sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Crise vista por Totós

Começo por dizer que não sou economista e os conhecimentos que tenho sobre tal ciência são limitados. As minhas opiniões acerca de questões económicas revelam, portanto, a profundidade e limitações que podem ser esperadas de um leigo. Mas se calhar, em momentos de autêntico turbilhão, arriscaria dizer que a simplicidade da análise leiga pode lançar algumas luzes interessantes sobre o que se está a passar. Derrubar complexidades de forma simplória pode ajudar a devolver alguma sanidade ao que à partida parece inatingível.

Posto isto, feita esta ressalva, façamos então o esforço de analisar com os olhos de leigo (os meus, neste caso) o que se passou esta semana. Comecemos por um enquadramento. Há pouco mais de um ano atrás, assistimos à implosão de uma gigantesca crise. A crise de uma vida, como alguns desde logo sublinharam. Rogaram-se então pragas em uníssono contra o sistema financeiro internacional vigente, os perigos dos mercados desregulados e a opressiva ditadura da especulação sem fronteiras. Os líderes mais improváveis juraram reformar as leis do sistema vigente, apostando na regulação e tentando assim devolver alguma segurança (e um pouco de racionalidade, já agora) às lógicas dos mercados internacionais.

Mas eis que, pouco tempo depois, tudo parece ter sido esquecido. Uma onda de amnésia varreu com certeza as mentes dos líderes mundiais. O sistema continua a funcionar em todo o seu esplendor e (vejam lá que chatice...) Portugal foi agora apanhado bem no meio de uma tempestade. Que azar o nosso... Tempestade esta que, curiosamente, não foi motivada por uma falência de uma qualquer empresa portuguesa, por uma diminuição abrupta do consumo ou por uma qualquer falsificação dos números da economia nacional. Aconteceu sim porque os mercados andam nervosos. Andam inquietos, coitados, procurando aconselhamento nos mesmos consultórios - agências de rating - que deixaram a economia mundial em pantanas há um ano e meio atrás. Depois do ataque especulativo aos títulos da dívida Grega, foram aconselhados a descarregar o seu stress em Portugal.

É fantástica a (falta de) racionalidade do que se está a passar. É formidável verificar como economias inteiras podem tombar à custa de nervosismos e inquietações de uma espécie de ente supremo (que consta ter mãos invisíveis) conhecido como O Mercado. E é ainda mais interessante verificar como os adoradores d'O Mercado justificam os danos por Ele provocados como um expectável castigo divino e purificador contra quem ousou duvidar do caminho para a felicidade que Ele oferece. Só sobrevivem aqueles que não pecaram, que levaram uma vida segundo os ensinamentos sagrados. É muito à frente, sem dúvida.

Mas o desafio último será, portanto, explicar este filme de série B ao cidadão comum. Não só aquele que percebe pouco de economia, mas aquele que vê a austeridade não através da televisão ou jornais mas da sua carteira. Explicar que tudo isto se passa porque os mercados andam nervosos e ansiosos. Se eu der esta explicação à minha vizinha do 2º esquerdo (pessoa já de idade), ela certamente aconselhará um cházinho de tília e uma boa noite de sono para esses Srs. Mercados. No caso do meu vizinho do 1º andar, homem simples e prático, a resposta é capaz de ser um pouco diferente: "Morgados? Quem são esses Morgados? Devem ser uns grandes filhos da mãe... E ninguém lhes limpa o sebo, caramba?". A simplicidade costuma revelar grande sabedoria.
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Artigo publicado hoje no Esquerda.net

É já amanhã

A parada Mayday Lisboa 2010 tem encontro marcado às 13h no Largo Camões com muita animação, seguindo depois pelo Chiado até ao Martim Moniz, onde se juntará à manifestação do Dia do Trabalhador, organizada pela CGTP. Mais informação em www.maydaylisboa.net

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Perder a vergonha

No dia do violento ataque especulativo, Sócrates e Passos Coelho chegaram a um entendimento para avançar desde já com algumas medidas do PEC. “Uma resposta pronta de confiança e tranquilidade aos mercados”, como sublinhou o primeiro-ministro. Pensávamos nós que iríamos encontrar medidas como o congelamento de grandes obras públicas, cortes nas regalias dos cargos políticos ou na alta administração pública, entre outras do género. No fundo, começar-se-ia por cima, pensando nós que dar o exemplo era o mínimo que podia ser feito para disfarçar um pouco a quem serão pedidos os grandes sacrifícios.

Mas não. Qual disfarçar qual quê? As três medidas ontem anunciadas pelo tão aplaudido acordo entre os dois maiores partidos foram todas centradas na poupança em domínios sociais: 1) diminuição do tecto máximo do subsídio de desemprego, 2) auditorias e fiscalizações às prestações sociais e 3) maior controlo no pagamento de prestações sociais. Perdeu-se a vergonha. O CDS, coitado, ficou de repente sem nada para propor...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Nas mãos do mercado

É impressionante como uma economia pode tombar devido aos nervosismos e inquietações do mercado. Poucos meses depois de uma crise gigantesca em que os governos juraram a pés juntos a sua intenção de regular o sistema financeiro internacional, ei-lo em todo o seu esplendor, com Portugal no meio da carnificina.
(Imagem: Dai Katsurou)

terça-feira, 27 de abril de 2010

O Sistema que temos

A interdependência das economias é hoje um facto difícil de questionar. Como qualquer interdependência, acarreta fragilidades. Uma falência em Seul pode originar despedimentos e uma crise social numa qualquer cidade do outro lado do mundo. Apesar de tudo, nesta interdependência baseada em economia real, assente em produtos ou serviços, até conseguimos encontrar alguma racionalidade.

O mesmo não podemos dizer sobre uma interdependência vulnerável a movimentos financeiros especulativos como o que agora se está a sentir em Portugal. Nada de substancial em termos económicos se passou no país nas últimas semanas. A economia não crashou, o sector produtivo não implodiu, os serviços não pararam. Mas como os mercados andam nervosos e somos um alvo fácil, estamos a ser apanhados e vamos pagar caro por isso.

É curioso que tudo isto se esteja a passar pouco depois da gigantesca crise em que o mundo jurou a pés juntos que sérias reformas seriam empreendidas com vista a regular o sistema financeiro internacional...
(Imagem: CF Jovem)

A (falta de) coesão da UE

A forma como Berlim se tem comportado relativamente à disponibilização de ajuda financeira à Grécia colocou a nu a fragilidade da coesão política europeia. Num momento em que se exigia unidade e pragmatismo no apoio aos gregos, Merkel demonstrou que mesmo o gigante alemão não hesita em momentos de cálculo eleitoralista. É lamentável que assim aconteça.
(Imagem: Euro Alter)

A brilhante solução da CIP

"Os patrões vão propor ao Governo medidas que na prática podem traduzir-se em cortes no subsídio de desemprego. A CIP quer ainda acabar com o limite mínimo deste apoio." (TSF, 27/04/2010) No fundo, há que por a mexer essa cambada de preguiçosos que são os desempregados. Não tarda nada e serão os malandros dos desempregados os grandes culpados da crise. Comentários para quê?

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Embalsamemos Abril?

Defendo naturalmente que a Constituição e os ideais de Abril não sejam propriedade de qualquer grupo ou tendência politica. Se Abril é liberdade, igualdade e democracia, não tem de ser algo exclusivo da esquerda política, que isto fique claro. Mas fazer uma jura de amor a Abril para então recomendar que o seu legado seja embalsamado e colocado num museu é, no mínimo, original. Aguiar Branco teve piada, teve.
(Imagem: SIC)

domingo, 25 de abril de 2010

Abril não é uma recordação

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E de ano para ano, o desfile lá vai acontecendo com muitos milhares a descerem a Avenida da Liberdade para comemorar (e continuar) Abril. O ideal seria que se conseguisse inovar cada vez mais nesta comemorações, cativando cada vez mais gente a participar. Mas constatar que um evento deste tipo está longe de esmorecer e que muitas novas gerações e grupos já o adoptaram como seu é uma demonstração de que, 36 anos depois, Abril não é uma recordação. O video acima que retrata a participação de hoje da Casa do Brasil é ilustrativo a este respeito.

Abril é Democracia

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Um bom dia da liberdade para todos os que por aqui passam.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

E porque hoje é sexta-feira

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Harlem - Friendly Ghost
Via Blog Radar

Ficar muito mal na fotografia

No meio de tudo o que se está a apurar nos casos Face Oculta/PT-TVI/Figo-Taguspark, a suspeita de envolvimento de algumas figuras dos socialistas é dramática, é um facto. Mas assumem igual ou maior gravidade os obstáculos que têm sido colocados pelo partido ao esclarecimento dos factos. Ou seja, em vez de se comportar como imediato interessado no esclarecimento de tudo, livrando-se assim de suspeitas de maior, os socialistas assumem a postura de tentar bloquear quaisquer desenvolvimentos neste sentido.

As audições na Comissão de Ética e a Comissão de Inquérito têm reflectido tal postura de forma dramática. Nem será preciso recordar os obstáculos que os socialistas desde o inicio vêm colocando. Repare-se, por exemplo, no que ontem se passou. Para quem ouviu em directo os acontecimentos, mal Rui Pedro Soares terminou de falar, ainda a Comissão nem tinha compreendido bem que o administrador da PT estava a recusar-se a responder a qualquer pergunta, já Ricardo Rodrigues vinha em sua defesa, considerando a sua posição mais do que legítima. Comentários para quê?
(Imagem: In Session)

Um caso de estudo

Imaginem alguém que em Abril/Maio do ano passado manifestou-se próximo das ideias do Bloco, no Verão e até ao fim do ano era um dos mais ferrenhos socialistas no Simplex, no princípio do ano assume em praça pública que se desiludiu com o PS e ontem ficámos a saber que integra um conhecido blogue na esfera da direita e que a "pessoa em causa é liberal na economia e conservador nos costumes"(!?!). Atenção que tudo isto se passou no espaço de 1 ano. Infelizmente, os seus blogues (Valor das Ideias e Regra do Jogo), a sua conta no twitter e os seus posts no Simplex desapareceram misteriosamente… Carlos Santos, professor de economia da Universidade Católica do Porto é, sem dúvida, um caso de estudo.
(Imagem: Blog INESC)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Estamos sempre a aprender

Evo Morales afirmou ontem que a homossexualidade na Europa e no Mundo explica-se pelo consumo excessivo de frangos geneticamente modificados. Quem diria, não é? Como é que nunca ninguém tinha pensado nisto antes? Morales afirmou ainda que a calvice é uma consequência da utilização de recipientes de plástico. Brutal...

Por sua vez, Hojatoleslam Segdighi, um destacado líder religioso iraniano encontrou a explicação para os sucessivos terramotos que nos últimos anos assolaram o pais: "Muitas mulheres que não se vestem de forma modesta, desviam os jovens do caminho justo e espalham o adultério na sociedade, o que faz aumentar os terramotos ". Descoberta revolucionária, sem dúvida... Como açoriano que cresceu com alguns abalos de terra, sinto-me desolado por tal explicação nunca me ter ocorrido. Bolas...
(Imagem: The Optimist)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Sobre as viagens de Inês de Medeiros

A Assembleia já decidiu pagar as viagens de Inês de Medeiros a Paris. Voos semanais e ajudas de custo. E se calhar não existia mesmo alternativa dado que o regimento não previa este tipo de situações (espera-se agora que se consiga prevenir para o futuro). Neste contexto, por mais que custe, o desfecho era previsível e dificilmente contornável.

Mas tal não implica que muita gente não tenha ficado muito mal na fotografia. Ficaram mal todos aqueles que tentaram comparar este caso com o pagamento das deslocações aos deputados açorianos e madeirenses (?!?). Ficou mal Inês de Medeiros por ter mostrado que não pensou neste pormenor quando aceitou candidatar-se. E ficou sobretudo mal o PS que assobiou para o lado em todo este processo, tentando disfarçar o incómodo da sua vedeta estar a sair cara ao Parlamento.
(Imagem: Run on eMotion)

Não descartem os CTT

Foram já diversas as vagas de privatizações nas mais de três décadas de democracia portuguesa. Depois de um período em que o Estado chamou a si a intervenção nos mais diversos sectores económicos, assistiu-se nos últimos anos a um progressivo recuo. Embora tal se tenha verificado de forma praticamente ininterrupta, é nos períodos de maiores dificuldades económicas que uma maior pressão é feita neste sentido. As privatizações surgem então como solução apressada dos Governos para a obtenção de receitas extraordinárias. O Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), tão na ordem do dia, é um exemplo paradigmático a este respeito. O documento aponta o objectivo de privatização de uma série de empresas públicas ou com participação do estatal. Dos CTT à REN, passando pela TAP, ANA, CP e EDP, o Estado aparece agora muito disposto a abrir mão de tais empresas.

Esmiucemos então o caso emblemático dos CTT, que possui contornos chocantes. Importa referir em primeiro lugar que se trata uma empresa pública que dá lucro. Ou seja, constitui uma fonte de receita para o Estado. Não pode, portanto, ser acusada de contribuir para défice. No momento actual, aponta-se a sua privatização para se poder amortizar os juros da dívida pública. Mas o normal funcionamento da empresa garante lucros que em poucos anos superam o valor que o Estado receberá agora pela sua privatização. Enfim… Há racionalidades intrigantes nestes negócios que certamente escapam ao comum dos mortais.

Mas, para lá da questão da rentabilidade, os CTT desenvolvem um serviço estratégico de inegável interesse público de norte a sul do país, no continente e ilhas. Da entrega de correspondência ao pagamento das pensões, à possibilidade de serem pagas as contas da água e da luz, de carregar o telemóvel, entre muitos outros serviços, os CTT prestam um conjunto de serviços importantes, nomeadamente junto dos sectores mais idosos da população. Os mais de 1000 balcões constituem um invejável instrumento de coesão territorial que chega aos locais mais remotos do país. Foram os imperativos de serviço público que levaram à criação de tal rede, subjugando naturalmente a questão da rentabilidade às necessidades efectivas das populações.

Colocando-se agora um cenário de privatização, alguém acredita que a rede dos CTT se manteria intacta? Muitas estações não resistirão aos imperativos de rentabilidade, sobretudo as que se encontram em pequenas localidades, distantes dos grandes centros urbanos. A tentação de as encerrar acontecerá com certeza. Eis um exemplo de como a prossecução do interesse público por entidades privadas possui naturais limitações. Alguns argumentarão que tal tentação não se colocaria porque o modelo de privatização passaria por o Estado suportar os custos de tais serviços não rentáveis. Mas, admitindo tal estratégia, estaríamos então a privatizar os lucros e a nacionalizar os prejuízos, um negócio com uma racionalidade no mínimo duvidosa.

Sobretudo pelas razões acima referidas – prestação de um inegável serviço público que ainda por cima é uma fonte de receita do Estado – a privatização dos CTT é uma medida que merece, no mínimo, ser seriamente questionada. Uma iniciativa corre já pela Internet neste sentido – www.correiopublico.net. Procurará nos próximos tempos mobilizar a opinião pública, através de acções no mundo real e no mundo virtual, contra tal privatização. Uma vez que me encontro envolvido na organização da mesma, lanço o convite a todos os interessados para aderirem. Porque não faz sentido descartar os CTT, pois não?

Artigo publicado ontem no Açoriano Oriental

terça-feira, 20 de abril de 2010

Está-se realmente a poupar?

Diz o Público que o “Estado recorre cada vez mais ao trabalho temporário para superar a falta de pessoal”. E pelo que indicia a notícia, os dados parecem ter por base as contratações através de empresas de trabalho temporário e o número de avenças na administração central. Mas, como é mais do que sabido, os modelos acima são apenas uma das formas de contornar as restrições na contratação de pessoal.

Se a isto adicionarmos os contratos de prestação de serviços quer através de recibos verdes, quer para empresas constituídas por uma única pessoa, assim como as consultorias de diverso tipo (jurídicas, tecnológicas, etc), ficámos com a certeza que a dimensão do fenómeno é bem mais complicada de calcular. Será que as presentes restrições na contratação estão mesmo a induzir a poupanças no Estado? O Estado pode estar a emagrecer, mas será que está efectivamente a poupar? Era interessante existirem provas empíricas de tal facto. Estudos sérios a este respeito, uma vez que actualmente parece que ninguém o consegue demonstrar com clareza.
(Imagem: M de Mulher)

A Cartada

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Video da iniciativa "Cartada contra a Privatização dos CTT"
Mais info em www.correiopublico.net/

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Vá lá... Começa a fazer-se luz

«O Ministério Público interpôs uma ação junto do Tribunal Administrativo e Fiscal de Lisboa onde requer a anulação e a nulidade do aditamento ao contrato de concessão celebrado em outubro de 2008", refere uma declaração oficial da APL enviada hoje à agência Lusa.» (i, 19/04/2010)
(Imagem: O Charquinho)

A Democracia Engripada

Inicia-se hoje a Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso PT/TVI. E é possível que o caso Figo/Taguspark seja também chamado a esta comissão dado que o Parque Tecnológico ponderou adquirir uma posição maioritária na Média Capital. A verticalidade do primeiro-ministro está mais do que afectada, mas já não há quem consigaacompanhar o ritmo de tantos episódios, tantos enredos e tantas personagens de tantas novelas em simultâneo.

No meio desta imensidão de casos, a maioria dos cidadãos há muito optou por um compreensível alheamento. Estão cansados de tanto caso político e, apesar dos graves indícios que circundam o primeiro-ministro, a maioria não está com grande vontade de reagir. Está cansada, preferindo desligar-se de tanta confusão. A saúde da democracia está evidentemente a ressentir-se. A democracia está, por assim dizer, “engripada”.
(Imagem: Coelho Tuga)