quarta-feira, 1 de abril de 2015

SATA, a nossa moeda de troca?


A revolução low cost já chegou aos Açores. O passado Domingo foi marcante a este respeito, com a chegada dos primeiros voos à região. Lançam-se agora vivas à Easy Jet e à Ryan Air, que parecem finalmente colocar um ponto final nos elevados preços do transporte aéreo entre os Açores e o Continente. Mas no meio desta euforia regional que parece ter-se generalizado, apenas um pequeno detalhe, apenas um pequeníssimo pormenor, parece ter ficado por resolver: a SATA, companhia aérea regional de bandeira, não só ficou de fora dos festejos, como vê agora o seu futuro com insegurança e apreensão. 

Sobretudo a componente SATA Internacional do grupo, que é agora obrigada a bater-se com operadores que jogam noutro campeonato. E escusado será sublinhar que a SATA não é apenas uma marca com um conjunto de aviões. Trabalhadores da empresa e suas famílias têm evidentemente razões para olhar de forma apreensiva para a revolução low cost em curso. Parte da empresa pública regional parece ser o cordeiro a sacrificar em todo este processo. No fundo, uma moeda de troca, como se de um mal necessário ou de uma fatalidade se tratasse. 

O Governo Regional, pela voz do seu Secretário Regional dos Transportes, bem tentam dar a volta à questão. O Plano Estratégico da SATA, apresentado três meses antes da abertura do espaço aéreo (?!), surge como a grande resposta. O Plano prevê a redução de receitas e refere de forma muito mitigada a necessidade de redução de pessoal. Poucos parecem acreditar na sua solidez, a começar pelos próprios trabalhadores da própria SATA. 

A chegada das companhias aéreas low cost é o culminar de uma discussão com muitos anos, que identificava há muito os problemas do anterior modelo de espaço aéreo fechado. Os elevados preços do transporte aéreo condicionavam o desenvolvimento da região, sobretudo em termos turísticos, mas não só. Qualquer solução que implicasse a redução dos custos das ligações aéreas com o Continente seria naturalmente muito bem-vinda, tais eram os constrangimentos provocados pelo anterior modelo. 

Precisamente por esta ser uma mudança que vinha sendo pensada, discutida e analisada há tantos anos, é grave constatar que a mesma parece ter sido muito mal preparada. Num dia, a o espaço aéreo fechado era fundamental para garantir a coesão entre ilhas, no dia seguinte deixou de ser. Num dia, as companhias low cost ofereciam pouca qualidade nos serviços prestados, no dia seguinte já não era bem assim. Num dia, a SATA era uma empresa regional de referência, levando o nome dos Açores a vários continentes, no dia seguinte passou a ser uma empresa pouco sustentável, que necessita de se “adaptar aos novos tempos”, de se “preparar aos desafios futuros”. 

Tudo indica que as low costs terão um papel positivo na região. Ainda bem que assim é. Mas que o referido processo tenha acontecido assumindo a SATA como moeda de troca é de uma gravidade e incompetência grandes. Não se pode achar que uma empresa habituada a um mercado fechado pode subitamente adaptar-se a um mercado liberalizado. Não se pode assumir que um Plano Estratégico aprovado três meses antes de tão grande mudança poderá fazer milagres. E, sobretudo, não se pode sequer considerar que os destinos de uma empresa pública e estratégica como a SATA são um mero detalhe.

Se não houve capacidade durante estes últimos anos para preparar decentemente a transição para o mercado liberalizado, que haja agora compromisso, tempo e vontade do Governo Regional para o fazer. A SATA não pode ser a moeda de troca de todo este processo. A empresa, e sobretudo os seus trabalhadores, merecem muito mais do que isso. 

Artigo ontem publicado no Açoriano Oriental

terça-feira, 17 de março de 2015

Atenção! Mudança em Curso


Começam a surgir peças jornalísticas a descodificar os diversos novos partidos e candidaturas que se apresentarão às próximas legislativas. Para além dos habituais 5 partidos/coligações com representação parlamentar (PS, PSD, CDS, CDU e BE), e dos partidos com pouco ou nenhum historial de representação (PPM, MPT, MRPP, POUS, PAN, PTP, PNR), existem novas formações que prometem baralhar o xadrez partidário em Portugal. Temos o Partido Democrático Republicano de Marinho Pinto, temos a Candidatura Cidadã LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR de Rui Tavares, Ana Drago e Daniel Oliveira (da qual sou apoiante), o Movimento Alternativa Socialista de Gil Garcia, o AG!R de Joana Amaral Dias (ainda em formação) e o “Nós Cidadãos” de Mendo Henriques (também em formação). Fazendo lembrar os tempos do PREC em que havia opções para todos os gostos, parece claro que estas legislativas serão diferentes. 

Esta entrada na arena política de novos atores não é um exclusivo do panorama Português. O fenómeno tem vindo a acontecer um pouco por toda a Europa. As tensões provocadas pelas políticas de austeridade e a falta de capacidade de resposta do mainstream partidário apresentam-se como as principais razões desta mudança em curso. E os novos atores surgem com perfis diferentes. Na Grécia, o Syriza demonstrou que a esquerda radical pode chegar ao poder, fazendo com que o partido de centro-esquerda PASOK desaparecesse do mapa. Em Espanha, o Podemos afirma-se como grande novidade, ameaçando o PSOE. Em França, a Frente Nacional assume-se cada vez mais como um grande partido, retirando espaço às forças políticas tradicionais. E uma série de outros exemplos menos emblemáticos poderiam aqui ser trazidos para demonstrar que algo poderá estar a mudar nas democracias europeias.

É ainda prematuro prever com certeza os impactos desta mudança em Portugal. Parece certo que a pré-campanha e campanha serão diferentes dada a diversidade de atores presentes. Mas os resultados reflectirão de facto esta mudança? 

Para já, é altamente improvável (ou impossível até) que qualquer das novas forças consiga assumir a dimensão eleitoral do Syrisa, do Podemos ou da Frente Nacional. Apesar das subidas vertiginosas, qualquer uma das referidas forças políticas teve bastante mais tempo para sustentar o seu crescimento. Ao mesmo tempo que beneficiaram de uma erosão muito acentuada dos até então principais atores políticos (p.ex: fruto de escândalos de corrupção). Não teremos, portanto, qualquer uma destas novas formações a disputar a hegemonia eleitoral com os dois partidos que têm sempre exercido o poder em Portugal: PS e PSD. 

A capacidade de mudança destes novos atores far-se-á de maneira diferente. As sondagens mostram que, para já, nem o PS, nem o PSD/CDS conseguem alcançar a maioria absoluta. Por outro lado, indicam que formações como o PDR ou LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR deverão conseguir alguma expressividade eleitoral e, consequentemente, alguma representatividade parlamentar. Logo veremos o que acontece com o AG!R e com o Nós Cidadãos. Caso as legislativas não originem uma maioria absoluta, a necessidade de entendimentos pós-eleitorais (nomeadamente à esquerda) afirma-se como forte possibilidade. 

Como é evidente, os tempos de mudança envolvem sempre uma série de riscos. No que ao sistema partidário diz respeito, a fragmentação da representação poderá levar a uma maior instabilidade governativa. É um facto. No entanto, se tivermos em conta que são mais do que conhecidos os sinais de saturação do actual sistema, onde a rotatividade no poder apenas significa alternância e não alternativa, e onde as taxas de abstenção espelham bem a satisfação dos cidadãos com a nossa democracia, não será este um tempo de assumir riscos? Não será este um oportuno tempo de mudança? Julgo que o leitor já percebeu muito bem qual a minha opinião a este respeito.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

Regresso ao Futuro

O Governo anuncia que vai extinguir uma Fundação que já toda a gente pensava ter passado à história. Há pelo menos três anos e meio que ouvimos falar desta extinção. É bonito...

O que justifica tanta morosidade? E, já agora, se o programa Magalhães foi ruinoso (foi?) que responsabilidades estão a ser apuradas? É bonito verificar que a comunicação social reproduziu ontem esta informação sem uma linha de pensamento crítico...

domingo, 15 de março de 2015

Angola são os negócios. O resto são detalhes


Sou só eu que acho inacreditável que tenham morrido mais de 70 pessoas nas cheias em Angola e a nossa comunicação social notície isso depois da nossa politiquice caseira, da bola e sei lá mais o quê? Um qualquer rumor de aquisição de mais uma empresa portuguesa pela Isabel dos Santos teria dez vezes mais destaque...

quinta-feira, 12 de março de 2015

Idiotices


O que hoje foi aprovado em Conselho de Ministros sobre a criação de um base de dados de pedófilos é de uma cretinice nauseabunda. Não tenho aqui de fazer disclaimers sobre o quão hediondo é o crime de pedofilia. Nem sobre o risco que este tipo de criminosos/doentes/desiquilibrados podem representar para o meio onde estão inseridos, nomeadamente para os mais novos.

Mas era capaz de enumerar aqui várias mãos cheias de crimes hediondos e consequentemente o risco de quem os cometeu para o meio envolvente. Porque não avançamos já para a criação de mãos cheias de bases de dados sobre este tipo de criminosos?

Pois... É que num Estado de Direito e numa Democracia, a Justiça tem de acreditar na reabilitação dos infratores. Tem de assumir que as penas visam, entre outros objetivos, reabilitar o individuo de modo a devolver-lhe a sua liberdade e o seu direito à integração social. 


terça-feira, 3 de março de 2015

O teu partido é mais podre do que o meu


Quando vi o PS a atirar pedras a Passos a propósito da dívida à Segurança Social, achei curiosa tal atitude vinda de quem tem um ex-líder preso preventivamente por graves suspeitas de corrupção. A reação de Passos veio hoje, com o argumento de que não é Sócrates e de que não enriqueceu com a política.

Seria interessante que entrássemos agora num pingue-pongue de "o teu partido é mais podre do que o meu". O PS lembraria Relvas e o PSD ripostaria com Armando Vara. O PS contra-atacaria com Dias Loureiro e o PSD responderia com Jorge Coelho. Era bonito. 

No entanto, não interessa a qualquer das partes entrar nesta "destruição mútua garantida". Ambos têm grandes telhados de vidros. Importa ameaçar, mas não concretizar.

"Não deitemos tudo a perder!"


Depois de termos passado vários anos com a narrativa do “vivemos acima das nossas possibilidades”, uma versão atualizada parece já ter chegado: “não deitemos tudo a perder!”. A ideia é bastante simples: depois de termos comido o pão que o diabo amassou, com níveis de desemprego recorde, com cortes dolorosos nos mais diversos sectores, com perda de poder de compra em todas as frentes, importa continuar a ser um bom aluno para não sermos castigados pelos mercados. Agora que até já nos estamos a financiar com juros razoáveis, mantenhamos a devida distância dos gregos para que os mercados não mudem de ideia a nosso respeito.

As narrativas são sempre redutoras, é um facto. Mas constituem uma óptima muleta na veiculação de qualquer mensagem política. Neste sentido, o discurso dominante sustenta-se sempre uma boa narrativa. No caso do “vivemos acima das nossas possibilidades”, a mesma foi desmontada vezes sem conta pela oposição, por especialistas, por fontes insuspeitas a nível internacional, mas ela ainda hoje subsiste em cada conversa de café, em qualquer argumentação de circunstância. Conseguiu-se que a maioria dos cidadãos interiorizasse que os nossos problemas se deviam aos gastos supérfluos das famílias, ao mesmo tempo que o Estado acumulava gorduras e ineficiências. A crise surgiu como um castigo inevitável e a austeridade como a penitência incontornável.

No momento actual, uma vez que os parceiros europeus até elogiam os nossos sacrifícios, os indicadores até dizem que o desemprego já teve pior e as taxas de juro nos mercados das dívidas até estão a descer, PSD e CDS fazem-nos crer que o pior já passou. Que já cumprimos a parte mais penosa da penitência e que chegou o momento de começarmos a pensar em desapertar um bocadinho o cinto. Devagarinho e com ponderação. Sempre cientes que devemos fazê-lo com muito cuidado para não irritarmos novamente os mercados. Porque se o fizermos, deitaremos tudo a perder. Tudo terá sido em vão.

Tratando-se de uma narrativa poderosa, que aproveita de forma inteligente a natural vontade que os Portugueses têm em virar a página e olhar para a frente, ela é profundamente inconsistente. Continua a assumir que não existia qualquer outra alternativa possível. Que só com os sacrifícios feitos conseguiríamos avançar com as necessárias reformas que garantirão um crescimento sustentado da nossa economia. Assume que o país apresenta hoje menores debilidades do que tínhamos anteriormente e que os juros baixos nos mercados da dívida reflectem esse reconhecimento.

Ora, é preciso ser-se muito optimista para considerar que foi feita qualquer reforma profunda em Portugal que garanta agora um crescimento sustentável. As poupanças foram feitas sobretudo através de cortes cegos na despesa e com aumentos na receita através de impostos adicionais. E, não menos importante, Portugal beneficia hoje de taxas de juro menores à semelhança do que está acontecer com toda a Europa. É um fenómeno sobretudo exógeno à economia e está muito pouco relacionado com o desempenho nacional. Neste sentido, se a mesma confluência de factores que nos levou à crise ocorresse, não temos razões para achar que o país estaria melhor preparado. Até porque a sua dívida pública é hoje bastante maior. 

De qualquer modo, fica feito o aviso à navegação: a narrativa do “não deitemos tudo a perder” está ai para ficar. Estará presente em todo o debate para as eleições legislativas de Outubro e povoará qualquer conversa de café que tenhamos. Importa, por isso, que a oposição consiga combatê-la afincadamente. Por oposição ao “não deitemos tudo a perder”, importa mobilizar o “valeu a pena?”, ou o “estamos melhor preparados?”. Melhor ainda, importa mobilizar o “é este o país que queremos?”.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Torcer pela Queda dum Anjo


Não deixa de ser espantoso constatar a grande aliança que se formou para torcer pela falhanço do Governo Grego. Desde os pares europeus à comunicação social, que se esforça por encontrar uma brecha que consiga explorar (nem que seja o cachecol). Da direita que convictamente defende a austeridade ao centro esquerda que se sente incomodado com a coragem grega. 

Importa torcer efusivamente pela queda dum anjo. Porque se não cair, é sinal de que muita gente andava enganada, muita gente andava acobardada. O anjo tem de cair, meus caros, dê por onde der.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Deus deve ser do Benfica


Depois de estar a perder e em dificuldades, uma simulação para penálti (que não deu direito a amarelo) gerou um canto que não existiu. Surge aí o empate do Benfica. Dois minutos depois, um jogador do Moreirense leva vemelho direto por "elogios" ao árbitro. Devem ter sido "mega elogios" para darem direito a um vermelho direto... E é então que o campeão surge em toda a força. Mete o segundo com um frango do guarda-redes do Moreirense  e acaba por ganhar o jogo por 3-1. 

Jesus é do Benfica. Deus também deve ser.

Edição 100 do Le Monde Diplomatique


Os tempos atuais de excesso de informação são também tempos de diminuição do trabalho jornalístico. O que nos chega dos media mainstream parece cada vez mais repetitivo, gerando menos pensamento e menor capacidade crítica. No panorama nacional, o Le Monde Diplomatique é uma autêntica precisiosidade, Uma publicação que se lê de fio a pavio, com artigos de fundo geradores de pensamento crítico. Uma lufada de ar fresco.

Assegurado pela Cooperativa Outro Modo, comemora agora a sua 100ª edição, num contexto em que a sustentabilidade destes projetos é, no mínimo, desafiante. Para que venham mais 100, 200 ou 1000 edições, importa consumir e devorar o Le Monde Diplomatique. Importa comprá-lo. E, melhor ainda, importa assiná-lo, garantindo assim a sustentabilidade deste projeto. Faço-o aqui.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Eu aproveitava e demitia-o já

Sem remorsos porque Marques Guedes não sentiria a sua dignidade a ser beliscada.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

"Melhor prova" é a tua tia, pá!


elogios que só podem ser interpretados como ofensa... Depois de termos batido todos os recordes de desemprego, da imigração ter ultrapassado o que se viveu nos anos 60, da perda de poder de compra dos Portugueses ter sido vertiginosa, do Estado Social ter recuado de forma dramática, dos serviços públicos encerrarem no interior do país... Depois de tudo ter sido conseguido à custa de cortes cegos na despesa do Estado e de aumento cego e primário da receita, ainda estando os Portugueses a aguardar as supostas reformas estruturais... Enfim, há elogios que deviam ser mandados para bem longe.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Nada Porreiro, pá


O José tem um amigo generoso, chamado Carlos, que lhe faz uns empréstimos simpáticos para o ajudar com uns problemas de liquidez. Umas centenas de milhares de euros em poucos anos. Coisa pouca, portanto. Não o faz através de transferências bancárias. Fá-lo em grande parte através de envelopes com dinheiro vivo. O José e o Carlos não se referem a este dinheiro nas suas conversas. Chamam-lhe fotocópias, livros, “aquilo”. Para ajudar a empresa do Carlos, o José utiliza uns contactos ao mais alto nível para abrir portas em Angola. Pequenas atenções, portanto. E estranhe-se quem passar que se trata de algum tipo de retribuição. Nada disso. Por acaso, a empresa do Carlos cresceu de forma formidável durante os anos em que o José foi primeiro-ministro. E não faltam testemunhos do mundo empresarial a dizer que a referida empresa se gabava da proximidade ao José. Mas tudo não passam de más-línguas e puras coincidências.

Como é evidente, a caricatura acima baseia-se apenas no que tem vindo a público através da imprensa. Falhas no segredo de justiça, notícias que surgem subitamente sabe-se lá de onde. Mas que, aos poucos, vão apertando cada vez mais o cerco a José Sócrates. O que antes parecia um caso perfeitamente nebuloso, em que ninguém conseguia ligar peça com peça, começa agora a ganhar forma. 

É certo que entre o que se escreve na imprensa e a realidade vai uma enorme distância. E é até legítimo achar-se que se trata de uma tremenda operação para tramar José Sócrates. O lamaçal instalou-se de tal modo que o mais inocente dos inocentes seria rapidamente envolvido pelo mesmo, é um facto. Mas é também claro que o que antes era considerada pura ficção, deixou de o ser para a própria defesa de José Sócrates. E quem viu a entrevista da semana passada de João Araújo na RTP, percebeu que a forma de rebater as acusações diversas que vão chegando bateu no fundo. Passou a argumentar-se que receber empréstimos de centenas de milhares de euros é algo do foro privado de José Sócrates, que não é crime transferir em dinheiro vivo tais quantias e considerou-se que falar em código ao telefone é uma legítima defesa da privacidade.

Independentemente de ser crime ou não, e de continuar a ser perfeitamente defensável considerar-se que José Sócrates não devia estar preso preventivamente, qualquer um dos detalhes que deixou de ser negado pela defesa são graves para um ex-Primeiro-Ministro. Politicamente, são inadmissíveis. Um ex-Chefe de Governo que se envolve em esquemas de envelopes com dinheiro vivo e supostos empréstimos milionários de amigos, até pode não ser considerado um criminoso. Mas não restam dúvidas que tem um sério problema de transparência e de verticalidade na sua conduta. Para um ex-Primeiro-Ministro, não basta ser incorruptível, importa não deixar quaisquer dúvidas a este respeito. 

Cada novo detalhe deste caso que transpira cá para fora gera grande desconforto em todo o ecossistema que naturalmente existe em torno de um governante tão emblemático como Sócrates. Os seus Ministros e Secretários de Estados, os seus assessores e amigos políticos, os seus camaradas, os seus apoiantes. É todo um edifício que está neste momento a ser fortemente abalado. E os abalos fazem-se sentir com ainda maior intensidade uma vez que o PS é dirigido por uma linha que se afirmou precisamente como orgulhosa herdeira do consulado de José Sócrates. É natural que se separe o partido do seu antigo líder. As devidas distâncias têm de existir e devem ser respeitadas. Mas estranho seria que este mesmo partido não sinta as consequências do que está a acontecer. É a integridade do seu último grande líder que está seriamente posta em causa. Não podemos todos fingir que isto não está a acontecer. Não podemos todos fingir que José Sócrates não tem nada a ver com o PS.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Viriato Soromenho Marques na Convenção Cidadã Tempo de Avançar


A intervenção de Viriato Soromenho-Marques marcou a Convenção Cidadã da semana passada. Vale mesmo a pena perder uns minutos a ouvi-la.

O que move os peregrinos de Évora?


As notícias continuam a ser cada vez mais comprometedoras para Sócrates. E as suas entrevistas não têm ajudado a aliviar. A empresa do amigo que floresce durante os seus mandatos, o amigo que empresta a casa de luxo e centenas de milhares de euros, os gestos de simpatia para com o Grupo do amigo...

Parece-me quase certo que Sócrates não devia estar preso preventivamente. É também perfeitamente possível que Sócrates não tenha cometido nenhum dos crimes de que é suspeito. De qualquer modo, uma série de episódios já assumidos por Sócrates são vergonhosos e politicamente inadmissíveis para um ex-primeiro-ministro. 

A maioria dos peregrinos de Évora acharão sempre que está em curso uma cabala contra um dos seus. Mas parece-me claro que alguns abraçam a peregrinação porque sabem que, dê por onde der, Sócrates não pode cair. Porque se assim acontecer, não tombará sozinho.

Soares



Dir-me-ão que não se pode calar um animal político como Soares. Que tentar acalmá-lo, apelar a uma maior serenidade nas suas intervenções, seria privá-lo do que mais força lhe dá nesta vida. Percebo. Mas, sendo o mais honesto possível, julgo que se estão a ultrapassar de forma lamentável (para o próprio) alguns limites. 

D. Duarte é um grande amigo da causa Republicana


Devemos a este senhor, e à sua profunda imbecilidade, o facto da Monarquia não conseguir ser hoje levada a sério em Portugal.  O seu mais recente contributo para o republicanismo assenta na sua assinatura de um manifesto ao Papa Frascisco para que afaste da igreja os recasados e os gays (?!). Obrigado, D. Duarte, por seres como és. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Varoufakis Pop Star


O Ministro das Finanças Grego é a pop star do momento na política internacional, já sabíamos. E o Observador  não brinca em serviço. Fiquei a saber que poderei comprar uma camisa semelhante à de Varoufakis por 29, 95 € na Zara. Comentários para quê?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Revenge Porn


A revenge porn é algo que parece acontecer com cada vez maior frequência. Vale a pena ver o video.

Mudança ou Mudançazinha?


Subitamente, parece que os ventos de mudança começaram a atingir a Europa de forma minimamente séria. A vitória do Syriza e os primeiros dias do novo Governo Grego vieram demonstrar que existem posturas que não passam pela submissão a troikas e que existem caminhos que não passam pela austeridade. Encontrando-se numa situação de calamidade social, os gregos reagiram decidindo apostar um caminho alternativo. E não são os únicos que parecem dispostos a fazê-lo. Já aqui ao lado, em Espanha, o Podemos poderá também ter oportunidade de demonstrar que um outro caminho é possível. E os ventos de mudança não se ficam por aí. Na Irlanda, por exemplo, o Sinn Féin tem vindo a ver a subir na sua popularidade. E nos mais diversos países europeus, o establishment começa olhar em volta e a tentar identificar de onde vem “o perigo”.

Como é evidente, os processos de mudança em curso estão longe de ser um mar de rosas. Enfrentam inúmeras resistências, lidam com expectativas elevadíssimas. A probabilidade de sucesso dos mesmos é limitada, pois são inúmeras as pedras que têm no seu caminho. A mudança sempre se fez correndo inúmeros riscos. E os primeiros dias de governação de Tsipras na Grécia demonstram isso mesmo. Optou por formar governo com um parceiro de coligação muito pouco ortodoxo, assumiu a renegociação da dívida como prioridade e viu a bolsa grega afundar-se, enfrentou de frente a União Europeia e viu de imediato seu país a ficar isolado no panorama europeu. Em suma, assumiu inúmeros riscos. E ninguém neste momento pode garantir se os gregos serão bem-sucedidos ou não nesta sua impertinência de querer mudar. De qualquer modo, uma coisa já conseguiram: não deixar ninguém indiferente.

Os casos grego e espanhol demonstram-nos também que a emergência destes novos partidos e movimentos faz-se colocando em causa sistema partidário até então vigente. Syriza e Podemos afirmam-se em prejuízo dos partidos que até agora dominaram o panorama político dos respectivos países. No caso grego, a vitória do partido de Tsipras implicou um desaparecimento eleitoral do PASOK. Em Espanha, o PSOE e o PP estão a ver a sua hegemonia ser posta em causa por uma terceira força política. O bipartidarismo que há décadas domina os dois países foi colocado em cheque. Podemos ver neste panorama um risco tremendo, uma vez que estamos a por em causa o sistema que bem ou mal trouxe os seus países até ao presente com paz e alguma prosperidade. Ou podemos ver uma oportunidade, possibilitando a reconfiguração de sistemas partidários esgotados, em que partidos muito semelhantes ou indistintos se alternam no poder, com o progressivo alheamento dos cidadãos

O momento que vivemos actualmente obriga-nos a não ter ilusões de que se queremos a mudança, riscos têm de ser assumidos. Porque a mudança assim o exige. De outro modo, não seria em si mesmo uma mudança, mas sim uma mudançazinha. No fundo, uma abordagem reformista calminha e cautelosa que procuraria mudar alguma coisa, mas garantindo que uma série de jarras e porcelanas não se partem. Neste sentido, para que cada um de nós saiba exactamente o que defende, se calhar deve perguntar-se a si mesmo se prefere uma mudança ou uma mudançazinha.

Embora o cenário em Portugal seja evidentemente muito diferente dos casos grego e espanhol, naturais lições devem ser tiradas do que se está a passar nestes países. Teremos eleições legislativas no final do ano, obrigando-nos a decidir se queremos que algo mude verdadeiramente, como não tem mudado nestes últimos 40 anos de democracia ou, pelo contrário, preferimos uma mudançazinha nos moldes como esta sempre tem ocorrido, com a simples mudança dos protagonistas políticos e com a alternância do partido no poder. 

Julgo que estou em condições de poupar os leitores deste texto sobre qual acho que é, neste momento, a melhor opção.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental