quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Bem me quer, mal me quer…

É sempre interessante ver o posicionamento do pensamento político à direita relativamente a este tipo de medidas. Por um lado, fazem finca pé para o não aumento dos impostos, sempre prontos a utilizar o argumento de que tal seria muito duro para o orçamento das famílias portuguesas. Mas se as medidas visarem cortar nos salários ou nos apoios sociais, aí logo se esquecem das famigeradas famílias portuguesas.

Para a posteridade

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O diabo está nos pormenores

O comunicado sobre o PEC 3 que se encontra no Portal do Governo é bastante elucidativo sobre onde se pretende obter poupança. No que a despesas sociais diz respeito, os cortes são claros e quantificados (e o valor do aumento do IVA também não deixa margem para dúvidas). Já quanto à redução da despesa através de outros mecanismos - extinção de empresas públicas ou redução de benefícios fiscais para pessoas colectivas, por exemplo - aí ficou-se pela enunciação de intenções. Comentários para quê?
(Imagem: Diabo a 4)

Sobre o discurso do esforço e do sacrifício

Novas medidas de austeridade devem hoje ser anunciadas, sob o signo do “esforço e dos sacrifícios que todos temos que fazer”. É um enunciado interessante, que provoca sempre alguma empatia. Chega a convocar uma espécie de espírito de missão ao povo português com contornos quase cristãos. Daí ser um discurso que pega razoavelmente bem. O problema é que acaba por se desmoronar ao primeiro questionamento: desde quando é justo ou sequer razoável todos termos de fazer sacrifícios?
(Imagem: Palavras da Vida)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Obrigado, Pedrinho

É sabido que o relacionamento entre Cavaco Silva e Passos Coelho nunca foi famoso. E mais recentemente não faltaram pequenos episódios de desencontros e incómodos mútuos. Basta para isso recordar a questão da proposta de revisão constitucional do PSD. Mas o braço-de-ferro que Passos Coelho tem despoletado com o PS a propósito da aprovação do orçamento de Estado acaba por ser um dos melhores presentes que o novo líder do PSD poderia oferecer a Cavaco.

Subitamente, o actual PR assume o papel de árbitro conciliador, convocando os partidos para acalmar os ânimos. Tudo em nome da estabilidade política e consequentemente económica. Haverá coisa que o eleitorado mais aprecia num PR do que este papel paternalista? Tenho dúvidas. Cavaco fica a dever no mínimo um almoço a Passos.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Querem saber onde poupar? Perguntem aos funcionários

Em tempos de crise, a pressão para a poupança nos gastos públicos é cada vez maior. E embora se deva distinguir muito bem entre despesa pública e desperdício público, é indiscutível que este último não é bom em lado nenhum. Traçam-se então extensos planos de cortes, chegando-se ao paradoxo de, em tempos de crise, poupar-se extensamente nas prestações sociais.

Sem dúvida que a grande máquina do Estado - a Administração Pública - é um dos sítios onde melhor se deve procurar a poupança. Mas ao mesmo tempo que ouvimos falar em cortes cegos nas despesas, continuam a sair cá para fora notícias sobre frotas renovadas e outros gastos insultuosos. Cortar em baixo é fácil, mas as regalias em cima costumam manter-se.

Neste contexto, e para inverter tal tendência, quem melhor do que os funcionários de uma instituição/organismo para identificar onde se encontra o desperdício? Quem melhor do que eles para identificar onde há excesso de mordomias e regalias? Devia ser lançado um concurso a todos os funcionários públicos que consistiria apenas na seguinte pergunta: "No seu organismo, onde pouparia?". Embora fosse incómodo para as chefias públicas, garanto que o contributo para a redução da despesa pública seria grande.
(Imagem: Whidbey Island Bank)

Não me esqueci deste blog

Uma nova situação profissional e uma vida familiar a exigir cada vez mais atenção fazem com que aqui o Activismo de Sofá esteja com dificuldades em estar tão em cima do acontecimento como já esteve. Ao ponto de ficar dias seguidos sem novos posts. São fases. Agradecemos desde já a compreensão aos milhões e milhões (e milhões) que nos seguem diariamente. ;)
(Imagem: Sodahead.com)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O Jornalismo e a Internet

Na comemoração dos 15 anos do Público Online, o seu fundador, José Vítor Malheiros, deu uma entrevista onde discorre sobre os efeitos da revolução provocada pela internet no jornalismo. As opiniões de Malheiros são evidentemente discutíveis, mas se calhar por isso mesmo vale a pena ler a entrevista.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

As Mulheres e a Toponímia em Lisboa

"Lisboa tem cerca de 3600 arruamentos com toponímia. Deste universo, aqueles que se referem a mulheres são apenas 3%." (in Josefa de Óbitos, 2010, p. 11, Quidnovi, Lisboa)

A pergunta a Jerónimo

No âmbito do fórum online comemorativo dos 15 anos do Público online, tive oportunidade de colocar a seguinte questão a Jerónimo de Sousa:

09:55
João Ricardo Vasconcelos :
Bom dia, Jerónimo de Sousa. Sem retirar naturalmente qualquer mérito ao candidato Francisco Lopes, não considera que o apoio do PCP a Manuel Alegre teria sido uma óptima demonstração da capacidade da esquerda se entender em momentos fulcrais como o actual? Obrigado, Cumprimentos
quarta 22 de setembro de 2010 09:55


09:57
Jerónimo de Sousa:
Nós temos um projecto claro que não se confunde com ambiguidades de outras candidaturas, que em muitos aspectos estão comprometidas com as políticas dominantes. É uma candidatura que mobiliza e une todos aqueles que aspiram a uma mudança real.
quarta 22 de setembro de 2010 09:57


Se pudesse ter respondido a Jerónimo (a aplicação não permite reagir às respostas, apenas formular uma pergunta), teria escrito qualquer coisa como:

09:59
João Ricardo Vasconcelos
Se calhar em momentos de crise como o actual, e estando em causa uma candidatura tão forte como a de Cavaco, seria importante o PCP demonstrar desde logo que é capaz de desenvolver entendimentos... Felizmente sabemos que, caso haja uma segunda volta, o apoio dos comunistas a Manuel Alegre não falhará.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Atenção: Carrilho à Solta

Goste-se ou não do senhor, a súbita demissão (ou substituição, se preferirem) de Manuel Maria Carrilho no cargo de embaixador da UNESCO está muito mal explicada. Por um lado, parece que surge na sequência do livro lançado e entrevista dada ao Expresso. Por outro lado, será o governo tão pouco prudente ao ponto de levar a cabo um acto censório tão às claras?

Mas a estranhesa desta caso não se fica por aqui. É que enquanto esteve na UNESCO, Carrilho esteve entretido e comprometido com a actual liderança socialista. Agora deixa de o estar, o que pode ser chato para o Governo e para o próprio PS.
(Imagem: Macroscopio)

A Trapalhada Atendível

No ano em que se preparam as presidenciais e no ano em que Portugal se depara com um dos piores cenários económicos em democracia, o PSD entendeu por bem apresentar uma proposta de revisão constitucional. Se calhar tal acto até pode não ser considerado estranho tendo em conta o velho desconforto que o partido sempre manifestou com o texto constitucional. Se a isto adicionarmos a vontade de afirmação de um novo líder que se apresentou como a lufada de ar fresco liberal que o país tanto precisa, compreendemos então melhor o porquê desta aventura

O problema é que a aventura não tem corrido bem. Por um lado, existe um problema relativamente estrutural: as ideias de liberais de não intervenção do Estado na economia são relativamente estranhas ao eleitorado português. Ou seja, grande parte do discurso do novo líder do PSD corre o risco de não ser bem entendido pela opinião pública. Em Portugal, o centro-direita nunca se afastou muito de concepções social-democratas ou democratas cristãs de intervenção do Estado na economia. Aliás, goste-se ou não, o alargamento do sistema público de saúde ou de educação foi também feito por governos de centro-direita, nomeadamente pelos governos do actual presidente da República. Não é portanto de estranhar que as concepções liberais de Passos sejam pouco entendidas até pelo eleitorado típico do PSD e mesmo por alguns militantes do seu partido.

Por outro lado, como se tal não bastasse, a forma como a liderança laranja tem gerido o dossier tem deixado muito a desejar. Veja-se o caso do “despedimento com razão atendível” que, depois de fortes críticas, passou a contar no projecto de revisão constitucional como “despedimento com razão legalmente atendível”. A introdução do “legalmente” criou uma redundância que apenas veio demonstrar o pouco à vontade que o PSD tem com a matéria em causa (como se as razões atendíveis previstas na anterior formulação incluissem ilegalidades). Mas fez mais do que isso. Eliminando-se um conceito consagrado como é o de “justa causa”, o projecto do PSD veio conceder ao legislador um cheque em branco na definição em lei ordinária sobre o que é que se entende por “razão atendível”. As cerradas críticas ao projecto não se fizeram esperar.

O projecto de revisão constitucional laranja veio conceder a Sócrates a possibilidade de se afirmar de repente como o grande defensor do Estado Social. Assim sendo, concedeu um importante balão de oxigénio para um Governo socialista que muitos consideravam num processo de queda irreversível. Mas os efeitos de tal projecto não se ficam por aqui. Basta ver o desconforto que tem gerado em Cavaco Silva, que já o elegeu há muito como tema tabu. Não só por algumas das concepções liberais do mesmo distanciarem-se do seu perfil politico-ideológico, mas sobretudo pelo incómodo que qualquer posicionamento ideológico claro implica para alguém que está apostado em mostrar-se acima da política.

O novo líder do PSD está em maus lenções e todo o país já o percebeu. Mas para lá deste cenário pantanoso em que se meteu, e para lá da estratégia de fuga para a frente que tem seguido, importa também não perder de vista o posicionamento do PS a este respeito. Manter-se-á de pedra e cal ou irá evoluir? Apostaria à partida na primeira hipótesedado que no momento presente convém-lhe afirmar um forte distanciamento ideológico com o PSD. O problema é que basta olharmos um pouco para trás para percebermos com que partidos se fizeram as sucessivas revisões constitucionais até ao presente. È toda uma tradição que está ser posta à prova...
.
Artigo publicado hoje no Açoriano Oriental
(Imagem: Tisserand)

domingo, 19 de setembro de 2010

Sobre a Warhol TV

Visitei a exposição Warhol TV no Berardo. Vale bem a pena. E convém ir com tempo para se conseguir perceber melhor Andy Warhol e o mundo em que vivia. Ou que gostava de pensar que vivia...

Genial

Se antes já estava curioso por ver o novo documentário sobre Joaquin Phoenix, a golpada mediática aqui descrita despertou ainda mais o interesse.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Tudo ou nada


As hipóteses de Manuel Alegre vencer Cavaco Silva não são, à partida, as mais animadoras. Impedir uma reeleição presidencial é uma tarefa hercúlea. O eleitorado já mostrou inúmeras vezes que, quando convidado a optar pela manutenção ou pela mudança em Belém, escolhe a segunda opção. Parece revelar-se mais simples manter lá quem já se conhece, sobretudo quando se está habituado a encontrar na figura presidencial uma voz parternalista e conciliadora. Manter lá alguém que se afirma ora preocupado com isto, ora preocupado com aquilo, falando numa espécie de código presidencialês.

Cavaco, neste sentido, está a gerir relativamente bem este seu final de mandato. Colocando-se acima do poder, como uma espécie de voz da consciência colectiva, lá vai mandando os seus recados contidos e devidamente codificados. Raramente se precipita nas reacções, preferindo silêncios ligeiramente interrompidos por populares apelos à estabilidade governativa. Tem procurado encarnar tudo o que o eleitorado tem sido habituado a esperar de um Presidente da República. A sua tentativa de postura apolítica procura fazer esquecer que se trata de um dos políticos que mais responsabilidades teve no Portugal democrático, acumulando 15 anos nos dois cargos de maior relevo do sistema político.

Não vai ser fácil derrotar Cavaco Silva, é um facto. Precisamente por isso, mais do que tal se afirmar como factor desmobilizador, tem de ser encarado por todos aqueles que não o apoiam como motivo extra para a mobilização. À esquerda não restam dúvidas que Manuel Alegre é o candidato que melhor conseguirá contribuir para uma segunda volta. É o candidato que melhor conseguirá construir pontes com o eleitorado que não se identifica com Cavaco. Não é o candidato perfeito e estranho seria se assim o fosse. Mas é alguém com inúmeras provas dadas no panorama da esquerda e é com certeza a único candidato com capacidade para ameaçar a reeleição de Cavaco.

Joga-se agora o tudo por tudo na campanha de Manuel Alegre. Ou se consegue algo de facto mobilizador, uma campanha utilizando todos os meios à disposição para demonstrar que o país não precisa de mais 5 anos de cavaquismo, não precisa de mais 5 anos do candidato do PSD e do CDS, ou então a reeleição será certa. Não querendo assumir um ar profético, este é o momento em que todos os esforços nunca serão demais. É o momento de dar a cara, de mobilizar pessoa a pessoa, de ganhar voto a voto, de envolver todas as personalidades que possam ser uma referência para a população. Venham os autocolantes para os carros, os pins para a lapela, venham os lenços para as varandas, venha tudo pró menino e prá menina. É o tudo ou nada. Ou vai ou racha. Porque no dia seguinte ou estaremos alegres, ou estaremos tristes. Simples, não?
.
Artigo publicado hoje no Esquerda.net
(Imagem: Hand Made)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A corrida aos holofotes

Pelos vistos alguns círculos mais conservadores ainda não perdoaram a Cavaco o não veto ao casamento LGBT. Se calhar até avançarão com um candidato, não para ganhar (como é evidente), mas para terem acesso aos holofotes da campanha eleitoral. Enfim, estão no seu direito...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Má Ideia

Após meses de discussão, foi aprovada a proibição do véu integral muçulmano em França. Não é uma questão pacífica e compreendo os argumentos de quem acha que este é o caminho. Pessoalmente, julgo que nestes casos é preferível levar a água ao “nosso” moinho, não seguindo o caminho da proibição. Sobretudo porque tendo em conta a sensibilidade cultural da questão, a reacção poderá ser a radicalização. Ou seja, precisamente o inverso do que se pretende.
(Imagem: Secção dos Direitos Humanos da Associação Académica de Coimbra)

Subway Life

O artigo que saiu no Ípsilon sobre o livro de António Jorge Gonçalves convence-nos. Desenhar pessoas que andam no metro em 10 cidades do mundo, eis a essência de Subway Life. Chega esta semana às livrarias e a mim já me deixou bastante expectante. Se calhar porque sempre achei delicioso andar nos transportes públicos e observar o “mundo real”.
(Imagem: Urban Photo)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Curiosa Solução

Não sou constitucionalista e nem sequer sou jurista, mas a substituição de despedimento por “razão atendível” por “razão legalmente atendível” parece à primeira vista uma solução algo curiosa e paradoxal até. É que, deste modo, é a lei fundamental (a Constituição) que se subjuga à lei ordinária. Ou seja, se assim é, então para quê tal preceito figurar numa Lei Fundamental? Com a configuração agora proposta, a Constituição limita-se a conceder um cheque em branco ao legislador, como desde logo afirmou Garcia Pereira.
(Imagem: Dar a tramela)

Já nas bancas

Mais informações sobre a edição de Setembro aqui.