quinta-feira, 17 de maio de 2007

Fernando Negrão?!?

Depois da recusa de Seabra, o PSD apresenta o magnifico e quase ilustre desconhecido Fernando Negrão. Confesso que, enquanto eleitor de Lisboa, me sinto desrespeitado pela fraca escolha social-democrata.

Depois de um enorme zum zum em torno de Fernando Seabra, visto por alguns sectores da direita como um D. Sebastião capaz de fazer frente à forte aposta socialista e de beneficiar dos eventuais desequilibrios causados por Helena Roseta, o PSD apresenta-nos Fernando Negrão, um ilustre que, apesar de ter sido ministro, é um quase desconhecido.

Seabra parece ter recusado a oferta perigosa que lhe foi feita. Apesar de tentadora, é claramente mais seguro ficar na sua Sintra, não desiludindo os seus eleitores e acompanhando com alguma proximidade, mas com a devida distância, as eleições alfacinhas. Quem sabe se o cenário das autárquicas em 2009 não lhe será mais favorável para investir em Lisboa?

Como costumo dizer, em eleições só podem ser feitos prognósticos no fim do jogo. No entanto, advinho o suspiro de alivio de António Costa. Poderá agora dedicar mais algumas forças para contrariar um bom resultado de Helena Roseta.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Candidaturas Independentes e Autarquias Locais

Apresentar uma candidatura independente à Câmara de Lisboa acaba por ser bem mais complicado do que uma candidatura à Presidência da República ou a formação de um partido político.

Helena Roseta sublinhou, e bem, as dificuldades legais previstas para que uma lista independente se consiga candidatar a uma autarquia. Se para a formação de um partido são necessárias 7500 proponentes, e para uma candidatura à Presidência da República são necessárias 5000, para uma autarquia como Lisboa exigem-se 4000 assinaturas. Se acrescentarmos que, neste último caso, os proponentes deverão estar recenseados na referida autarquia, facilmente se constata a dimensão hercúlea da referida tarefa.

Bem sei da dificuldade em encontrarem-se fórmulas que possam servir uma realidade autárquica tão diferenciada como a portuguesa. No entanto não faz qualquer sentido que, em realidades locais onde a ditadura dos partidos pode e deve ser atenuada, a lei imponha patamares tão elevados às candidaturas independentes.

Não, não é o discurso da “culpa é dos partidos” e "do que precisamos é de independentes tecnocratas". Não é nada disso. Os partidos têm, sem dúvida, o seu importante papel na democracia. No entanto, não tenho dúvidas que, se há realidade em que as candidaturas independentes poderão ter o seu papel, essa realidade será certamente o universo das autarquias locais.

domingo, 13 de maio de 2007

Uma Equipa Fantástica

Se o campeonato não vier, ficamos já com o título de melhor equipa do campeonato. Os miúdos merecem, e o “homem da tranquilidade” também.

Bem sei que não tenho por hábito falar de futebol neste blog. No entanto, e chegados ao fim da época, acho que o meu Sporting merece uma referência. Mesmo depois de hoje ter estado tão perto de assumir a liderança do campeonato, acho que o presente plantel é já indiscutivelmente a melhor equipa do presente campeonato.

Acho que esta equipa de miúdos tem mostrado um futebol de excelente qualidade, prometendo já bastante para o próximo ano. Dá um gozo tremendo ver um grupo de jovens jogar assim futebol. É um orgulho ser sportinguista com esta equipa.

Por outro lado, e como não podia deixar de ser, uma referência especial para Paulo Bento. Como a sua simplicidade, com a sua "tranquilidade", tem conseguido levar muito bem esta equipa. O Sporting precisa de treinadores assim. Espero que fique na equipa por muitos anos.

Por último, e apesar de estar totalmente dependente do resultado do Porto (que não costuma falhar nestas questões), acho que perante uma equipa destas, a esperança é a última a morrer. Força Sporting!

António Costa e a sua Candidatura a Lisboa

No actual contexto, o PS não pode arriscar menos do que um candidato de primeira linha em Lisboa. Aí está. Ao que tudo indica, o principal ministro do actual governo será a aposta socialista para Lisboa.

Parece que será mesmo António Costa a aposta de Sócrates para conquistar Lisboa. Se assim acontecer, Sócrates está a jogar muito alto, embora não se possa exigir menos, no actual contexto, para a conquista da principal autarquia do país. A experiência “para esquecer” da candidatura de Carrilho parece estar a dar os seus frutos.

António Costa possui um currículo de peso, se contarmos com a sua presença nos governos de Guterres e, mais recentemente, no seu forte destaque no âmbito da era Sócrates. Aliás, se recuarmos ao momento da sucessão de Ferro Rodrigues, António Costa possuía então maior currículo do que Sócrates para ganhar a liderança do PS. Por seu turno, no momento actual, ocupa o segundo lugar na hierarquia do actual governo. Será certamente um candidato de peso a Lisboa.

Por momentos, posso interrogar-me sobre o que levará o principal ministro de Sócrates a arriscar uma candidatura a Lisboa perante um cenário complicado à partida. Sem dúvida que a presidência da Câmara de Lisboa é um cargo com enorme destaque a nível nacional.

Mas o principal motivo parece-me ser outro: uma vez que o presente Governo e seu líder parecem estar cá para ficar, António Costa vê em Lisboa uma hipótese de sair da sombra de Sócrates. Assumir a presidência da capital e aguardar por um próximo ciclo de liderança no PS poderá ser uma boa estratégia.

Ramos Horta Presidente

Confesso que estava à espera de resultados mais disputados nas presidenciais Timorenses. A vitória de Ramos Horta acaba certamente por tranquilizar a opinião pública internacional, perante uma Fretilin menos politicamente correcta.

Sobre as consequências das eleições, realço, em primeiro lugar, o reconhecimento dos resultados feito pela Fretilin. Numa democracia jovem como a timorense, dado que o principal partido fundador da mesma foi agora derrotado nas urnas, o reconhecimento dos resultados afirma-se como passo central para a estabilidade política. Esperemos que assim continue.

Por outro lado, destaque para as legislativas que ocorrerão já em Junho. Nas mesmas será efectivamente definido o novo panorama político de Timor. A este respeito, veremos ainda quem será o principal opositor de Xanana Gusmão.

Por último, e focando em Ramos Horta, não tenho dúvidas sobre o seu amplo currículo. A sua experiência, o seu faro político e o seu centrismo poderão ser capitalizadas pela democracia timorense. No entanto, só poderemos esperar que algumas das suas afirmações na campanha tenham resultado da euforia do momento e do calor que se fazia sentir. No seguimento de uma polémica com a Fretilin, afirmou que acreditava “simbiose entre o poder temporal e espiritual” em Timor. Num discurso a 23 de Março, o então candidato defendeu que, numa próxima revisão constitucional, esta venha a incluir “uma referência significativa a Deus, aos valores morais e espirituais que Ele nos ensina, porque Ele é a definição do que é puro e justo em todo o Universo”.

Se acrescentarmos a tudo isto, a curiosa t-shirt de Cristo com que o então candidato votou, esperemos mesmo que a assunção do cargo de presidente refresque um pouco as ideias de Ramos Horta.

A candidata Helena Roseta

Talvez não tenha sido Helena Roseta que tenha mudado assim tanto nós últimos anos. Talvez foi sim o sistema ideológico partidário que mudou. significativamente.

A candidatura de Helena Roseta à Câmara Municipal de Lisboa surpreende. Sob a “duvidosa” bandeira da “cidadania” (ver post de Daniel Oliveira a este respeito), Roseta desvincula-se agora do PS para se submeter, nas urnas, à apreciação dos Lisboetas.

Considero o percurso de Helena Roseta digno de apreciação. Aquela que foi uma das primeiras militantes do PPD, apresentava-se até há uns dias atrás como um dos rostos mais marcantes da ala esquerda do PS. As suas intervenções levam-nos rapidamente a considerá-la uma mulher de causas.

No actual cenário, e dando como certa a impossibilidade de uma coligação à esquerda, Helena Roseta poderá desempenhar um papel interessante na corrida eleitoral que agora se apresenta. O seu resultado dependerá, sem dúvida, da postura que conseguir assumir na campanha, mas sobretudo no espaço que conseguir ganhar aos seus concorrentes no espectro da esquerda.

terça-feira, 8 de maio de 2007

O Cântico do “Esforço e da Contenção”

"O poder de compra dos trabalhadores por conta de outrem registou em Portugal durante o ano passado a maior descida dos últimos 22 anos, calcula a Comissão Europeia. De acordo com o relatório semestral ontem divulgado, os salários reais portugueses caíram 0,9 por cento. Isto significa que os aumentos salariais registados foram superados pela evolução dos preços (neste caso calculada através do deflator do consumo privado).É necessário recuar ao ano de 1984 para encontrar uma evolução mais negativa da evolução do poder de compra dos portugueses" in Público de 8/05/2006

Se somarmos a esta notícia a subida constante das taxas de juro do crédito à habitação e o desemprego crescente, constactamos naturalmente que a situação não está nada famosa para os portugueses. No entanto, os "esforços e contenções" continuam a ser exigidos diariamente a (quase) todos, em nome do equilíbrio das finanças públicas defendido por uns magos da economia em Portugal e em Bruxelas. No entanto, na página anterior à notícia acima, encontramos o texto abaixo:

“Portugal vai voltar este ano a ter a pior taxa de crescimento da economia de todos os países da União Europeia (UE), uma situação que só não se repetirá em 2008, porque a Itália está em risco de fazer pior. Ao mesmo tempo, o país deverá ser o único membro da zona euro a manter um défice orçamental classificado como "excessivo", ou seja, superior ao limite autorizado de três por cento do Produto Interno Bruto (PIB).” in Público de 8/05/2006

Os keynesianos (como eu me considero) tiram um tipo de conclusão da notícia acima. Os neo-liberais, por seu turno, encaram-na como mais uma razão para pedir ainda mais esforços e contenção aos portugueses.

Naturalmente que os resultados de um esforço económico ou orçamental não surgem de um dia para o outro. Mas também não é menos verdade que as noticias acima são ultrajantes para os portugueses com menores rendimentos que se têm deixado levar no cântico do “esforço e da contenção”.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

A Vitória de Jardim e a Democracia Madeirense

Sem surpresas, Alberto João venceu mais umas eleições da Madeira. Não só voltou a vencer, como reforçou ainda mais a sua maioria na assembleia legislativa regional da Madeira. Que dizer sobre um sistema que conheceu um só partido e um só líder no poder durante trinta anos?

Segundo o Giovanni Sartori, reputado polítólogo, encontramo-nos perante um cenário de partido predominante quando uma força política consegue cerca de três maiorias absolutas consecutivas. Tal cenário implica uma ausência prolongada de rotatividade no exercício do poder político, com consequências evidentes na qualidade da democracia.

No caso da Madeira, nunca existiu rotatividade no exercício a nível das estruturas do governo regionais. Mesmo a nível autárquico, o PSD afirmou-se sempre como partido predominante desde o 1º ciclo eleitoral em democracia iniciado em 1976.

Como é natural a referida situação encontra-se longe de ser saudável para a democracia madeirense. A existência de um partido com um predomínio tão grande na região, assente sobretudo num líder carismático, proporciona práticas pouco desejáveis, como a confusão entre as estruturas do partido e estruturas do poder regional, fenómenos de caciquismo ou a dificuldades acrescidas na existência de uma comunicação social verdadeiramente independente.

Embora a legitimidade eleitoral do PSD na Madeira seja incontestável, tal pode ser justificado pela ausência de condições que proporcionem o surgimento de uma oposição democrática credível aos olhos dos madeirenses. No fundo, a oposição acaba por ter dificuldades acrescidas de base que bloqueiam a sua actividade: dificuldades em captar novos quadros, em obter exposição mediática ou mesmo, em última análise, assegurar financiamentos partidários para as suas actividades.

O caso madeirense apresenta muitas semelhanças com os primeiros 20 anos de autonomia nos Açores. Se Mota Amaral não tivesse optado por abandonar o Governo Regional em 1995, certamente ainda hoje lideraria os destinos dos Açores. Foi a saída de Mota Amaral e a dificuldade do PSD em encontrar um sucessor, que proporcionou decisivamente a vitória socialista nos Açores em 1996.

Neste contexto, não tenho dúvidas que apenas a saída de Alberto João poderá proporcionar alguma hipótese de rotatividade de poder na Madeira. Constatando a dificuldade evidente de encontrar para já um sucessor, Jardim optou por adiar o momento crucial da sucessão para 2011.

A questão da contestação à lei das finanças regionais apresentou-se, neste contexto, como um óptimo álibi para legitimar o adiamento da sucessão. Jardim tem razões para estar muito agradecido ao nosso primeiro-ministro…

domingo, 6 de maio de 2007

A Vontade dos Franceses

Concretizando as previsões de todas as sondagens, Sarkozi venceu as disputadas presidenciais francesas. Apesar dos resultados de Sególène representarem uma ligeira subida face às sondagens de há duas semanas, a vitória pertenceu ao desde sempre favorito Sarkozi.

Destaco duas questões. Em primeiro lugar, as eleições francesas distinguiram-se por uma elevadíssima participação. Contrariando a tendência de abstenção em democracias consolidadas, a experiência de há cinco anos impulsionou a participação do eleitorado francês tanto na primeira como na segunda volta.

A presente experiência enquadra-se bem nas teorias que advogam que a abstenção em democracias consolidadas não significa um total desprendimento do eleitorado relativamente ao jogo democrático. Apesar de apresentar níveis de abstenção elevados, o eleitorado de democracias consolidadas mobiliza-se facilmente quando estão em causa questões consideradas centrais.

Em segundo lugar, destaco um dos motivos que pode ter motivado a vitória de Sarkozi: a importância da autoridade e de "mão firme" relativamente à política da imigração. Sem dúvida que as posições atlanticistas, as ideias sobre a Europa ou a reformas prometidas para a economia francesa terão sido importantes na eleição de Sarkozi. No entanto, não tenhamos dúvidas que o recém-eleito presidente o foi também devido às suas firmes posições e politicas aquando dos distúrbios nos arredores de Paris há cerca de um ano. Foi-o também pelo seu discurso à direita que captou muitas das posições da Frente Nacional de Le Pen.

Neste contexto, apesar dos altíssimos níveis de participação demonstrarem a vitalidade da democracia francesa, os resultados indiciam a resposta conservadora da maioria do eleitorado relativamente a temáticas como a imigração. A presente eleição evidencia assim importantes fracturas na sociedade francesa.

Nos próximos anos, veremos se o desejo de “pulso firme” expresso pelo eleitorado francês contribuirá para sarar ou, pelo contrário, aprofundar as referidas fracturas. Infelizmente, inclino-me muito mais para a segunda hipótese…

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Mendices e Carmonices

Prosseguindo o que se vinha a constatar nos últimos meses, a situação no executivo de Lisboa está caótica. As eleições apresentam-se como única solução, e que já peca por tardia…

Num dia, ouvimos o líder do PSD a anunciar o seu apoio a eleições intercalares e a demissão do presidente da CML. Ontem, contra tudo e contra todos, Carmona afirma que não vai abandonar o barco. Hoje lemos que os vereadores sociais-democratas vão renunciar ao cargo… Mal posso esperar pelos próximos episódios desta emocionante novela.

Os ziguezagues demonstram a clara a necessidade de eleições. Embora no fim, seria de esperar que a dignidade poderia ter sido mantida, evitando-se quixotismos, trocas de acusações nos média… No fundo, seria de esperar responsabilidade à altura da maior autarquia do país.

De todo este episódio, destaque para Marques Mendes que, mais uma vez, se vê terrivelmente embrulhado em confusões com autarcas do seu partido ou apoiados pelo seu partido. Quanto às posições deste líder do PSD, tenho a paradoxal sensação de pena: parece-me que este ainda acredita que pode fazer política no seu partido com seriedade e rectidão. Os resultados estão à vista….

Destaque também para José Sá Fernandes, o principal responsável pela denúncia deste caso da Bragaparques. Embora a sua figura tenha-se revelado controversa inicialmente, considerada por muitos como oportunista, passados dois anos apresenta-se como um verdadeiro procurador-geral do cidadão na CML. Lisboa agradece.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Madeira: O Espectáculo Continua

Bem sei que já escrevi aqui vezes demais sobre as eleições madeirenses. Mas não tenho culpa. A comichão invade-me todas as vezes que vejo novas notícias sobre este tema.

Correndo certamente o risco de me repetir, pergunto-me sobre o que será necessário Alberto João ainda fazer para que os seus actos danosos lhe sejam imputados. As inaugurações continuam, as suspeitas quanto ao financiamento partidário repetem-se, os discursos arruaceiros renovam-se todos os dias…

Nada pode ser feito? A Presidência da República nada pode fazer relativamente a isto? O Tribunal Constitucional deverá continuar mudo?
Lamento sinceramente que tenhamos de continuar a olhar a Madeira como um mundo político à parte. Uma espécie de território distante com um líder bizarro que periodicamente nos premeia com os seus disparates…

1º de Maio: Entre a Tradição e a Renovação

Muitos milhares voltaram a participar nas comemorações do 1º de Maio da CGTP em Lisboa. O ritual mantém-se, e bem! Paralelamente, e bem, novas iniciativas como o Mayday impulsionam a sempre necessária renovação.

Os telejornais relatam entre 40 000 a 70 000 participantes nas comemorações da CGTP. Naturalmente um volume de participantes nada desprezível. Este ano assistiu-se também à primeira manifestação do Mayday em Portugal (http://www.maydaylisboa.net), uma iniciativa que visa dar voz ao proletariado do século XXI: o precariado.

Sem dúvida que estamos perante duas formas distintas de comemoração do 1º de Maio: uma delas mais tradicional, outra mais direccionada para as tendências da nova esquerda e das novas formas de activismo. As iniciativas completam-se.

Obviamente, uma comparação entre ambas pode levar-nos a questionar se as formas de activismo tradicional (do tipo parada com direito a discurso do secretário-geral no final) continuam ou não adaptadas aos dias de hoje. Acho, sem dúvida, que o tipo de manifestação do Mayday acaba por se revelar muito mais interessante, muito mais adaptada às dinâmicas e consequentes dificuldades do mercado de trabalho actual.

No entanto, e por mais antiquado e saudosista que isso possa parecer, acho que o activismo tradicional continua a ter um importante papel a desempenhar. Embora possa assemelhar-se a um ritual público, acho que os valores republicanos, laicos e de esquerda devem ter direito a cerimonial. Acho natural que religião democrática também beneficie dos seus rituais. Acredito que, nestes casos, a renovação pode ser feita sem oposição ao tradicional.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Corrupção, Democracia e Poder Local

Qual a relação entre corrupção e o poder local? Será de facto um tipo de poder tendencialmente mais corrupto? Certamente existirão dissertações académicas sobre a referida temática. Curioso é verificar que os acontecimentos das últimas semanas voltaram a impulsionar as teses de senso comum que defendem a existência de uma forte correlação.

Pelos vistos, e após a negação de ontem do gabinete camarário, confirmou-se hoje que Carmona Rodrigues é arguido no caso Bragaparques. Sim, como é natural, a constituição como arguido não é sinónimo de um veredicto de culpa. É certo. Mas também é certo que o fumo de corrupção que parece alastrar no executivo camarário da CML não pode deixar de colocar a opinião pública na expectativa de um eventual fogo.

Por seu turno, no concelho vizinho, Isaltino Morais foi novamente constituído arguido com acusações tão diversas como corrupção passiva, participação económica em negócio, branqueamento de capitais e abuso de poder. Passados poucos anos do episódio das “contas do sobrinho na Suiça”, o autarca de Oeiras vê-se novamente embrulhado em acusações de corrupção.

Como é natural, os presentes casos voltarão a reacender o debate, tão badalado nas últimas eleições autárquicas, sobre a legitimidade de exercício do poder por indivíduos suspeitos de crimes que envolveram precisamente este tipo de actividade.

Mas, mais interessante ainda do que esta questão, reacende-se também o debate sobre a capacidade de julgamento da opinião pública local perante autarcas indiciados sobre esse tipo de crimes. Vejamos o caso de Felgueiras, por exemplo, onde uma autarca com fortíssimas acusações de corrupção, foi heroicamente reeleita precisamente pelo eleitorado e contribuintes que mais terão sido prejudicados pelas suas eventuais falcatruas.

Vejamos agora também o caso de Oeiras, concelho exemplar em diversos indicadores a nível nacional: população com altas taxas de qualificação, que beneficiou de um crescimento populacional e um investimento crescente nos últimos anos. Pergunto-me: como é possível que um eleitorado tão qualificado, tenha reconduzido Isaltino ao poder apesar de todos os indícios de corrupção anteriores?

A democracia tem deste mistérios cujo estudo será, no mínimo, muito interessante...

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Um Presidente sempre “pertinente”

No ano passado, um Cavaco Silva sem cravo na lapela presenteou o país com o anúncio de um roteiro para a inclusão. Este ano, iluminou-nos com os desafios de comemorar Abril junto das novas gerações. Enfim, um verdadeiro homem de Abril…

Respondendo à observação do nosso sempre “pertinente” Presidente da República, concordo que as celebrações deste dia sejam comemoradas de forma a atrair cada vez mais as novas gerações, possivelmente alheadas do marco histórico que representa.
Sugiro, neste contexto, que este dia seja verdadeiramente comemorado como o dia da democracia junto da juventude. O dia da liberdade de expressão e de organização, o dia da diferença, o dia da tolerância, o dia da irreverência e do inconformismo. Enfim, podia continuar aqui a enumerar diversos valores democráticos com os quais a juventude se identifica certamente.

Quanto ao tipo de iniciativas a realizar para divulgar os referidos nobres ideais, espero que o nosso “pertinente” Presidente da República se debruce sobre esta questão. Bem sei que, na maioria das áreas, o presidente deve limitar-se a lançar umas ideias… Neste caso, não basta, Sr. Presidente. Ilumine-nos, por favor, um pouco mais com este vosso tão conhecido espírito de Abril.

25 de Abril sempre!

Escrever sobre o 25 Abril, e tudo o que representa, acaba por não ser fácil. No entanto, no dia da liberdade, importa no mínimo ganhar forças e inspiração para praticá-la e defendê-la durante os restantes 364 dias do ano.

Por mais paradoxal que seja, estou com uma dificuldade tremenda em escrever sobre este dia. Aliás, a minha indecisão levou até que o presente texto só seja “postado” já no dia 26. Podia falar recordar o que se passou há 33 anos… Podia falar, em termos mais científicos, sobre a experiência da transição para a democracia portuguesa… Podia citar um verso de alguma das canções de intervenção…

Enfim, são tantos os possíveis temas, que opto pela parte romântica e sentimental que este dia da liberdade inspira. De facto, o dia do golpe de Estado que se transformou rapidamente numa revolução é sobretudo o dia da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Valores tão inspiradores e tão absolutos que vale a pena vivê-los em pleno neste dia, ganhando forças para aplicá-los e defendê-los afincadamente durante mais um ano.

À semelhança do que faço todos os anos, assistir e participar na marcha de comemoração na Avenida da Liberdade transforma-se sempre numa experiência única. Ver e conviver com milhares e milhares de pessoas, de diferentes idades, com ideias diversas, unidas em torno de ideais tão nobres como a liberdade, a igualdade e fraternidade é, no mínimo, inspirador. Este ano não foi excepção.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Ieltsin: Um Incontornável da (quase) democracia Russa

No momento do desaparecimento do primeiro presidente da Rússia pós-soviética, importa aprender com as suas conquistas, mas também com os seus erros.

Boris Ieltsin será sempre recordado como o primeiro presidente da nova Rússia, o homem que deu o golpe final na Perestroika e procurou trazer o gigante de leste para a democracia e para a economia do mercado. Ieltsin afirma-se como um dos principais vultos do “final histórico” do século XX, colocando um ponto final no “sonho soviético”.

Num momento de adeus a Ieltsin, importa sem dúvida elogiar as suas conquistas, mas importa também que os seus erros não sejam esquecidos. Enquanto principal protagonista da transição para a democracia na Rússia, importa também não esquecer todos os erros apontados hoje ao modelo de transição seguido. A um Estado com uma economia então ainda altamente centralizada, seguiu-se um choque bruto rumo à economia de mercado, com todas as graves consequências que tal facto acarretou. Destaca-se, a título apenas exemplificativo, uma descida sem paralelo dos níveis de vida da população e a criação de máfias que substituíram e desafiam ainda hoje o Estado em diversas zonas do país.

No fundo, a ânsia democrática de Ielsin levou-o a destruir precocemente as estruturas de controlo e regulação do Estado sobre a sociedade, criando um cenário onde a ausência de poder colocou imediatamente em causa os objectivos democráticos iniciais. O modelo brusco de transição adoptado resultou, em 1999, na eleição de Vladimir Putin e na imposição de uma democracia musculada, ainda hoje muito longe da verdadeira consolidação.

No momento do desaparecimento de uma tão importante figura histórica como Ieltsin, importa resistir às hagiografias, aprendendo com as suas conquistas, mas também com os seus erros.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

O Desafio de Royal

Contrariando a experiência de 2002, o centro-direita e o centro-esquerda venceram. A batalha pelo centro-centro começa já hoje.

Sarkozi e Royal passaram à segunda volta, deixando o “perigoso” Le Pen para trás. Mas a experiência de 2002 serviu também para que a afluência às urnas fosse de 85 %, algo verdadeiramente notável numa democracia consolidada.

Interessante será agora verificar como se posicionarão os candidatos na segunda volta. A forte aposta centrar-se-á certamente na conquista do eleitorado do candidato centrista François Bayrou, que ultrapassou na primeira volta os 18 %. Segundo começam já a demonstrar as sondagens, o maior esforço de captação do eleitorado caberá a Royal. Veremos como o eleitorado de esquerda reagirá perante tão importante ginástica política.

domingo, 22 de abril de 2007

CDS: a Sobriedade derrotada pelo Populismo

A política premeia o mediatismo em prejuízo da discrição. Premeia o euforismo em prejuízo da sobriedade. As referidas máximas aplicam-se agora na perfeição à mudança de ciclo no CDS.

Paulo Portas parece estar de volta à ribalta, deixando para trás o pouco mediático Ribeiro e Castro. Depois de um processo que começou com contornes de um verdadeiro golpe interno no âmbito do Conselho Nacional de Março, as directas do partido trouxeram de volta o “velho” líder.

Fico com a nítida sensação que o populismo adquire uma verdadeira vitória perante a sobriedade e seriedade. Independentemente de outros motivos que justificam a subida de Portas, constatamos mais uma vez que na política mediática actual, não há espaço para encontros e discussões com os militantes, reactivação das bases de apoio, consolidação programática e ideológica. Mais importante do que tudo isso, importa aparecer, fazer barulho, conquistar espaço na agenda seja a que custo for. Uma realidade que o senso comum já conseguiu identificar há muito, fruto do mediatismo do debate político dos nossos tempos.

E por falar em sobriedade, seriedade e descrição, por quanto tempo mais conseguirá Marques Mendes resistir aos seus rivais internos? Os adversários atacarão a sério apenas quando o actual Governo começar a vacilar?

Uma semana negra para o PNR

As rusgas da PJ acabaram por desmascarar um partido cujos membros parecem não passar de delinquentes e criminosos. Poderemos contar com esta “infantilidade” da extrema-direita em Portugal no futuro?

Em pleno dia do anunciado “maior evento nacionalista em Portugal das últimas décadas”, parece que tudo se desmoronou: as rusgas da PJ revelaram a posse ilegal de armas de muitos dos seus membros, o encontro foi desmarcado, a líder da Juventude Nacionalista demitiu-se… Enfim, uma semana complicada...

Não posso, no entanto, deixar de ficar surpreendido com a facilidade com que tudo se desmoronou. No fundo, não foi para já necessário diálogo democrático ou ignorância nos momentos certos. Bastou que a PJ efectuasse algumas rusgas para que todo o partido saísse claramente amputado. Dito de forma simples, revelou-se tudo demasiado básico.

No entanto, acredito que se aprendem com os erros. E acredito que os defensores da extrema-direita começam também a aprender sobre o que não devem fazer e o que não devem dizer. Possivelmente, nos próximos anos, assistiremos a um progressivo amadurecimento deste tipo de grupos em Portugal.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Virginia Tech: um novo Columbine

Repetindo um fenómeno que começa a ser tipicamente americano, um novo massacre causou a morte de 32 estudantes em Virgínia. Alguma coisa mudou no país desde Columbine? Receio que não…

Como não podia deixar de ser, o massacre ocorrido ontem na Universidade de Virgínia Tech deixou-nos com a terrível sensação de déjà vu. Mais um vez, e sem motivo aparente, alguém irrompe num estabelecimento de ensino, disparando indiscriminadamente e suicidando-se de seguida. No fundo, o tipo de fenómeno mediatizado com o caso Columbine em 1999 e imortalizado no cinema por Michael Moore.

Perante esta sensação de déjà vu, pergunto-me se alguma coisa mudou no que diz respeito à posse de armas nos Estados Unidos desde Columbine? Receio que não. Num raciocino que parece estranho a qualquer cidadão do resto do mundo, a legitimação do direito de posse de arma nos Estados Unidos consegue ser comparada a qualquer outro direito constitucional consagrado.

Naturalmente, o debate voltará a surgir com o presente massacre. No entanto, e tal como anteriormente, dificilmente verificar-se-ão alterações de fundo ao referido direito, considerado parte importante da história e cultura americana. Enfim, um estranho país…

Nota: Para compreender um pouco a cultura americana, recomendo a obra “Os Americanos”, de Daniel Boorstin, editado em português pela Gradiva.