sábado, 12 de abril de 2014

A Rua do Mr. Barroso

Não tenho dúvidas que foi importante para Portugal ter, durante dez anos, um Presidente da Comissão Europeia. Durão foi a figura que mais tempo ocupou o o cargo, lado a lado com Delors.

Mas daí a realizar-se uma conferência em Lisboa para se consagrar o maravilhoso  "Mr Barroooso", mostra que o grande estadista continua demasiado preocupado com o reconhecimento que terá na sua rua...

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Este país é uma Casa da Sorte

Quando pensávamos que a ideia de sortear faturas e distribuir carros de alta cilindrada era uma piada, vimos um Governo cada vez mais orgulhoso do seu modelo genial. Quando pensávamos que uma política pública de suposto combate  à fraude fiscal não podia ser  mais bimba, chamaram-lhe "Fatura da Sorte".  Para rematar esta palhaçada, ficámos hoje a saber que tudo isto culmina com um programa de televisão tipo Euromilhões com direito a apresentadora bem conhecida da praça e tudo... Comentários para quê?

terça-feira, 8 de abril de 2014

Uma das Lições da Crise Ucraniana

Depois da anexação da Crimeia, a desagregação da Ucrânia continua. Tudo isto sucede com um mundo, e sobretudo uma Europa, boquiabertos, como se este tipo de disputas territoriais fossem coisas do século passado.

Da mesma maneira que foi prematuro  (e imaturo) declarar no final do século XX que a democracia era um último estágio de desenvolvimento político, a crise na Ucrânia recorda-nos que as velhas geopolítica e geoestratégia continuam o seu "business as usual" no século XXI.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

160 Euros?!?

Só hoje fiquei hoje a saber que, nas legislativas de 2011, o PSD totalizou 160 euros de donativos.  Sim, vou repetir: 160 euros de donativos em toda a campanha eleitoral das legislativas. É bonito...

A transparência nas contas dos partidos é daquelas temáticas chatas, que já tem barbas, que já ninguém consegue ouvir falar, mas onde tudo parece estar na mesma há décadas. A cowboiada continua, mantendo-se o pouco interesse na transparência destes processos. Porque será?

Pode alguém ser quem não é?


Para que fique claro, eu não compraria um carro usado a nenhum destes Josés. De qualquer modo, entre um veterano do jornalismo e um ex-Primeiro-Ministro, seria de esperar um pouco mais de hombridade do segundo. Mas não... Ontem, depois de um ano de posturas aveludadas, o país reviveu o Sócrates que durante tanto tempo conheceu: alguém altamente irritável, sempre pronto a partir para o insulto quando lhe tocam em qualquer um dos seus minhentos pontos sensíveis. 

Devemos naturalmente agradecer a José Rodrigues dos Santos por nos ter levado o Sócrates de veludo e nos ter devolvido o Sócrates "à séria". O original é sempre melhor do que uma contrafação de vão de escada. Pode alguém ser quem não é?

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Conversa de Jonet = Conversa de Café


Para ser honesto, não me preocupam os posicionamentos conservadores da senhora, mas sim o nível primário do seu pensamento. Parece que não consegue ir além da conversa de café...

Que bonito...


As trocas de acusações entre Durão Barroso e Vítor Constâncio sobre o BPN são bonitas. Fico sempre enternecido com estes episódios que acabam inevitavelmente num "a culpa é de todos, a culpa não é de ninguém". 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Abril anda por aí


Coisas boas da vida: depois de uma birra interminável a caminho de casa, o choro da Luísa subitamente parou quando passámos em frente ao Hospital dos Capuchos: "A pintura do pai!!!".  :) O espírito de Abril anda por aí!

O Desgoverno Contra-Ataca


A política de comunicação de um Governo reflete bem o seu grau de coesão. A capacidade de comunicar de forma minimamente estruturada exige uma importante base de coordenação interna, alinhando prioridades, estruturando a agenda e articulando os atores. Não sendo uma tarefa fácil, consegue perceber-se à distância os Executivos que beneficiam de uma melhor política de comunicação e aqueles que andam aos bonés, navegando à vista quase o tempo todo.

Até há uma semana, eram com certeza poucos os que sabiam quem era o Secretário de Estado José Leite Martins. O episódio dos cortes das pensões acabou por catapultar um quase ilustre desconhecido para as luzes da ribalta. Assistiu-se então a um lamentável cenário de desautorização de Leite Martins por todo o Executivo Governamental, começando pelo Primeiro-Ministro e acabando por diversos colegas seus Secretários de Estado. À primeira vista, poder-se-á dizer que o referido sacrifício em praça pública foi a melhor solução possível para tentar resolver uma tremenda trapalhada. De qualqiuer modo, ficou mais uma vez evidente a imagem de desgoverno que o atual Executivo passa para o exterior.

Em Maio do ano passado, apontei precisamente neste espaço do Açoriano Oriental o Desgoverno em curso, tendo então como grande protagonista Paulo Portas e a sua capacidade de se colocar de fora e até de fazer oposição às decisões governamentais. O processo viria a culminar depois com o “irrevogável episódio” de Portas e a sua ascenção a Vice-Primeiro. Quase um ano depois, o Desgoverno contínua, sendo mais evidente do que nunca a falta de coordenação política interna.

Os Governos possuem tipicamente a figura de um coordenador político, uma figura-chave que nos ajuda a perceber um pouco o que agora se está a passar. O coordenador político é geralmente um ministro muito próximo do primeiro-ministro, bastante conhecedor da máquina partidária, e que assume a importante missão de colocação de alguma ordem na casa. No Governo de Durão Barroso tinhamos José Luis Arnaut ou Morais Sarmento a ocupar este lugar. Nos tempos de José Sócrates, todos nos recordamos de Jorge Coelho e, mais tarde, de Pedro Silva Pereira. No início deste Governo de Passos Coelho, foi o famigerado Miguel Relvas que assumiu esta posição. No entanto, no atual Executivo, este é um lugar em aberto. Aliás, Poiares Maduro começou por ser apontado como o grande coordenador político desta estrutura governamental. No entanto, estranho seria que um recém-chegado independente, sem qualquer governativa, pudesse desempenhar tal função. Moreira da Silva, por seu turno, foi remetido para a pasta do Ambiente e por lá tem ficado.

O atual Executivo não demonstra ter quem assuma a referida função. O que se torna particularmente preocupante tendo em conta que se trata de um Executivo de coligação. E a bicefalia reflete-se demasiado na própria estrutura interna, com a existência do cargo de vice-primeiro-ministro e a sua conhecida coordenação da vertente económica da política governamental. Não são poucas as vezes em que parecem existir dois governos.

Na ausência da referida coordenação, as evidências saltam demasiado à vista. Ministros que se atropelam frequentemente ou que atuam sem prestar contas a ninguém. Um primeiro-ministro que transpira falta de autoridade junto dos seus ministros e que vai sempre tentando, de forma reativa, dar forma ao monstro disforme em que o seu Governo se transformou.

Poder-se-á pensar que este desgoverno até representa uma boa notícia para quem a ele se opõe… No entanto, se pensarmos um pouco melhor, é sempre preferível um monstro orientado e focado do que um monstro em descontrolo total. O segundo consegue produzir ainda mais estragos.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

Lisboa Opaca

António Costa é hoje o super-autarca do país. Ninguém sabe ainda se é futuro candidato a primeiro-ministro ou futuro candidato a Presidente da República, mas um futuro político radioso a médio prazo está-lhe diagnosticado há já algum tempo. E verdade seja dita: o perfil de Costa assenta na perfeição no tipo de figura política a quem estão reservados grandes voos. É um político muito hábil, com boa presença, com grande capacidade de gerar empatia pelo discurso aberto e estruturado que tipicamente apresenta, assim como pelas importantes pontes que consegue gerar à sua volta com diversos setores políticos. E, junto do eleitorado mais à esquerda, é um político que conseguiu posicionar-se bem em temáticas como o ambiente e a mobilidade, a recuperação urbana e as políticas culturais, as TIC e a modernização administrativa, entre outras dimensões. Um perfil quase irrepreensível em termos políticos.

Mas o verniz parece ter estalado de forma particular no último mês. E estalou porque deixou a céu aberto a política pouco transparente levada a cabo pela Câmara Municipal de Lisboa. De forma quase inexplicável, o Executivo Camarário tem recusado de forma categórica o acesso público a um relatório elaborado em 2011 sobre “Obras Municipais – o Estado da Obra”. Subscrito pelo então vereador Fernando Nunes da Silva e entregue à Comissão de Boas Práticas, o documento parece apontar problemas na contratação de obras públicas pela Câmara Municipal de Lisboa. Desde 2011, a Câmara tem utilizado todos os expedientes judiciais necessários para não conceder acesso ao relatório. Mesmo com o parecer da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos para que o relatório fosse divulgado, o Executivo foi sempre recorrendo judicialmente de todas as sentenças que obrigassem à divulgação pública do documento, chegando mesmo ao extremo de recorrer ao Tribunal Constitucional. No final de Fevereiro, o Tribunal Constitucional finalmente pronunciou-se sobre a necessidade de ser divulgado publicamente o referido relatório, colocando assim um ponto final judicial ao processo. Aguarda-se de momento a efetivação da referida decisão.

Escusado será sublinhar os lamentáveis contornos de todo este caso, onde assistimos a uma entidade pública a procurar por todos os meios negar o acesso a informação do setor público. Chega mesmo ao cúmulo de levar ao Tribunal Constitucional esta sua obstinada falta de vontade de transparência. Um processo que, sem qualquer exagero, envergonha e mancha profundamente a democracia na cidade

A abertura e a transparência são há muito uma parte obrigatória de qualquer discurso político, de qualquer manifesto eleitoral. Todos são apologistas da transparência, da abertura e da participação e controlo da atividade pública pelos cidadãos. Mas tudo parece complicar-se quando se trata da aplicar o referido discurso. Até na capital do país, até pelo super-autarca modelo que de tão boa imprensa beneficia.

Há alguns anos atrás, a transparência exigia grande esforço, grande vontade. Não era fácil de praticar. Nos dias que correm, com a banalização das tecnologias, da internet, das ferramentas de gestão de informação online, qual é afinal a verdadeira dificuldade operacional para que as entidades públicas se tornem verdadeiramente transparentes?

Artigo publicado na Sexta-feira no Esquerda.net

quarta-feira, 19 de março de 2014

Um Abraço, Professor


Há pessoas que pertencem ao grupo dos gigantes. Não são naturalmente muitos, mas alguns poucos conseguem assumir esse estatuto no nosso quadro de referência. E o que faz deles gigantes é precisamente o facto do seu brilhantismo ser acompanhado de uma magnifica acessibilidade. O Medeiros Ferreira é para mim desses gigantes. Digo-o sinceramente e sem qualquer tipo de exagero. E é também por isso que a notícia da sua partida deixa-me com um natural vazio.

O Medeiros Ferreira foi meu professor na FCSH-UNL. Era aquele conterrâneo brilhante lá da Faculdade, com quem no fim das aulas, de vez em quando, trocava uma ou outra cumplicidade sobre a política nacional e sobre a política açoriana. Mais tarde, foi meu co-orientador na tese de mestrado. Aí sim tive oportunidade de conviver com ele mais de perto, discutindo temas "nada interessantes" como o final do Estado Novo, o 25 de Abril, a forma como se estruturou o sistema partidário português e o seu reflexo nos Açores. Sem grande esforço, mas longe de qualquer petulância ou paternalismo, a assertividade dos seus comentários e sugestões representavam aquele toque que todo o mestrando precisa para melhor orientar a sua investigação.

Mais tarde, quando me candidatei a doutoramento, Medeiros Ferreira veio claro novamente a bordo.  Era incansável a este respeito. E tremendamente acessível. Guardo preciosamente na memória as vezes que o encontrei no Princípe Real para discutir temas de tese, problemáticas a desenvolver, etc. 

Mais tarde ainda, nas andanças blogosféricas, trocamos um vez ou outra ideias sobre temas diversos. Acompanhá-lo no Bicho Carpinteiro e, mais tarde, no Córtex Frontal era obrigatório. Sobretudo aprendendo como é possível fazer grandes posts com apenas uma ou duas frases. Era um mestre blogosférico neste sentido. Simplesmente brilhante.

No entanto, para além de todas as experiências vividas com o próprio, nestes momentos de partida salta-nos sempre à vista as qualidades que tornavam alguém grande: Inteligência e lucidez, independência e irreverência, com um sentido de humor apurado e com uma atitude que não escondia o seu gosto pela vida. Um líder, um grande intelectual e académico que fazia política inteligente e que importava ouvir para obter uma visão moderada, mas assumidamente de esquerda sobre o país e o mundo. 

Felizmente, gigantes como Medeiros Ferreira não chegam de facto a partir. Ficam cá, como referência, com obra feita, fazendo escola até... É isso que, nestes momentos, nos serve para colmatar o tal sentimento de vazio.

Um grande abraço, Professor.

terça-feira, 18 de março de 2014

Os Grandes Reestruturadores


O Manifesto dos 70 conseguiu marcar definitivamente os últimos dias. Originou o que se pretende com este tipo de iniciativas: agitar as águas, gerar discussão e, sobretudo, obrigar os vários atores a posicionarem-se sobre um tema fraturante. E, de forma quase maniqueísta, foi sobretudo a esta última dimensão que assistimos na sequência da divulgação pública do documento. A reestruturação da dívida ficou no centro da discussão política, obrigando a uma dissecação dos argumentários a favor e contra este tipo de ação.

Do lado dos que concordam com a reestruturação, os argumentos são claros: as condições impostas são pura e simplesmente impossíveis de concretizar. Portugal teria de ter nos próximos 20 anos um desempenho económico que nenhum país europeu conseguiu ter durante mais do que 2 ou 3 anos. Teriamos de manter níveis de austeridade extremos, lado a lado com taxas de consumo e de crescimento verdadeiramente notáveis, o que se torna quase impossível em termos matemáticos. A reestruturação surge assim como uma atitude de realismo e até de responsabilidade, procurando encontrar condições que permitam, por um lado, tirar o país do caos em que se encontra, ao mesmo tempo que são garantidas as condições para podermos pagar até ao último cêntimo o que lhe foi emprestado.

Do lado dos que se opôem ao manifesto, mais do que debruçarem-se sobre a possibilidade ou impossibilidade de cumprir as condições em vigor, centram-se tipicamente em duas grandes questões. Por um lado, os mais moderados que argumentam com o facto deste não ser o momento mais oportuno para se falar em reestruturação. Tal poderia assustar os nossos credores e os famigerados mercados. Por outro lado, os mais conservadores que sublinham que não se deve falar de reestrturação nem agora nem nunca, uma vez que tal representa uma violação das condições acordadas com os nossos credores.

Curiosamente, as referidas posições mais moderadas ou conservadoras parecem esquecer o que a verdadeira reestruturação das dívidas está já em curso. Não o está relativamente aos credores internacionais, é verdade, mas sim relativamente aos cidadãos portugueses que foram vendo o seu bolso ser constantemente remexido. Numa primeira fase, tentou-se amenizar tais abusos de confiança com o facto de serem supostamente provisórios. Os impostos aumentariam, mas apenas provisóriamente. Os salários e as pensões diminuiriam, mas apenas provisóramente. A austeridade seria uma catástrofe social, mas apenas provisóriamente. Subitamente, num estalar de dedos, o Governo começou a assumir o que há muito se suspeitava, mas que até então era negado a pés juntos. Passos Coelho chega mesmo a irritar-se agora com todos aqueles que presumiram que se tratava de algo provisório.

Esta sim tem sido a verdadeira reestruturação em curso: os cortes nos salários e pensões que se tornaram permanentes, os aumentos de impostos que vieram para ficar, a austeridade que é assumida como novo modelo de desenvolvimento. Os grandes reestruturadores, do Governo e da maioria que o apoia, pelos vistos não estão preocupados com esta violação das condições junto de quem os elegeu, junto de quem tinha direitos adquiridos, junto de quem trabalha e viu subitamente ser-lhe retirada parte do seu rendimento. Os grandes reestruturadores importam-se apenas com os grandes credores, com os contratos com eles firmados e com a reputação de seriedade para lá de Vilar Formoso. 

Se calhar este grandes reestruturadores deviam fazer o seu próprio manifesto, sublinhando (a bem do país, claro) a importância de não serem mantidos os compromissos assumidos com os cidadãos. Isso é que era. Porque não? Fica feito o desafio.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

domingo, 16 de março de 2014

Viva o Sócrates!


O mesmo Sócrates que há três anos chamou a troika e assinou o memorando de entendimento, o mesmo Sócrates que há três anos qualificava qualquer ideia de reestruturação da dívida como um tremendo calote que traria o desemprego e a miséria ao país, foi o Sócrates que hoje fartou-se de elogiar o Manifesto dos 74, dizendo mesmo que o assinaria... Clap clap clap, viva o Sócrates!

Ora aí está o que eu não queria que acontecesse...

Preferia que o Sporting perdesse o jogo com justiça do que o ganhasse com um fora de jogo... A veredito futebolístico da semana será o facto de "uma mão lava a outra" i.e. "o Sporting não tem nada que se queixar"... Se tal sossega todas mentes não-sportinguistas, sobretudo as benfiquistas, seja feito à vossa vontade. :)

sexta-feira, 14 de março de 2014

O Manifesto do Calote... Que Horror

O manifesto pela reestruturação da dívida pública foi, sem dúvida, o acontecimento político da semana. E, como é evidente, o estranho não foi assistirmos a signatários tão diversos em torno de um tema. Convergências e consensos há muitos... O que tornou o manifesto central foi o apelo tão vasto em torno de um tema que há não muito tempo atrás era um autêntico tabu. Num momento em que o Governo nos garante que estamos no bom caminho, eis que surge um manifesto subscrito por personalidades de diversos quadrantes declarando que temos de reestruturar a dívida.

Para quem não se lembra muito bem, a reestruturação da dívida foi uma das principais bandeiras do Bloco em... 2011! Efoi-o precisamente por já na altura ser evidente que não era possível saldar a dívida que o país acumulava. Saldar a dívida com os juros e nos prazos então acordados seria a condenação de quaisquer hipóteses de retoma económica . Embora fosse a única solução realista para evitar um mergulho convicto na catástrofe social, a reestruturação foi desde logo encarada como a solução de uma cambada e radicais marginais que por aí andavam.

A condenação da reestruturação atingiu aliás o seu ponto máximo quando começou a ser apelidada de “calote” aos credores. Um calote que levaria à miséria, a desempregos e a falências. Um caos, portanto. E quem foi um dos grandes autores desta maravilhosa profecia em torno do calote? O nosso literalmente inesquecível José Sócrates. Um dos debates televisivos que precederam as legislativas de 2011 e colocou frente a frente Sócrates e Louçã constitui hoje uma bela peça para reavivar a memória de muitos.

Vemos agora os mais diversos sectores reunirem-se em torno deste tema, considerando-o como a única saída realista perante o cenário que o país vive. Não compensa de facto ter razão antes do tempo... De qualquer modo, independente da maior ou menor seriedade mostrada por alguns em torno deste tema, ainda bem que começam a surgir este tipo de convergências, este tipo de consensos. Não haja dúvidas a este respeito. Em última análise, é sinal de que a mudança está em curso acelerado. O radicalismo de ontem transformou-se agora em pragmatismo. Venham mais convergências deste tipo. Cá estaremos para as receber.

Artigo hoje publicado no Esquerda.net

terça-feira, 4 de março de 2014

Palhaçada

Obrigado, Pedro, por me teres brindado com mais este dia de trabalho. Foi um Carnaval maravilhoso. Foi mais um dia em que me senti um verdadeiro privilegiado, purificado pelo trabalho em nome da produtividade do país. Obrigado, Pedro!

Guiné Equatorial, ninguém leva a mal?

Possivelmente por estarmos no Carnaval, parece que ainda não se refletiu devidamente sobre o que significará a entrada da Guiné Equatorial na CPLP. Não é uma questão nova. Há muito que vinha sendo discutida, embora sempre rodeada de visões que variavam entre o gozo e a caráter incrédulo. Seria possível imaginar há alguns anos atrás que um Estado conhecido como uma das mais antigas ditaduras africanas, sem qualquer tradição de lingua portuguesa, pudesse agora ocupar o papel de país membro da CPLP? Duvido. Mas o que terá acontecido para que essa hipótese nem sequer ponderada esteja agora a concretizar-se?

Antes de mais, não são precisas grandes análises para explicar as conhecidas fragilidades de uma organização como a CPLP. Surge como um esforço meritório, sobretudo Português, de ativar um espaço de cooperação permanente entre um conjunto de países que, pelas raízes históricas comuns conhecidas, possuem uma grande proximidade cultural. E a CPLP tem dado passos importantes na aproximação dos seus membros nas mais diversas vertentes. Seja na saúde, na justiça, na educação e cultura, multiplicam-se as iniciativas de cooperação nestes domínios. No entanto, a ausência de instrumentos financeiros sólidos que permitam melhor materializar a referida cooperação, lado a lado com uma manifesta falta de suporte político, determinam que a CPLP fique muito aquém do seu potencial.

Sublinhadas as fragildades acima, mesmo assim torna-se impercetível a entrada da Guiné Equatorial na organização. Em primeiro lugar, pelo seu lamentável registo ditatorial. É uma das mais antigas ditaduras africanas, onde o Estado de Direito é uma miragem, sendo os julgamentos sumários e as prisões arbitrárias práticas corrente, segundo diversas organizações de defesa dos direitos humanos. É portanto um regime bem distante dos mínimos democráticos exigíveis, mesmo tendo em conta os complexos contextos africanos. Em segundo lugar, não consta que exista qualquer proximidade minimamente relevante da Guiné Equatorial relativamete à língua Portuguesa. Fala-se com certeza mais Português no Luxemburgo, França ou em alguns estados Americanos, do que se fala na Guiné Equatorial.

O que explica então este súbito abrir de braços da CPLP? Apesar de ter um território pequeno (semelhante ao Alentejo) e com poucos habitantes (650 mil), a Guiné Equatorial é o terceiro exportador de petróleo de África. Para além disso, possui também um subsolo rico em gás natural e  outras riquezas. Ou seja, a aceitação da Guiné Equatorial na CPLP é sobretudo encarada como estratégica do ponto de vista económico-financeiro por parte dos restantes países membros.

A diplomacia e o relacionamento entre Estados é recheado deste tipo de hipocrisias institucionais, não valendo a pena ter ilusões a este respeito. Aliás, a entrevista que Rui Machete dá este Domingo ao Público até nos deixa tontos com tanta hipocrisia, tão grande é a desonestidade inteletual  e a falta de coluna vertebral demonstrada pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros.

De qualquer modo, apesar de ser naíve achar-se que este tipo de interesses estratégicos dos Estados poderiam passar ao lado deste tipo de decisão, importa também não nos deixarmos contentar com este tipo de obscurantismo. A integração de um país como a Guiné Equatorial na CPLP representa, em primeiro lugar, uma lamentável ignorância sobre o regime político que vigora no país. Por outro lado, e não menos importante, esta adesão pode  também determinar que a CPLP saia ainda mais describilizada no panorama internacional, não sendo também de descurar o efeito corrosivo interno da referida opção.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

segunda-feira, 3 de março de 2014

Mudam-se os tempos

Quando andava na faculdade, o quiosque de rua era uma instituição. Entre tabaco e jornais, deixava lá uma parte simpática da mesada. A passagem pelo quiosque era um saboroso ritual que se repetia diariamente em busca de alimento para a alma.

Com o abandono do tabaco e a adesão há já uma série de anos às assinaturas digitais de jornais, as idas ao quiosque praticamente desapareceram. Surgiu um vazio grande na minha vida, confesso... :)

Mas eis que, com o crescimento das crias, o quiosque volta a aparecer no mapa dos rituais. Porquê? A culpa é dos cromos! Da caderneta do campeonato de futebol aos nutriventures, as visitas aos quiosques voltaram a ser frequentes. E o impacto no orçamento familiar também voltou. É enternecedor, eu sei. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Alerta Laranja

Do congresso do passado fim-de-semana destacou-se sobretudo a realidade paralela em que vive o partido laranja. O PSD vê um país que ninguém vê, aponta milagres que ninguém vislumbra e lança foguetes sem que ninguém perceba porquê. Um bando de loucos, portanto, que se reuniu no Coliseu. Mas mais do que a insanidade eufórica que por aquelas bandas andou, é sim preocupante a leveza com que puderam assumir publicamente a sua loucura. É sim preocupante o grande à vontade sorridente com que se apresentaram ao país e gritaram vitória. Sem grandes rodeios, sem falsas humildades, e com maior ou menor loucura, todos vimos um PSD triunfante, seguro de si e dos seus feitos no país.

Todo este cenário é alarmante. Quando um Governo assumidamente austeritário se apresenta tão otimista e tão cheio de vitalidade três anos depois de ter iniciado a sua sova ao país, algo vai mal. Com Portugal feito em cacos, com todos os indicadores a demonstrarem que bateu no fundo, sem qualquer reforma estrutural conseguida, assistimos mesmo assim a uma maioria com ar vitorioso e pronta para a batalha que se segue.

E o otimisto é tanto que até se dão ao luxo de cometer erros de casting grosseiros. O regresso de Relvas é um bom exemplo a este respeito. Mesmo sabendo todos os danos que tal opção lhe traria, Passos não teve grandes problemas em assumir perante o país a falta que sentia do seu velho amigo. E se o fez, é porque está certo que tem margem para tal e que o risco compensa.

O congresso do PSD deve fazer soar na oposição um forte alerta laranja. É que apesar das sondagens apontarem para uma derrota da maioria nas Europeias, os números já foram mais tranquilizadores a este respeito. Como é possível que, nas eleições tipicamente mais propensas a votações de protesto, a esquerda consiga a proeza de deixar fugir um excelente resultado?

Podem naturalmente ser encontradas explicações mais estruturais a este respeito. Destaque para a velha e paradoxal tendência dos eleitores votarem tipicamente mais à direita em momentos de crise económica. De qualquer modo, para lá das explicações estruturais ou exógenas, a esquerda, toda a esquerda, pode e deve refletir sobre como é possível não estar a agarrar consistentemente a vaga de descontentamento que varreu o país nos últimos anos. Como é possível que, em última análise, a presente maioria continue tão sorridente?

Artigo publicado na 6f no Esquerda.net

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Tó Zé, seguras-te?


Com o aproximar das Europeias, tem sido interessante acompanhar o cerco que no PS vai sendo feito a António José Seguro. Uma vez que se assume como certa a vitória dos socialistas nas próximas eleições, todos os que nunca estiveram convencidos com a sua liderança elevam naturalmente o patamar do objetivo a atingir em Junho. Já não basta ao PS de Seguro vencer as próximas eleições, será necessário vencer por muitos. O que, trocado por miúdos, equivale a algo como “ou consegues uma vitória brutal, ou então teremos todas as razões para te fazer a cama”. E sejamos claros: não há nada de verdadeiramente surpreendente nesta atitude. As dinâmicas de competição e poder internas nos grandes partidos ao centro, sobretudo quando estão na oposição, determinam que as suas lideranças estejam sempre a ser postas em causa. É normal que assim seja. Torna-se sim curioso observar todos os argumentos que vão sendo levantados pelos adversários internos para colocar em causa a referida liderança.

A liderança de António José Seguro nunca convenceu uma série de setores do partido. Mas as raízes desta dinâmica são sobretudo estruturais. Ou seja, uma liderança que assume um grande partido do centro no momento em que este atravessa o calvário da oposição, será sermpre fortemente criticada. E numa fase em que não há perspetivas de conseguir o regresso ao poder, tais críticas vão sendo pouco concretas. Não existe portanto um adversário ou corrente interna que se assuma como alternativa, existindo sim uma crítica que tem como principal objetivo marcar terreno para o futuro. 

Em linha com o acima exposto, Seguro sentiu esta semana as críticas mais diversas vindas dos seus adversários internos. Em entrevista à Rádio Renascença, Carlos César afirmou que a questão da liderança deve ser reaberta no caso de não existir um bom resultado nas europeias. César nunca se inibiu de criticar esta liderança. Estranho é o ângulo em que esta crítica tem sido feita mais recentemente, sendo agora colocado em causa o rumo “demasiado oponente e pouco proponente da atual liderança socialista”. Não é de facto a primeira vez que César critica Seguro pela direita. Em dezembro último, César também defendeu um governo de coligação PSD e CDS, não deixando de ser curiosa esta sede de uma maior aproximação ao centro.

Por seu turno, como não podia deixar de ser, António Costa também veio a público mandar a sua farpa. Apesar de afirmar que se obriga a bastante “recato” no comentário à liderança do atual secretário-geral, Costa considerou que não basta “ganhar poucochinho”. Ou seja, o maior fantasma que a atual liderança socialista possui não conseguiu deixar de sublinhar o patamar elevado de responsabilidade que António José Seguro tem pela frente. E como bom fantasma que é, António Costa voltou a socorrer-se da postura que o tem caracterizado nestes últimos anos: um habilidoso toca e foge.

Por último, neste mesma semana também vieram a público as reuniões que Mário Soares tem feito com os mais diversos setores conhecidos pela sua relativa oposição à liderança socialista. O histórico líder socialista nunca escondeu a sua pouca empatia com o atual secretário–geral, tendo sempre desenvolvido uma crítica cerrada pela esquerda à atual liderança. Agora já o faz reunindo sem disfarçar diversos setores, o que não deixa de ser um novo patamar de oposição interna.

É deliciosa a variedade de críticas que recaem sobre Seguro. César critica-o pela direita, Costa ao centro e Soares pela esquerda. A isto sim chama-se um verdadeiro cerco. Será que o Tó Zé segura-se após as Europeias? Acho difícil, mas a ver vamos…

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental