terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Soares tem ciúmes de Alegre?

Eu diria que sim, alguns pelo menos. Certamente desde as últimas presidenciais, mas que recentemente voltaram a vir ao de cima na sua critica aos posicionamentos de Manuel Alegre.

Quem lê as crónicas de Mário Soares no DN sabe que o seu discurso está bastante à esquerda. Entre críticas ao neoliberalismo, às desigualdades sociais, à política americana de Bush, à necessidade de perceber as aspirações da população, dos movimentos sociais, entre outros. Uma série de recados que vão sendo enviados para o Largo do Rato. O artigo de hoje no DN é mais um exemplo disso mesmo, tendo conseguido novamente destaque noutros órgãos de comunicação social.

No entanto, o “pai da democracia portuguesa” parece não gostar de competição no seu lugar de “consciência colectiva do PS e da Nação”. Só assim pode ser entendida a sua dualidade ao enviar constantes recados ao Governo ao mesmo tempo que critica quem, com ideias muito semelhantes, tem sido um pouco mais consequente com os recados que envia.

O padre Vítor Melícias?!?

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“As alegações finais do processo em que o administrador da Bragaparques, Domingos Névoa, é acusado de tentativa de corrupção pelo vereador da Câmara de Lisboa José Sá Fernandes, estão marcadas para hoje, três meses depois do início do julgamento.(…) Antes das alegações finais, serão ainda ouvidas testemunhas abonatórias de Domingos Névoa, entre as quais o padre Vítor Melícias...”. (Público, 16/12/2008)
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Desculpem a pequenez do comentário, mas a amplitude de amizades do padre Vítor Melícias consegue sempre surpreender-nos…

E a Grécia aqui tão perto... Nuances e Evidências

Os artigos de Rui Tavares e de Lionídio Paulo Ferreira (transcritos nos posts abaixo) demonstram que a realidade histórica, política e socio-económica grega não está tão longe da portuguesa quanto isso. No entanto, existem nuances importantes. A influência dos movimentos anarquistas é uma delas.

Tal como tem vindo a ser expresso pela comunicação social, são os movimentos de jovens anarquistas que têm dado projecção ao que há vários dias se passa Grécia. Quanto mais não seja porque um dos seus cocktails molotov vale mais do que mil manifestantes em termos de cobertura mediática.

E o anarquismo na Grécia, nomeadamente entre a juventude, possui um historial significativo que está a milhas do que podemos encontrar em Portugal. A este respeito, basta dar uma vista de olhos na Wikipedia, nomeadamente nos capítulos que focam a experiência anarquista grega desde os anos 60 até à actualidade.

De qualquer modo, os textos de Rui Tavares e de Lionídio Paulo Pereira recordam, e bem, que causas bastante mais estruturais determinam que o que se passa na Grécia não seja apenas um simples movimento de delinquentes urbanos. É bastante mais do que isso. Tem sido incendiado com cocktails molotov, é certo. Mas cada país terá certamente o seu tipo de cocktails molotov... E causas estruturais não faltam por esta Europa fora, estando Portugal muito longe de ser uma excepção. Antes pelo contrário.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

E a Grécia aqui tão perto... (II)

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“Imaginemos um pequeno país da Europa do Sul, com pouco mais de dez milhões de habitantes. Um país com uma história admirável que, aliada ao clima solarengo e à beleza da sua costa, atrai todos os anos milhões de turistas. Um país onde apesar dessas generosas divisas trazidas pelo turismo (que se somam às remessas da emigração), a economia é ainda frágil. E que, antes do grande alargamento a Leste em 2004, fazia parte do habitual trio dos mais pobres da União Europeia.
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Imaginemos um país onde a Igreja tem uma tradição de grande influência, que só se libertou da ditadura em 1974 e que viu o seu processo de democratização legitimado pela integração europeia na década seguinte. Um país onde subsistem as desigualdades sociais, em que se calcula que um quinto da população seja pobre e onde os jovens, mesmo com estudos superiores, têm pela frente a ameaça do desemprego ou do trabalho precário com os famosos salários na casa dos 700 euros.
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Imaginemos um país que se habituou a ser admirado pelas glórias do passado, mas que, num esforço de transmitir uma ideia de modernidade, organizou em 2004 uma grande competição desportiva internacional. Um país que nos últimos anos, graças em boa parte a um seleccionador estrangeiro, causou surpresa no mundo futebolístico e que exporta agora estrelas - a mais conhecida joga num clube que veste de vermelho.
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Imaginemos um país membro da NATO, onde duas forças políticas (uma socialista, a outra conservadora) alternam há três décadas no Governo, mas que continua a ter um partido comunista que resistiu à queda do Muro de Berlim e obtém votações de 8%.
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Se já respondeu Portugal, errou, mas não se desiluda. Podia perfeitamente ser. Na realidade trata-se da Grécia, um país que nos últimos dias tem sido assolado por uma vaga de violência que está a chocar a Europa.”
Leonidio Paulo Ferreira, DN 15/12/2008

E a Grécia aqui tão perto...


“Olhando para os jovens gregos, porém, fica claro que basta um pequeno rastilho para a situação perder a graça. Diz-se que esta é a primeira revolta da geração precária. Talvez seja a segunda: nos motins dos suburbios franceses foi fácil disfarçar a coisa com uma conversa sobre os filhos dos imigrantes, o multiculturalismo e o “politicamente correcto”. Agora que se trata de jovens gregos de gema, já não dá para disfarçar. Fica claro que nesta “Europa de Primeiro Mundo”, há muita gente – jovem ou menos jovem, imigrante ou nativo, desempregado ou precário – que se sente fora do contrato social. Em Portugal acrescentemos-lhe ainda os idosos e os pobres, o interior e os subúrbios.

É muita gente do lado de fora. Enquanto a economia crescia, foi-lhes dito que os beneficios não eram para eles. Era preciso manter a competitividade. Agora – quando a economia recua - dizem-lhes que é preciso salvar o sistema financeiro para evitar o pior”
Rui Tavares, Público 15/12/2008

Piadinha do Dia

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Com vista a celebrar a sua amizade com os irmãos mulçumanos, Bush impôs uma nova regra nas suas conferências de imprensa: tal como nas mesquitas, os sapatos ficam à porta.

Pontos de Vista sobre o Fórum das Esquerdas

Para a comunicação social em geral, o que saltou à vista no Fórum das Esquerdas foi o facto de Manuel Alegre não ter “negado a possibilidade de criação de um novo partido”. Enfim, um fait diver que acaba por abafar o cariz e simbolismo do evento.
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Um evento onde personalidades de diversas origens políticas no âmbito da esquerda reuniram, discutiram, traçaram diagnósticos e propuseram soluções. Um encontro de vontades que vale por isso mesmo, muito mais do que a polémica em torno do “diz que não disse que Manuel Alegre disse”.
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No momento actual, ter num mesmo evento personalidades da ala esquerda do PS, bloquistas, renovadores comunistas, sindicalistas, académicos e outros independentes tem um simbolismo incontornável que vale por si. Num mundo perfeito, esta deveria ser a manchete da imprensa. Num mundo perfeito, claro...

domingo, 14 de dezembro de 2008

Em Portugal, a ressurreição começa a ser banal...

Portas foi eleito com 95% dos votos e encontra-se a ganhar pontos a olhos vistos nas sondagens. Quem diria, não é? Ressuscitou com uma pinta que deixou muitos boquiabertos. Eis mais um exemplo de como a ressureição política é um fenómeno relativamente normal em Portugal.

E, pelos vistos, é um fenómeno que abençoou os dois principais responsáveis do pior Governo que Portugal já teve. Quatro anos depois, Santana deverá ser apresentado esta semana como candidato do PSD à Câmara de Lisboa. Portas, por seu turno, conseguiu em pouco tempo recuperar o capital perdido junto do seu eleitorado tipico.

Formidável, não é? E porque hoje é Domingo e é de ressurreição que estamos a falar, julgo que faria sentido avançar-se com o processo de beatificação de Santana e Portas. Avançar desde já porque, como todos sabemos, o Vaticano é muito demorado no reconhecimento destes fenómenos...

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Grande Êxito deste Natal

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"Salvem os Ricos! Ajudem os Milionários!"
Os Contemporâneos no seu melhor.

Vá, continuem assim...

Segundo a TSF, a reunião da Comissão de Orçamento e Finanças foi hoje cancelada por falta de quórum. Dos 9 deputados necessários ao quórum, apenas 8 compareceram, sendo desta vez o PS o partido com mais “gazeteiros”.

Com toda esta polémica em torno do abstencionismo dos deputados, e com a comunicação social em cima do acontecimento, era de esperar um esforço adicional por parte dos deputados. Pelo menos até a polémica desvanecer-se. Mas não… Lá em casa (o Parlamento), tudo na mesma… Como se a imagem do Parlamento para a opinião pública não fosse algo “simplesmente” central para a saúde do sistema democrático.
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A este respeito, vale a destacar o estudo apresentado esta semana pelos politólogos André Freire, Conceição Pequito e Diogo Moreira sobre a confiança dos portugueses no Parlamento (ver aqui e aqui). Sublinho apenas a seguinte conclusão do mesmo: “os portugueses têm uma confiança no Parlamento que é inferior à média dos países considerados e que se aproxima dos níveis de confiança médios registados nos países da Europa de Leste.” Animador, não?

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A Entrevista de Louçã

Num momento em que o Bloco continua bem cotado nas sondagens, Louçã foi à Grande Entrevista de Judite de Sousa (ver aqui no site da RTP). O que reter da referida entrevista?

Judite Sousa, bem ao seu estilo, metralhou Louçã com perguntas pertinentes e obviamente pouco fáceis para quem está a ser entrevistado. O que espera o Bloco de Esquerda para o próximo ano? Quer crescer para apenas ficar-se pela oposição parlamentar, é isso? Será apenas um partido de oposição? Se o Bloco está tão próximo politicamente do PCP, porque não uma maior convergência? E o comício das esquerdas com Manuel Alegre, que conclusões tirar daí? O Bloco abandonou Sá Fernandes?

Louçã torneou cada uma destas perguntas. Umas vezes melhor, outras de forma mais denunciada. Não escorregou mas também não apresentou qualquer novidade digna de manchete no dia seguinte. Destacou-se apenas, a meu ver, o assumir repetidamente a vontade de captar o eleitorado de esquerda desiludido com o PS (algo óbvio mas que se destacou por ser tão repedidamente assumido). De resto, nada digno de grande nota.

E não se podia esperar outra coisa. No momento actual, o Bloco tem de se mostrar convicto e ambicioso, mas também extremamente cauteloso, não arriscando perder o capital que tem vindo a ganhar nos últimos tempos. Judite Sousa fez bem o seu papel. Louçã também. Se calhar por isso a entrevista acabou por se revelar, à primeira vista, pouco interessante...

Baptista Bastos já não é o que era…


"O incidente do prolongado fim-de-semana dos 48 deputados dá que pensar. Pensar que a dignidade das funções, quaisquer que elas sejam, depende do carácter e da integridade de quem as exerce. E em torno destes princípio devemo-nos unir ou separar". (Baptista-Bastos, DN, 10/12/2008, citado pelo Público)

Confesso que anteriormente gostava de ler os pontos de vista de Baptista Bastos. Mas depois do episódio das casas da Câmara de Lisboa, nunca mais o consegui fazer da mesma maneira. Há episódios que custam muito caro a determinadas figuras, sobretudo as que recheiam as suas crónicas com palavras como “dignidade”, “carácter”, “integridade” e “princípios”...

Porque são os Portugueses tipicamente de Esquerda?

As sondagens favoráveis ao Bloco e PCP e a recente recuperação do PS têm gerado alguma reflexão neste domínio, com conclusões semelhantes em quadrantes políticos bastante diversos. As desigualdades sociais em Portugal são o motivo central apontado tanto por Rui Tavares como por Pedro Lomba.

Rui Tavares considera que hoje a “direita desistiu de dar resposta ao problema da desigualdade, ou simplesmente falhou. E o eleitorado vira-se para o outro lado.” Pedro Lomba, alguém assumidamente da direita liberal, considera que “Os portugueses são de esquerda porque, no essencial, são mal pagos; e não são mal pagos no meio de outros igualmente mal pagos. Os portugueses mal pagos trabalham todos os dias para os portugueses bem pagos.” Ou seja, enfatiza também a questão da desigualdade.
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Embora seja óbvia a importância das desigualdades sociais (ou a percepção das mesmas) para explicar o auto-posicionamento estrutural à esquerda de um eleitorado, outros factores podem revelar-se tão ou mais relevantes. A configuração do sistema partidário é um deles.
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Diversos estudos demonstram que o posicionamento na escala esquerda-direira do eleitorado resulta sobretudo das suas simpatias partidárias regulares (sublinho a questão da regularidade). Ou seja, e dito de forma muito simples, um eleitor auto-posiciona-se no centro-esquerda sobretudo porque é um simpatizante do PS, e não tanto porque o seu posicionamento político em questões fracturantes reflectir coerentemente a defesa de ideias de centro-esquerda.
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Se a isto juntarmos o facto das clivagens entre os dois partidos no centro político em Portugal serem relativamente reduzidas e o facto de a direita ser significativamente incipiente em termos ideológicos – o PSD continua por vezes a considerar-se um partido de centro-esquerda e o CDS um partido de centro – é natural que o eleitorado português se posicione tendencialmente mais à esquerda.
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Como é evidente, tal está longe de significar que o eleitorado vote sempre em partidos localizados à esquerda no espectro partidário. Tal acontece sobretudo quando as percepções de desigualdade estão mais salientes e os partidos à esquerda conseguem de forma mais ou menos coerente dar resposta às aspirações maioritárias da opinião pública.
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Aplicado o referido modelo ao momento actual em Portugal, é sobretudo a dificuldade de protagonismo do PSD e o afastamento das políticas de esquerda do Governo PS está a implicar que o centro-esquerda e a esquerda parlamentar possuam cerca de dois terços das intenções de voto, segundo as últimas sondagens. O grande parte do eleitorado típico do PSD está a deslocar-se temporariamente para o PS e o eleitorado mais à esquerda do PS está a rumar sobretudo ao Bloco, mas também ao PCP.
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Concluindo, uma vez que o post já vai muito longo, o posicionamento ideológico dos eleitores reflecte sobretudo as suas naturais simpatias com um determinado partido e não tanto o seu posicionamento estrutural sobre certos temas políticos, como a desigualdade social por exemplo. No momento actual em Portugal, é sobretudo o enfraquecimento do PSD que está a gerar uma perda do seu eleitorado para o PS. Por outro lado, a governação ao centro do PS está a gerar uma fuga do seu eleitorado mais à esquerda para o Bloco e para o PCP.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos

O que há a dizer sobre esta Declaração? Tanta coisa que se torna mesmo complicado… Foi há 60 anos a sua aprovação. É um documento basilar na defesa da dignidade de cada ser humano. Representa o direito aos direitos. Está muito longe de ser cumprida em todo o mundo. Mas, sobretudo, nunca pode ser esquecida.
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Deveria até constituir uma espécie de religião, cujo culto consistiria na proclamação e interiorização matinal de cada um dos 30 direitos humanos constantes da Declaração. Sendo este desejo impossível (e contra mim falo), recomendo o visionamento dos vídeos da Youth for Human Rights (citada pelo Público).
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O vídeo acima é uma colectânea de spots dedicados aos primeiros 5 direitos humanos. Deixo os links para as colectâneas seguintes.
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Na impossibilidade de existir uma religião universal exclusivamente dedicada aos direitos humanos, ao menos aproveitemos os aniversários da Declaração para reflectir um pouco sobre os diversos valores que nos transmitem.

Desculpe, importa-se de repetir?!?

É a confusão geral. A lista dos deputados presentes no plenário de sexta-feira não coincide com a contagem feita pela mesa da Assembleia da República (AR) no início das votações desse dia, nem com o próprio resultado da votação dos deputados por braço no ar.” (Público, 10/12/2008)
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Mais uma ajuda de peso para a fraca reputação que o trabalho dos deputados e da Assembleia possui junto da opinião pública... É muito grave. Muito grave mesmo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Faz de conta que não estamos a recuar...

Na passada semana, o Ministério da Educação recuou ao admitir a subtituição deste modelo por outro em 2009. Há pouco Sócrates consegue um destaque no Público afirmando que o modelo de avaliação é para manter... Mas afinal ficamos em quê?
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Das duas uma: ou existe uma grande falta de comunicação entre Sócrates e a sua ministra (algo pouco plausível) ou entramos aqui no jogo do “faz de conta que não estamos a recuar”. Humm... Não sei porquê, mas inclino-me mais para a segunda hipótese... Porque será???

Nobre Guedes é muito à frente

O ex-ministro que há cerca de um ano demitiu-se da actual direcção do CDS (e que só há pouco se soube) vai agora apresentar uma moção no Congresso do partido. A contar pela entrevista dada ao Expresso, Nobre Guedes (NG) parece ter umas linhas de raciocinio um pouco estranhas...

Ora cita Obama... (algo insólito vindo de alguém do CDS)
NG: “Penso que o CDS deve ter outra estratégia. O primeiro ponto é o CDS provar que é capaz de ter um projecto sério e credível para a governação. O Obama diz o seguinte: “Temos que fazer outro tipo de política, que terá de reflectir as nossas vidas tal e qual elas são vividas. Não é mais uma qualquer política pré-fabricada e pronta a servir”. Se as pessoas entenderem isto, percebem o que eu quero dizer quanto a um programa sério e credível."

Ora propôe uma coligação com o PSD que depois reconhece ser impossível...
NG: “Até final de Abril o CDS tem de construir esse projecto. Depois, tem de ser capaz de apresentar as 50 medidas mais importantes para governar Portugal. Medidas concretas.” (...) “Uma vez isso feito, devemos ver se o PSD fez um trabalho idêntico. Se fez, o CDS deve propor que os dois partidos falem e vejam se é possível elaborar um programa comum, que deve ser reformista, de mudança, progressista.” (...)
Expresso: "Há ano e meio disse ao Expresso: “O PSD é um emaranhado de confusões, de trapalhadas e de interesses (…). O PSD, seja qual for o líder, não vai mudar porque não pode mudar. Está prisioneiro dos interesses”. Agora a sua opinião mudou e propõe uma coligação."
NG: "Não mudou. Isto é o que eu gostaria, mas não se vai verificar. Porque a situação actual no PSD não o permite. No PSD é mais importante o «day after» da derrota de Ferreira Leite do que protagonizarem um projecto para Portugal."
Expresso: "Ou seja, está a fazer uma proposta que sabe que o PSD não aceita?"
NG: "Não aceita porque as disputas internas são superiores a tudo o resto. O que não quer dizer que eu não o proponha.”

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Insólito da semana que passou...


Sócrates é o 6º mais elegante de 2008. (...) E este sexto lugar sabe ainda melhor se tivermos em conta a concorrência. O estilista Karl Lagerfeld é o mais elegante para o El Mundo, o tenista Roger Federer leva a medalha de prata e o futuro número um da América Barack Obama contenta-se com o terceiro lugar. Ainda com Brad Pitt e um príncipe norueguês à sua frente, Sócrates deve sentir-se satisfeito por estar à frente em elegância de Jude Law, do Príncipe Carlos e até do presidente francês Sarkozy.
JN, 4/12(2008

domingo, 7 de dezembro de 2008

O PCP e a Questão Cubana

Regressado de Havana, vejo que o PCP voltou a glorificar no seu Congresso o regime cubano. Teve até direito à oferta de uma fotografia dos irmãos Castro. 1500 delegados aplaudiram de pé o delegado do PC Cubano com grandes ovações de “Cuba vencerá!”

Sem qualquer pretensiosismo, desejava que os comunistas portugueses fossem a Cuba e vissem a realidade para além da que lhes é mostrada pelos seus camaradas cubanos. Falassem com os cidadãos comuns, ouvissem o que os cubanos comuns têm a dizer sobre o regime. Se calhar aí pensavam vinte vezes antes de glorificarem tais amizades internacionais.

Estou muito longe de ser daqueles que acham que o PCP é um partido que pouco conta, ou que é apenas um "partido interessante" ou "importante para a democracia portuguesa". Se calhar por isso fico sempre tremendamente abismado quando vejo os comunistas portugueses a defenderem regimes como o chinês, o cubano ou o norte-coreano. O que ganha o PCP em persistir na defesa de tais ditaduras? Pseudo-coerência?

Viagem a Havana – Algumas Impressões

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De regresso após uma semana em Havana, julgo que deu bem para ficar com um panorama razoável sobre a cidade e o país. Torna-se naturalmente dificil exprimir em poucas palavras todas as impressões recolhidas. Deixo algumas notas para eventual comentário:
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Sobre Havana
1 – Não existe uma Havana, mas sim duas: uma para a fotografia e outra bastante menos fotogénica.
2- A primeira é formidável. Não por ser faustosa ou brilhante, mas por ser quase única. O seu misticismo é quase contagiante. Quem está em Havana apenas dois ou três dias a caminho dos resorts de Varadero leva certamente esta impressão da cidade. Não foi o meu caso...
3 - Fora dos pontos turisticos da cidade, o panorama é bastante desolador. E não é necessário ir para os arredores. A pobreza está bem no seu centro. Basta sair um pouco dos roteiros recomendados e caminhar a pé pela cidade.
4 – Estranhamente, ambas as Havanas parecem complementar-se na criação da aura romântica e rebelde em torno de Cuba. É triste que assim seja. Só um sentimento com alguma dose de sadismo pode ficar indiferente à pobreza ornamentada com alguns sorrisos nos lábios de toda uma população.
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Sobre Cuba e sua realidade:
1 – Como é sabido, relativamente a outros países das Caraibas ou da América Latina, Cuba não é dos piores casos em termos de qualidade de vida. A gratuiticidade e relativa qualidade do ensino e da saúde e o acesso à habitação assim o determinam. O acesso à cultura também é notório.
2 – O embargo americano deixa a economia destroçada, sem dúvida. Mas um sistema económico socialista que não permite a liberdade de iniciativa individual sequer para o mais pequeno dos negócios tem, obviamente, uma enorme responsabilidade.
3 – Existem duas moedas em circulação: o peso cubano e o peso convertível. O primeiro equivale a cerca de 1/26 de euro. O segundo equivale mais ou menos a 0,90 dólares.
4 - Os cidadãos recebem em pesos cubanos, podendo aplicá-los em bens essenciais como a alimentação ou outras necessidades básicas. Os restantes produtos têm de ser comprados em pesos convertíveis.
5 - Um operário fabril, por exemplo, recebe cerca de 170 pesos cubanos (cerca de 15 euros por mês). Agora imaginem o esforço que teria de fazer para comprar um litro de gasolina (caso tivesse um carro, claro!): custa cerca de 1,20 euros.
6 – O turismo apresenta-se como o principal recurso para a captação de capital pelo país. Os dirigentes cubanos sabem-no perfeitamente, daí a sua hipocrisia ao promoverem dois mundos: o dos turistas e o do cidadão comum.
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O peso da ditadura
1 – Das coisas que mais nos fazem relembrar que estamos perante uma ditadura é o bloqueio no acesso à informação que não a autorizada pelo regime. Os cubanos não têm acesso a imprensa estrangeira, não podem aceder à internet e são punidos caso tenham uma parabólica, por exemplo.
2 – O único diário autorizado é o Gramma, órgão oficial do Partido Comunista Cubano. Escusado será comentar a linha editorial dos seus conteúdos.
3 – Ou seja, a única visão que os cubanos têm do mundo é a que é veiculada pelo seu regime. Convido cada um dos leitores deste post a pensar bem no que constitui apenas poder ver o mundo segundo uma única fonte de informação (só por acaso, nada imparcial). É aterrador...
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Notas finais
1 – Fiz uma viagem sem resorts e sem guias turisticos. Tinha precisamente o objectivo de ver, sem filtros, a realidade de um país sempre polémico. O resultado da viagem é, sem dúvida, muito positivo. Os “trabalhos de campo” junto de realidades diferentes são sempre positivos.
2 – Não deve ser desprezado o esforço feito pelo regime cubano por garantir aos seus cidadãos o acesso à alimentação, educação, saúde, habitação e cultura. Num panorama como o das Caraíbas e da América Latina, tal esforço tem resultados que devem obviamente ser aplaudidos.
3 – Mas tal nunca pode justificar ou sequer minimizar o facto dos cubanos viverem sobre os espartilhos de uma ditadura. Por mais que esta se possa basear em visões românticas de rebeldia, inspirada em ideiais humanistas devidamente ornamentados com carismáticos Fideis e Ches, a sobrevivência da ditadura é uma afronta aos mais elementares direitos dos cubanos.
4 – A liberdade não tem preço: eis o valor central que qualquer democrata tem de possuir à partida. No entanto, nunca são demais as experiências que nos permitem reforçar ainda mais o valor da liberdade. Eis o que de mais positivo retiro desta viagem que agora realizei.