedimentos na função pública. No início o Governo nem queria aplicá-los, mas depois lá vem dizer-nos que a sua aplicação é uma questão de justiça, de igualdade e até de moral. Tenta portanto convencer-nos que se está a perder uma boa oportunidade para colocar ordem na casa, moralizando a distribuição dos sacrifícios por todos.

Por fim, depois da fase do bluff e da fase moralista, surge a fase da vingançazinha. Isto é, o Governo não queria ir além do que propôs fazer. Mas não lhe deixam alternativa a não ser avançar com medidas ainda mais duras, ainda mais inimagináveis há pouco tempo atrás. O que se seguirá a este chumbo aos despedimentos na Função Pública? Mais encerramentos de serviços públicos? Acabar com a ADSE, RTP e outras bestas negras da direita portuguesa? 

Passos Coelho faz bem em recordar que os tribunais não governam. Não é esse de facto o seu papel e a separação de poderes é boa e nós gostamos. E os tribunais também fazem bem em lembrar-lhe que nenhum Governo pode suspender a lei fundamental. A Constituição e, consequentemente, o Tribunal Constitucional, são daquelas coisas que, vá-se lá saber porquê, têm de ser respeitadas. Pedro e Paulo, temos pena, é uma chatice, é uma seca, mas a democracia tem destas coisitas.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Quando eu for pequeno, quero ser da JSD


No mesmo dia em que Passos diz que o problema é do TC e não da Constituição,  o líder da JSD quer uma revisão constitucional...

No país da bola, culpar o árbitro é sempre uma boa solução


«Três dias depois de mais um chumbo do Tribunal Constitucional (TC) a medidas de austeridade, o primeiro-ministro elegeu aquele órgão de soberania - e não a Constituição - como um obstáculo à concretização das reformas exigidas pela troika. (..) Defendendo que “não é preciso rever a Constituição” para concluir as reformas do Estado, Passos Coelho apontou o que tem faltado aos juízes do TC na interpretação da Lei Fundamental: “É preciso bom senso”.»  in Público
(Imagem: DN)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O Gangue


O BPN era uma espécie de clube. Um clube de alta sociedade, melhor dizendo, com muita gente lá metida, muita gente a lá fazer os seus grandes negócios. Ricos, novos ricos, remediados, gente mais ou menos famosa dos mais diversos setores por lá andava. E tudo corria bem, a fartura dava de comer a muitos e o banco era visto como mais um bom exemplo do espirito empreendedor dos anos noventa. Era mais um dos símbolos de um Portugal cheio de oportunidades, paraíso para os espíritos mais arrojados e descomplexados, onde era norma investir-se 1 e colher-se 5. 

No entanto, quando se descobriu o buracão BPN, as falcatruas que encobria e o quanto o erário público teria de desembolsar, subitamente parece que o clube nunca existiu. Melhor dizendo, sabe-se que existiu, mas parece que afinal tinha apenas dois ou três grandes frequentadores. Oliveira e Costa e Dias Loureiro é que foram os grandes responsáveis de tudo o que aconteceu. Todos os restantes não sabiam de nada, coitados. Gente honesta e distraída que por lá passou, fez uns troquitos e mais nada.

O exemplo de Rui Machete, o ministro retirado do baú cavaquista, é bastante paradigmático a este respeito. O ilustre senhor a quem foi concedida a honra (e o proveito financeiro, claro) de presidir à Assembleia Geral da Sociedade Lusa de Negócios (SLN) gosta pouco de recordar esses momentos. Até os omite no seu currículo e tudo. É sempre interessante aliás ver um ex-presidente da Assembleia Geral da SLN a indignar-se com a “podridão dos hábitos políticos” quando alguém tem o desplante de lhe recordar esta sua estreita ligação ao grupo de Oliveira e Costa.

Curiosamente, não só Machete esteve estreitamente ligado à SLN, como foi mais um dos beneficiados das gloriosas vendas de ações da SLN ao BPN, com lucros de 150%. A operação de Machete foi em tudo semelhante ao caso ocorrido com Cavaco Silva e a sua filha, que entre 2001 e 2003 compraram ações que venderam 2 anos depois com lucros também na ordem dos 150%, e que resultou num ganho para a família Cavaco Silva de 350 mil euros. Esta venda de ações da sociedade do amigo Oliveira e Costa ao banco do amigo Oliveira e Costa revela-se de facto muito proveitosa. 

Sejamos claros: o BPN é com certeza o maior crime financeiro ocorrido no Portugal democrático. Um buraco de milhares de milhões de euros que teve de ser coberto pelo dinheiro dos contribuintes. E que ainda hoje continua a fazer grande moça, uma vez que com frequência vamos sabendo que mais uma tranche de milhões do orçamento de Estado foi transferida para cobrir o buraco. E o BPN não foi um banco qualquer. Toda a gente sabia que era gerido por uma série de figuras dos governos PSD de Cavaco Silva. O próprio Cavaco Silva continua a ter muito que esclarecer a este respeito, uma vez entre gloriosas compras e vendas de ações e permutas de casas velhinhas com mansões na Aldeia da Coelha, a sua proximidade ao grupo SLN é hoje indiscutível. 

A conversa sobre as ligações obscuras entre a política e os grandes grupos económicos parece sempre saída de uma qualquer cassete que, concordemos ou não, ficámos um pouco fartos de ouvir. Mas se há casos em que tal expressão faz sentido, este caso é o BPN. Recordar o BPN reflete a podridão da política? Não podíamos estar mais de acordo! O BPN foi de facto uma podridão, por isso o gangue que a ele esteve associado devia, no mínimo, ter a hombridade de se calar e afastar-se do exercício de cargos públicos. Rui Machete fez parte do gangue? Não faço ideia. Foi amigo ou esteve muito próximo do gangue? Julgo que não existem dúvidas a este respeito.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

domingo, 4 de agosto de 2013

Piadas de mau gosto

Durante esta semana, Ana Drago referiu-se ao Governo como um “grupo de destroços”. Da Ministra das Finanças, que denota ter uma relação atormentada com a verdade, ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, saído do bolorento baú cavaquista, o nível de descredibilidade atingido por cada um dos membros do Executivo leva-nos a pensar que estamos diante de uma brincadeira de muito mau gosto. Mas qualquer que seja o prisma que olhemos, o delírio a que chegámos é sempre ofuscado por uma figura que se destaca: Paulo Portas. Quando achávamos que já tinhamos visto tudo do Paulo, que o seu contorcionismo já tinha batido todos os recordes, este nosso Ronaldo da ginastica política consegue sempre surpreender-nos.

Numa primeira fase, ficámos incrédulos com a “irrevogabilidade fléxivel” de Portas. Num momento estava a bater com a porta, assegurando não ter condições para continuar. No momento seguinte estava alegremente a aceitar o cargo de vice-primeiro-ministro, esta figura governativa estranha que agora teremos de nos habituar. 

Depois, ficámos boquiabertos com o reforço dos lugares do Governo atribuidos ao Paulo e aos seus seguidores. Os ânimos do CDS acalmaram-se assim que se abriram os cordões da bolsa de assentos governamentais. De repente o Governo ficou refém do pequeno parceiro da coligação, naturalmente maravilhado com a dimensão dos recursos a distribuir pelos seus.

Por último, porque a festa não se faz apenas em torno da forma, mas também da substância, a distribuição de pelouros e competências no seio do Governo também não deixa ninguém indiferente.Subitamente temos um vice-primeiro ministro a dominar as pastas económicas. que vão desde os fundos QREN à internacionalização da economia, mas também a reforma do Estado, mexendo assim em competências de ministros que pareciam estar a escapar à sua esfera de influência. Trocam-se tutelas de institutos e direções-gerais como se de cromos se tratassem, brincam-se às casinhas sem sequer se disfarçar.

Neste Verão, parece ter saído a sorte grande ao país. À silly season juntou-se agora um silly government. Ninguém se poderá queixar de falta de animação.

Artigo publicado sexta-feira no Esquerda.net

domingo, 28 de julho de 2013

SWAPalhaçada

Ver o PS a acusar com todo o vigor a ministra por ter conhecimento dos contratos SWAPS é lindo. No fundo, o que nos estão a dizer é que durante o seu Governo realizaram-se ruinosos contratos SWAP (pequeno pormenor), mas é gravíssimo que a ministra negue ter tido conhecimento destes processos... Fantástico.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Um abraço de Portugal

Não havendo palavras que descrevam bem este sentimento de solidariedade para com as vitimas da tragédia Galega, fico-me por um abraço sincero.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Brincar à casinhas sai caro

Gostava que um dia destes pudessem ser medidos os custos reais das remodelações governamentais. E não me refiro apenas aos logotipos que têm de ser mudados, às instalações que são adaptadas e às mudanças de cadeiras nos gabinetes ministeriais e nos cargos de topo da Administração Pública. Refiro-me a aspetos administrativos como os milhares de horas que serão agora consumidos a rever leis orgânicas de ministérios, fazer pontos de situação aos novos responsáveis, novos planos de atividades, rearranjos orçamentais para dividir o que antes estava junto, entre outros "detalhes". Horas e horas de trabalho que serão agora dispendidas neste tipo de tarefas. 

Mas é sempre engraçado encontrar alguns exemplos ilustrativos deste verdadeiro "brincar às casinhas"e dos caprichos que normalmente lhes são inerentes. A AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal) saiu do Ministério da Economia há dois anos atrás para integrar os Negócios Estrangeiros liderados por Paulo Portas. Logo se explicou publicamente que este tipo de organismo, ligado à promoção económica externa do país, devia ser tutelado pelo MNE. Certo... Mas passados dois anos, a AICEP volta para o Ministério da Economia. Porquê? Portas gosta demais da AICEP para a deixar a Rui Machete. Prefere dar (ou emprestar) o seu brinquedo ao seu amigo Pires de Lima. Comentários para quê?

(Imagem: Jardicentro)

terça-feira, 23 de julho de 2013

Os Campeões da Estabilidade


Gaspar demite-se e deixa uma herdeira. Paulo não gosta e bate com a porta. Passos não aceita tal rompimento. Corre atrás, negoceia, dá o seu melhor para segurar o parceiro. E consegue-o, em troca de cargos e glória. Cavaco não gosta da jogada. Manda parar o jogo e exige que PS, PSD e CDS deem as mãos e salvem o país. Uma semana depois, nada feito. Não há acordo e volta-se à estaca zero. Cavaco fala a um país encavacado. Afinal o Governo fica em funções, afinal a coligação está de boa saúde e até saiu reforçada deste processo. Comentários para quê?

Três semanas depois, o país continua mergulhado numa inarrável crise política. Ficamos na dúvida sobre se devemos rir dos contornos da mesma, que conta já com inúmeros momentos que assumirão com certeza um lugar de destaque nos tesourinhos deprimentes da política portuguesa. Ou se ficamos devastados com este stand by num país que precisa urgentemente de políticas que contrariem a catástrofe em curso. Ou, ainda, se ficamos indignados com todo este lamaçal em que os jogos políticos parecem ter mais uma vez ultrapassado todos os limites. O sentimento da generalidade dos Portugueses é com certeza uma mistura dos três estados acima expostos. 

Mas no meio de toda esta confusão, desta sucessão de acontecimentos inimagináveis, quase somos tentados a esquecer como tudo começou e quem esteve na sua origem. E, curiosamente, passadas estas três semanas, verifica-se que aqui fomos mergulhados pelos grandes guardiões da estabilidade, os campeões da defesa dos sacrifícios dos portugueses e os gurus da manutenção da reputação internacional do país. Ou seja, foram precisamente os atores políticos que mais encheram a boca nos últimos anos com a necessidade de estabilidade, de suportar os sacrifícios e de colocar o interesse nacional acima dos interesses pessoais e partidários, que agora resolveram mergulhar o país no pântano político.

De um dia para o outro, a tão pragmática e inabalável direita no poder desentendeu-se fortemente. E fê-lo em praça pública, numa sucessão de acontecimentos que, ainda hoje, quando recordados nos deixam de boca aberta. Portas que resolve sair e anuncia-o publicamente de surpresa, deixando abismados os seus parceiros de coligação, mas também os responsáveis do seu partido. Segue-se uma semana de negociações em que o irrevogável se foi esbatendo perante cada nova conquista. Chega-se então a uma solução de remodelação que, sendo polémica, retiraria o país do stand by em que fora mergulhado.

Surge o até então silencioso Cavaco. Quando o país pensava que estavam então reunidas as condições para voltar à normalidade ou, em oposição, convocar eleições antecipadas, o Presidente opta por uma solução intermédia que não ata nem desata. Pelo contrário, mergulha os atores políticos em mais uma semana de negociações que desde logo se sabiam inglórias. Foi de facto esse o resultado: uma mão cheia de nada e um país ainda em stand by.

Curiosamente, a convicção sobre a estabilidade a qualquer curso mantém-se, continuando o PSD e CDS a querer dar lições de estabilidade a qualquer um que com eles se disponha a discutir. Não deixa de ser curioso que uma crise política se tenha instalado numa coligação com maioria absoluta no Parlamento e com um fiel apoiante em Belém. Ou seja, andamos há três semanas mergulhados numa crise e com muitos a clamarem por soluções de salvação nacional quando na verdade o cenário de maioria parlamentar de direita, apoiada por um Presidente da República do mesmo quadrante, levar-nos-ia a acreditar que a estabilidade politico-institucional seria garantida à partida. Pelos vistos os campeões da estabilidade…afinal não são assim tão estáveis.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

O Segundo-Ministro


Chamar alguém de "vice-primeiro-ministro" é um contra-senso...
(Imagem: Jornal Digital)

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Este país não é para sérios


Já chegámos a pelo menos um grande consenso nacional: o espetáculo político que nos tem sido oferecido nas últimas semanas está a bater todos os recordes de parvalheira. Quando pensávamos que a coisa não podia piorar, que tínhamos batido no fundo, eis um panorama de total estupidificação nacional. Com contornos inacreditáveis, difíceis até de explicar ao comum dos mortais 

 Ora temos dois parceiros de coligação que, depois de se desentenderem tristemente em praça pública, com irrevogabilidades e fatalidades, surgem de repente profundamente empenhados na salvação nacional. Procuram agora ativamente os consensos, assumindo-se como campeões do patriotismo e fiéis guardiões dos sacrifícios que os portugueses fizeram até agora. Surgem agora fortemente empenhados em salvar o país de uma crise económica que o seu Governo intensificou e de uma crise política que os seus líderes provocaram. 

 Do outro lado, temos um PS profundamente indignado com a crise económica em que o país foi mergulhado. Explica-nos diariamente com toda a convicção porque não faz sentido a política da troika que veio para Portugal a seu convite, aplicar um programa por si validado. É aliás por tudo isto que votou favoravelmente a moção de censura do PEV, ao mesmo tempo que dialoga com PSD e CDS em busca de uma solução a pedido do Presidente que não suporta, ao mesmo tempo que acusa os partidos à sua esquerda de manobras partidárias. Portanto, o PS tem tido uma atitude muito séria. 

Por último, e para compor o ramalhete, um Presidente da República que, após tristes silêncios, revelou-se novamente especialista na arte de “a emissão segue dentro de momentos”, criando problemas em cima dos problemas. De repente, a solução que tinha de ser resolvida rapidamente e a todo o custo, passou a ser ainda mais complicada de resolver. A salvação nacional, esse remédio cujos milagres a nossa história política comprova, passou a ser o grande objetivo do país. E subitamente, quando a todos são pedidos esforços hercúleos para salvar o país, o Presidente antecipa a sua viagem para… as ilhas Selvagens! O Inimigo Público não se teria lembrado de algo melhor… 

O espetáculo político-mediático nunca foi conhecido pela sua seriedade, é um facto. Mas desta vez estamos a superar-nos. E viva Portugal…

Artigo hoje publicado no Esquerda.net

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Stand up Bullshit


Ver os representantes dos "partidos do arco da governação" (ou do arco da troika) a prestar declarações ou a comentar a atualidade por estes dias é uma autêntica maratona de stand up bullshitt. Ou bullshit ao desafio, se preferirem... Não consigo deixar de me impressionar com este troca-tintismo de alto competição.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Cavacadas


Lei de Murphy: Quando achamos que já vimos tudo em Cavaco, ele consegue surpreender-nos. E neste caso concreto, vai ser mesmo necessário um esforço grande para se desmontar aquilo que pretende. Como é sabido, a opinião pública tipicamente apoia estas soluções de entendimento...

terça-feira, 9 de julho de 2013

Silly Government


Estou muito contente que o presente Governo mantenha-se em funções. Como blogger e como cidadão que aqui partilha as duas ideias quinzenalmente, a manutenção em funções deste governo é uma maravilha. É o garante da existência de matéria-prima, regular, pronta a consumir, pronta a esmiuçar, capaz de fazer brilhar qualquer cronista ou comentador. Aliás, acredito que a manutenção em funções deste governo deve ter sido também alegremente recebida pelo mundo do humorismo em Portugal. Ricardos Araújos Pereiras e Brunos Nogueiras terão assim sempre episódios diários para caricaturar nas suas crónicas na rádio. As Quadraturas do Circulo, os Eixos do Mal e os Governos Sombra adorarão também comentar as aventuras e desventuras do presente Executivo. Neste universo de programas e publicações que vivem do comentário político, apenas temo pelo Inimigo Público. É que a realidade corre o risco de ultrapassar a imaginação da redação deste suplemento satírico do jornal Público.

Falando um pouco mais a sério, todas as condições parecem agora reunidas para que este Governo seja muito semelhante aos 6 meses de Santana Lopes ao leme do país. Com níveis de credibilidade insustentáveis, tendo perdido todas as redações de jornais e até mesmo dos comentadores que lhe são mais próximos, e com a oposição a pedir diariamente a sua saída de cena, cada passo dado será alvo de grande crítica e desconfiança até. Se até agora o rumo político era questionado, não serão com certeza as ligeiras mudanças agora prometidas que amenizarão a situação. Pelo contrário, os níveis de impaciência agudizar-se-ão.

No entanto, como é evidente, é sobretudo a desconfiança e a falta de credibilidade perante os cidadãos que maiores obstáculos criarão ao presente Governo. Se até há pouco, apesar da insatisfação, uma maioria ainda embarcava no discurso do consenso, da responsabilidade e do “esforço patriótico”, tudo parece ter-se esvoaçado na última semana. A triste novela trágico-cómica oferecida ao país encarregou-se de demonstrar a vacuidade deste discurso vindo da atual maioria governamental. A birra e o troca-tintismo de Portas demonstrou a falta de verticalidade de que é feito. Mas Passou Coelho sai também tremendamente fragilizado desta sequela de episódios. Surge como aquele que cedeu, que segurou com todas as suas forças o parceiro que com ele já não queria dançar o tango. 

Há pouco tempo atrás, escrevi aqui que a grande mudança no atual ciclo político na surgiria quando as pessoas percebessem que o custo de manter este Governo é maior do que o custo da mudança através de eleições antecipadas. Este momento de viragem parece ter sido alcançado. A desconfiança perante o atual Executivo é tão grande que uma quase maioria dos cidadãos prefere arriscar a mudança, mesmo tendo em conta os tempos complicados em que estamos. Apesar de tal cenário acarretar subidas de ratings, pressões fortíssimas e críticas dos credores e dos parceiros europeus, entre muitas outros inconvenientes, a opinião pública começa a perceber que vale a pena correr o risco da mudança. Neste sentido é inevitável sublinhar este verdadeiro feito da dupla Passos-Portas. Mesmo num contexto tão pouco propício a mudanças e com um eleitorado que não é conhecido por ser particularmente volátil, conseguiram gerar uma vaga de fundo a exigir eleições o mais cedo possível.

Continuam naturalmente a existir opiniões diversas sobre o rumo que o país deve seguir. E ainda bem que assim é. Mas surge agora a certeza de que não só não vamos lá com esta política, como a certeza de que a manutenção deste Governo constitui um risco tremendo para Portugal. A silly season já é difícil de suportar. Suportar um silly government constitui um esforço acima das possibilidades do país.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

Já nas bancas


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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Pentelhologia


Coisas que fazem todo o sentido: Catroga esteve esta noite na SIC Notícias a comentar a crise política.

Bem dizido


"Para a pequena história fica que Paulo Portas teve um chilique e que Pedro Passos Coelho teve de lhe oferecer um governinho para ele se acalmar. Junto com o seu partido, o vice-primeiro-ministro Portas terá a coordenação económica, a reforma do Estado, as relações com a troika e os ministérios propriamente ditos da Economia, da Agricultura, da Segurança Social — uma espécie de caixa de areia com brinquedos só para ele."
Rui Tavares, in Público 08/07/2013

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Chorar, para não rir


Com maiores ou menores variantes, eis uma das Leis de Murphy: as coisas podem sempre piorar. Quando achávamos que o Governo tinha batido no fundo, que pior era impossível, que o cenário já era suficientemente dantesco, o país é brindado com uma implosão interna com contornos trágico-cómicos. Novela ou reality-show, a escolha fica ao critério de cada um. Aliás, reconstituir o enredo em curso não é uma tarefa fácil.

Primeiro temos um Ministro das Finanças, número dois do Governo, que se demite sem esconder divergências e falta de apoio interno. Segue-se uma Secretária de Estado envolta em graves polémicas que é promovida a ministra, para surpresa de todos. No dia seguinte, a demissão “irrevogável” de Paulo Portas, que nem chegou a aquecer o cargo de número dois do Executivo. Segue-se um insólito “não aceito” vindo de Passos Coelho, tentando assim num gesto patriótico-dramático salvar o seu Governo. O Paulo que bateu com a porta no dia antes, vem então dizer que afinal a sua irrevogável saída não era para levar muito a sério, tudo culminando neste mesmo dia com numa conversa “construtiva” com o Pedro em São Bento. No dia seguinte, novas conversas entre o Pedro e o Paulo e, surpresa das surpresas, temos o regresso do “Eu fico”, o famoso slogan da candidatura de Portas a Lisboa em 2001. Afinal o Paulo fica, afinal tudo não passou de um tremendo mal-entendido.

O problema é que a comédia acima tem consequências bastante graves. O país viu assim de forma anedótico-dramática o valor das juras de entendimento, de responsabilidade, de patriotismo que nos últimos anos lhe têm sido vendidas pelo atual Governo. Viu também desmoronarem-se os pseudo-consensos e as pseudo-certezas quanto ao caminho seguido e seus resultados.

Julgo que nem vale a pena discutir sobre se este Governo deve ou não manter-se em funções. Caiu de podre, implodiu, gripou, deu o berro, foi à vida. Prolongar a sua existência é um erro tremendo, porque cairá no espaço de poucos meses. Teremos assim um governo cadáver, patético e anedótico, bom apenas para os humoristas.

As crises nunca foram momentos fáceis. E o que agora o país atravessará será com certeza dramático. Juros da dívida a dispararem, desconfiança dos credores, dúvidas sobre permanência no euro. A crise vai intensificar-se, não haja dúvidas a este respeito. Resta à esquerda convencer os Portugueses que é preferível arrancar desde já o penso (o governo), do que prolongar a dor de forma indefinida.

Artigo hoje publicado no Esquerda.net
(Imagem: Público)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Arrancar o penso

O que ai vem vai ser dificil? Sim. Muito Dificil? Claro. Terrível? Sem dúvida alguma. Com subidas de rating, credores enfurecidos e parceiros europeus a protestar pela turbolência causada, não nos esperam tempos nada fáceis. Mas a única equação a fazer neste momento é sobre se a intensificação dos sacrificios seria menos dolorosa ou não.

Pessoalmente acho que isto só lá vai com verticalidade e determinação, mostrando à Europa que nós é que lhes temos de pedir explicações pelo sucedido. Nós é que temos de questionar o facto das nossas economias continuarem assentes num sistema financeiro internacional totalmente desregulado, com lógicas de casino.

Perante isto, podemos esperar que a tempestade passe pelo nosso barco já absolutamente destruído ou podemos fazer parte da mudança. Tentar conduzi-la, influenciá-la. Por mais que isso custe, julgo sempre prefirel arrancar o penso de uma vez do que fazê-lo aos poucos.