quarta-feira, 19 de março de 2014

Um Abraço, Professor


Há pessoas que pertencem ao grupo dos gigantes. Não são naturalmente muitos, mas alguns poucos conseguem assumir esse estatuto no nosso quadro de referência. E o que faz deles gigantes é precisamente o facto do seu brilhantismo ser acompanhado de uma magnifica acessibilidade. O Medeiros Ferreira é para mim desses gigantes. Digo-o sinceramente e sem qualquer tipo de exagero. E é também por isso que a notícia da sua partida deixa-me com um natural vazio.

O Medeiros Ferreira foi meu professor na FCSH-UNL. Era aquele conterrâneo brilhante lá da Faculdade, com quem no fim das aulas, de vez em quando, trocava uma ou outra cumplicidade sobre a política nacional e sobre a política açoriana. Mais tarde, foi meu co-orientador na tese de mestrado. Aí sim tive oportunidade de conviver com ele mais de perto, discutindo temas "nada interessantes" como o final do Estado Novo, o 25 de Abril, a forma como se estruturou o sistema partidário português e o seu reflexo nos Açores. Sem grande esforço, mas longe de qualquer petulância ou paternalismo, a assertividade dos seus comentários e sugestões representavam aquele toque que todo o mestrando precisa para melhor orientar a sua investigação.

Mais tarde, quando me candidatei a doutoramento, Medeiros Ferreira veio claro novamente a bordo.  Era incansável a este respeito. E tremendamente acessível. Guardo preciosamente na memória as vezes que o encontrei no Princípe Real para discutir temas de tese, problemáticas a desenvolver, etc. 

Mais tarde ainda, nas andanças blogosféricas, trocamos um vez ou outra ideias sobre temas diversos. Acompanhá-lo no Bicho Carpinteiro e, mais tarde, no Córtex Frontal era obrigatório. Sobretudo aprendendo como é possível fazer grandes posts com apenas uma ou duas frases. Era um mestre blogosférico neste sentido. Simplesmente brilhante.

No entanto, para além de todas as experiências vividas com o próprio, nestes momentos de partida salta-nos sempre à vista as qualidades que tornavam alguém grande: Inteligência e lucidez, independência e irreverência, com um sentido de humor apurado e com uma atitude que não escondia o seu gosto pela vida. Um líder, um grande intelectual e académico que fazia política inteligente e que importava ouvir para obter uma visão moderada, mas assumidamente de esquerda sobre o país e o mundo. 

Felizmente, gigantes como Medeiros Ferreira não chegam de facto a partir. Ficam cá, como referência, com obra feita, fazendo escola até... É isso que, nestes momentos, nos serve para colmatar o tal sentimento de vazio.

Um grande abraço, Professor.

terça-feira, 18 de março de 2014

Os Grandes Reestruturadores


O Manifesto dos 70 conseguiu marcar definitivamente os últimos dias. Originou o que se pretende com este tipo de iniciativas: agitar as águas, gerar discussão e, sobretudo, obrigar os vários atores a posicionarem-se sobre um tema fraturante. E, de forma quase maniqueísta, foi sobretudo a esta última dimensão que assistimos na sequência da divulgação pública do documento. A reestruturação da dívida ficou no centro da discussão política, obrigando a uma dissecação dos argumentários a favor e contra este tipo de ação.

Do lado dos que concordam com a reestruturação, os argumentos são claros: as condições impostas são pura e simplesmente impossíveis de concretizar. Portugal teria de ter nos próximos 20 anos um desempenho económico que nenhum país europeu conseguiu ter durante mais do que 2 ou 3 anos. Teriamos de manter níveis de austeridade extremos, lado a lado com taxas de consumo e de crescimento verdadeiramente notáveis, o que se torna quase impossível em termos matemáticos. A reestruturação surge assim como uma atitude de realismo e até de responsabilidade, procurando encontrar condições que permitam, por um lado, tirar o país do caos em que se encontra, ao mesmo tempo que são garantidas as condições para podermos pagar até ao último cêntimo o que lhe foi emprestado.

Do lado dos que se opôem ao manifesto, mais do que debruçarem-se sobre a possibilidade ou impossibilidade de cumprir as condições em vigor, centram-se tipicamente em duas grandes questões. Por um lado, os mais moderados que argumentam com o facto deste não ser o momento mais oportuno para se falar em reestruturação. Tal poderia assustar os nossos credores e os famigerados mercados. Por outro lado, os mais conservadores que sublinham que não se deve falar de reestrturação nem agora nem nunca, uma vez que tal representa uma violação das condições acordadas com os nossos credores.

Curiosamente, as referidas posições mais moderadas ou conservadoras parecem esquecer o que a verdadeira reestruturação das dívidas está já em curso. Não o está relativamente aos credores internacionais, é verdade, mas sim relativamente aos cidadãos portugueses que foram vendo o seu bolso ser constantemente remexido. Numa primeira fase, tentou-se amenizar tais abusos de confiança com o facto de serem supostamente provisórios. Os impostos aumentariam, mas apenas provisóriamente. Os salários e as pensões diminuiriam, mas apenas provisóramente. A austeridade seria uma catástrofe social, mas apenas provisóriamente. Subitamente, num estalar de dedos, o Governo começou a assumir o que há muito se suspeitava, mas que até então era negado a pés juntos. Passos Coelho chega mesmo a irritar-se agora com todos aqueles que presumiram que se tratava de algo provisório.

Esta sim tem sido a verdadeira reestruturação em curso: os cortes nos salários e pensões que se tornaram permanentes, os aumentos de impostos que vieram para ficar, a austeridade que é assumida como novo modelo de desenvolvimento. Os grandes reestruturadores, do Governo e da maioria que o apoia, pelos vistos não estão preocupados com esta violação das condições junto de quem os elegeu, junto de quem tinha direitos adquiridos, junto de quem trabalha e viu subitamente ser-lhe retirada parte do seu rendimento. Os grandes reestruturadores importam-se apenas com os grandes credores, com os contratos com eles firmados e com a reputação de seriedade para lá de Vilar Formoso. 

Se calhar este grandes reestruturadores deviam fazer o seu próprio manifesto, sublinhando (a bem do país, claro) a importância de não serem mantidos os compromissos assumidos com os cidadãos. Isso é que era. Porque não? Fica feito o desafio.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

domingo, 16 de março de 2014

Viva o Sócrates!


O mesmo Sócrates que há três anos chamou a troika e assinou o memorando de entendimento, o mesmo Sócrates que há três anos qualificava qualquer ideia de reestruturação da dívida como um tremendo calote que traria o desemprego e a miséria ao país, foi o Sócrates que hoje fartou-se de elogiar o Manifesto dos 74, dizendo mesmo que o assinaria... Clap clap clap, viva o Sócrates!

Ora aí está o que eu não queria que acontecesse...

Preferia que o Sporting perdesse o jogo com justiça do que o ganhasse com um fora de jogo... A veredito futebolístico da semana será o facto de "uma mão lava a outra" i.e. "o Sporting não tem nada que se queixar"... Se tal sossega todas mentes não-sportinguistas, sobretudo as benfiquistas, seja feito à vossa vontade. :)

sexta-feira, 14 de março de 2014

O Manifesto do Calote... Que Horror

O manifesto pela reestruturação da dívida pública foi, sem dúvida, o acontecimento político da semana. E, como é evidente, o estranho não foi assistirmos a signatários tão diversos em torno de um tema. Convergências e consensos há muitos... O que tornou o manifesto central foi o apelo tão vasto em torno de um tema que há não muito tempo atrás era um autêntico tabu. Num momento em que o Governo nos garante que estamos no bom caminho, eis que surge um manifesto subscrito por personalidades de diversos quadrantes declarando que temos de reestruturar a dívida.

Para quem não se lembra muito bem, a reestruturação da dívida foi uma das principais bandeiras do Bloco em... 2011! Efoi-o precisamente por já na altura ser evidente que não era possível saldar a dívida que o país acumulava. Saldar a dívida com os juros e nos prazos então acordados seria a condenação de quaisquer hipóteses de retoma económica . Embora fosse a única solução realista para evitar um mergulho convicto na catástrofe social, a reestruturação foi desde logo encarada como a solução de uma cambada e radicais marginais que por aí andavam.

A condenação da reestruturação atingiu aliás o seu ponto máximo quando começou a ser apelidada de “calote” aos credores. Um calote que levaria à miséria, a desempregos e a falências. Um caos, portanto. E quem foi um dos grandes autores desta maravilhosa profecia em torno do calote? O nosso literalmente inesquecível José Sócrates. Um dos debates televisivos que precederam as legislativas de 2011 e colocou frente a frente Sócrates e Louçã constitui hoje uma bela peça para reavivar a memória de muitos.

Vemos agora os mais diversos sectores reunirem-se em torno deste tema, considerando-o como a única saída realista perante o cenário que o país vive. Não compensa de facto ter razão antes do tempo... De qualquer modo, independente da maior ou menor seriedade mostrada por alguns em torno deste tema, ainda bem que começam a surgir este tipo de convergências, este tipo de consensos. Não haja dúvidas a este respeito. Em última análise, é sinal de que a mudança está em curso acelerado. O radicalismo de ontem transformou-se agora em pragmatismo. Venham mais convergências deste tipo. Cá estaremos para as receber.

Artigo hoje publicado no Esquerda.net

terça-feira, 4 de março de 2014

Palhaçada

Obrigado, Pedro, por me teres brindado com mais este dia de trabalho. Foi um Carnaval maravilhoso. Foi mais um dia em que me senti um verdadeiro privilegiado, purificado pelo trabalho em nome da produtividade do país. Obrigado, Pedro!

Guiné Equatorial, ninguém leva a mal?

Possivelmente por estarmos no Carnaval, parece que ainda não se refletiu devidamente sobre o que significará a entrada da Guiné Equatorial na CPLP. Não é uma questão nova. Há muito que vinha sendo discutida, embora sempre rodeada de visões que variavam entre o gozo e a caráter incrédulo. Seria possível imaginar há alguns anos atrás que um Estado conhecido como uma das mais antigas ditaduras africanas, sem qualquer tradição de lingua portuguesa, pudesse agora ocupar o papel de país membro da CPLP? Duvido. Mas o que terá acontecido para que essa hipótese nem sequer ponderada esteja agora a concretizar-se?

Antes de mais, não são precisas grandes análises para explicar as conhecidas fragilidades de uma organização como a CPLP. Surge como um esforço meritório, sobretudo Português, de ativar um espaço de cooperação permanente entre um conjunto de países que, pelas raízes históricas comuns conhecidas, possuem uma grande proximidade cultural. E a CPLP tem dado passos importantes na aproximação dos seus membros nas mais diversas vertentes. Seja na saúde, na justiça, na educação e cultura, multiplicam-se as iniciativas de cooperação nestes domínios. No entanto, a ausência de instrumentos financeiros sólidos que permitam melhor materializar a referida cooperação, lado a lado com uma manifesta falta de suporte político, determinam que a CPLP fique muito aquém do seu potencial.

Sublinhadas as fragildades acima, mesmo assim torna-se impercetível a entrada da Guiné Equatorial na organização. Em primeiro lugar, pelo seu lamentável registo ditatorial. É uma das mais antigas ditaduras africanas, onde o Estado de Direito é uma miragem, sendo os julgamentos sumários e as prisões arbitrárias práticas corrente, segundo diversas organizações de defesa dos direitos humanos. É portanto um regime bem distante dos mínimos democráticos exigíveis, mesmo tendo em conta os complexos contextos africanos. Em segundo lugar, não consta que exista qualquer proximidade minimamente relevante da Guiné Equatorial relativamete à língua Portuguesa. Fala-se com certeza mais Português no Luxemburgo, França ou em alguns estados Americanos, do que se fala na Guiné Equatorial.

O que explica então este súbito abrir de braços da CPLP? Apesar de ter um território pequeno (semelhante ao Alentejo) e com poucos habitantes (650 mil), a Guiné Equatorial é o terceiro exportador de petróleo de África. Para além disso, possui também um subsolo rico em gás natural e  outras riquezas. Ou seja, a aceitação da Guiné Equatorial na CPLP é sobretudo encarada como estratégica do ponto de vista económico-financeiro por parte dos restantes países membros.

A diplomacia e o relacionamento entre Estados é recheado deste tipo de hipocrisias institucionais, não valendo a pena ter ilusões a este respeito. Aliás, a entrevista que Rui Machete dá este Domingo ao Público até nos deixa tontos com tanta hipocrisia, tão grande é a desonestidade inteletual  e a falta de coluna vertebral demonstrada pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros.

De qualquer modo, apesar de ser naíve achar-se que este tipo de interesses estratégicos dos Estados poderiam passar ao lado deste tipo de decisão, importa também não nos deixarmos contentar com este tipo de obscurantismo. A integração de um país como a Guiné Equatorial na CPLP representa, em primeiro lugar, uma lamentável ignorância sobre o regime político que vigora no país. Por outro lado, e não menos importante, esta adesão pode  também determinar que a CPLP saia ainda mais describilizada no panorama internacional, não sendo também de descurar o efeito corrosivo interno da referida opção.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

segunda-feira, 3 de março de 2014

Mudam-se os tempos

Quando andava na faculdade, o quiosque de rua era uma instituição. Entre tabaco e jornais, deixava lá uma parte simpática da mesada. A passagem pelo quiosque era um saboroso ritual que se repetia diariamente em busca de alimento para a alma.

Com o abandono do tabaco e a adesão há já uma série de anos às assinaturas digitais de jornais, as idas ao quiosque praticamente desapareceram. Surgiu um vazio grande na minha vida, confesso... :)

Mas eis que, com o crescimento das crias, o quiosque volta a aparecer no mapa dos rituais. Porquê? A culpa é dos cromos! Da caderneta do campeonato de futebol aos nutriventures, as visitas aos quiosques voltaram a ser frequentes. E o impacto no orçamento familiar também voltou. É enternecedor, eu sei. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Alerta Laranja

Do congresso do passado fim-de-semana destacou-se sobretudo a realidade paralela em que vive o partido laranja. O PSD vê um país que ninguém vê, aponta milagres que ninguém vislumbra e lança foguetes sem que ninguém perceba porquê. Um bando de loucos, portanto, que se reuniu no Coliseu. Mas mais do que a insanidade eufórica que por aquelas bandas andou, é sim preocupante a leveza com que puderam assumir publicamente a sua loucura. É sim preocupante o grande à vontade sorridente com que se apresentaram ao país e gritaram vitória. Sem grandes rodeios, sem falsas humildades, e com maior ou menor loucura, todos vimos um PSD triunfante, seguro de si e dos seus feitos no país.

Todo este cenário é alarmante. Quando um Governo assumidamente austeritário se apresenta tão otimista e tão cheio de vitalidade três anos depois de ter iniciado a sua sova ao país, algo vai mal. Com Portugal feito em cacos, com todos os indicadores a demonstrarem que bateu no fundo, sem qualquer reforma estrutural conseguida, assistimos mesmo assim a uma maioria com ar vitorioso e pronta para a batalha que se segue.

E o otimisto é tanto que até se dão ao luxo de cometer erros de casting grosseiros. O regresso de Relvas é um bom exemplo a este respeito. Mesmo sabendo todos os danos que tal opção lhe traria, Passos não teve grandes problemas em assumir perante o país a falta que sentia do seu velho amigo. E se o fez, é porque está certo que tem margem para tal e que o risco compensa.

O congresso do PSD deve fazer soar na oposição um forte alerta laranja. É que apesar das sondagens apontarem para uma derrota da maioria nas Europeias, os números já foram mais tranquilizadores a este respeito. Como é possível que, nas eleições tipicamente mais propensas a votações de protesto, a esquerda consiga a proeza de deixar fugir um excelente resultado?

Podem naturalmente ser encontradas explicações mais estruturais a este respeito. Destaque para a velha e paradoxal tendência dos eleitores votarem tipicamente mais à direita em momentos de crise económica. De qualquer modo, para lá das explicações estruturais ou exógenas, a esquerda, toda a esquerda, pode e deve refletir sobre como é possível não estar a agarrar consistentemente a vaga de descontentamento que varreu o país nos últimos anos. Como é possível que, em última análise, a presente maioria continue tão sorridente?

Artigo publicado na 6f no Esquerda.net

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Tó Zé, seguras-te?


Com o aproximar das Europeias, tem sido interessante acompanhar o cerco que no PS vai sendo feito a António José Seguro. Uma vez que se assume como certa a vitória dos socialistas nas próximas eleições, todos os que nunca estiveram convencidos com a sua liderança elevam naturalmente o patamar do objetivo a atingir em Junho. Já não basta ao PS de Seguro vencer as próximas eleições, será necessário vencer por muitos. O que, trocado por miúdos, equivale a algo como “ou consegues uma vitória brutal, ou então teremos todas as razões para te fazer a cama”. E sejamos claros: não há nada de verdadeiramente surpreendente nesta atitude. As dinâmicas de competição e poder internas nos grandes partidos ao centro, sobretudo quando estão na oposição, determinam que as suas lideranças estejam sempre a ser postas em causa. É normal que assim seja. Torna-se sim curioso observar todos os argumentos que vão sendo levantados pelos adversários internos para colocar em causa a referida liderança.

A liderança de António José Seguro nunca convenceu uma série de setores do partido. Mas as raízes desta dinâmica são sobretudo estruturais. Ou seja, uma liderança que assume um grande partido do centro no momento em que este atravessa o calvário da oposição, será sermpre fortemente criticada. E numa fase em que não há perspetivas de conseguir o regresso ao poder, tais críticas vão sendo pouco concretas. Não existe portanto um adversário ou corrente interna que se assuma como alternativa, existindo sim uma crítica que tem como principal objetivo marcar terreno para o futuro. 

Em linha com o acima exposto, Seguro sentiu esta semana as críticas mais diversas vindas dos seus adversários internos. Em entrevista à Rádio Renascença, Carlos César afirmou que a questão da liderança deve ser reaberta no caso de não existir um bom resultado nas europeias. César nunca se inibiu de criticar esta liderança. Estranho é o ângulo em que esta crítica tem sido feita mais recentemente, sendo agora colocado em causa o rumo “demasiado oponente e pouco proponente da atual liderança socialista”. Não é de facto a primeira vez que César critica Seguro pela direita. Em dezembro último, César também defendeu um governo de coligação PSD e CDS, não deixando de ser curiosa esta sede de uma maior aproximação ao centro.

Por seu turno, como não podia deixar de ser, António Costa também veio a público mandar a sua farpa. Apesar de afirmar que se obriga a bastante “recato” no comentário à liderança do atual secretário-geral, Costa considerou que não basta “ganhar poucochinho”. Ou seja, o maior fantasma que a atual liderança socialista possui não conseguiu deixar de sublinhar o patamar elevado de responsabilidade que António José Seguro tem pela frente. E como bom fantasma que é, António Costa voltou a socorrer-se da postura que o tem caracterizado nestes últimos anos: um habilidoso toca e foge.

Por último, neste mesma semana também vieram a público as reuniões que Mário Soares tem feito com os mais diversos setores conhecidos pela sua relativa oposição à liderança socialista. O histórico líder socialista nunca escondeu a sua pouca empatia com o atual secretário–geral, tendo sempre desenvolvido uma crítica cerrada pela esquerda à atual liderança. Agora já o faz reunindo sem disfarçar diversos setores, o que não deixa de ser um novo patamar de oposição interna.

É deliciosa a variedade de críticas que recaem sobre Seguro. César critica-o pela direita, Costa ao centro e Soares pela esquerda. A isto sim chama-se um verdadeiro cerco. Será que o Tó Zé segura-se após as Europeias? Acho difícil, mas a ver vamos…

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Troca-Tintismos



Trocado por míudos, o FMI que até já chegou a ser-nos apresentado como o membro mais bonzinho da troika, exige agora que a sangria continue. O Governo Português, conhecido por querer ir além da troika, prontifica-se agora a dizer que “já chega”. Mas fá-lo no mesmo dia em que, por mero acaso, aprova uma medida acabada de sugerir pelo FMI. Por seu turno, a Europa malvada que nos submeteu a esta terrível intervenção externa, vem agora dizer-nos que foi tudo um tremendo erro.

Momentos de crise como o atual sempre foram propícios a posicionamentos gelatinosos, capazes de criticar hoje o que ontem defendiam fortemente, capazes de elogiar hoje o que ontem desfaziam alegremente. Não é portanto novidade este troca-tintismo permanente. Pelo contrário, ele é o conhecido garante de que tudo seguirá o rumo traçado sem grandes sobressaltos e confusões. 

Também não é infelizmente novidade a confusão, a dificuldade de posicionamento e, em última análise, a desilução total que os cidadãos sentem perante os seus supostos representantes. Como é possível manter a sanidade e a confiança em algo tão manifestamente incoerente?

De qualquer modo, apesar do troca-tintismo ser claro, assumido e reconhecido por todos, a coerência tende a ser vista como uma atitude radical. Algo exótico, marginal até, utilizado sobretudo por uns chatos que por aí andam. Comentários para quê?

Artigo publicado no Esquerda.net

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Disciplina, mas pouco

Os partidos pressupõem sempre alguma disciplina. De qualquer modo, levá-la à letra ou sequer ser-se exigente a este respeito desencadeará sempre visões pouco democráticas internamente. Situações castrantes da liberdade de cada um, do direito a ter opinião própria, de oposição interna, entre outras dimensões. No fundo, a disciplina existe, mas pode e deve  ser quebrada. É mais prudente ser-se bastante flexivel a este respeito. De outro modo, em vez de partidos, teríamos bandos de carneiros.

Este processo de purga interna em curso no PSD é de uma loucura total. A possibilidade de expulsar militantes que apoiaram/integraram outras candidaturas, como António Capucho por exemplo, é totalmente doentio. Já sabíamos que o poder ataca facilmente as cabeças menos arejadas. Mas ver um partido com a experiência do PSD a fazê-lo roça o inacreditável.

Miróbolante

Percebo que termos uma semana inteira a discutir Miró foi, no mínimo, insólito. Percebo também que podem existir posições muito diversas e legitimas quanto a mantermos ou não os quadros.

Mas no meio da discussão, surpreendeu-me a quantidade de opinion makers que dizem não entender a importância de mantermos esta significativa colecção em Portugal. Porque ninguém virá a Portugal ver Miró...

Gostemos ou não, Miró é provavelmente um dos pintores do século XX mais conhecidos em todo o mundo. Top 10 seguramente. E os Mirós são sempre cabeças de cartaz em todos os grandes museus de arte contemporânea do mundo, seja no Reina Sofia, no Pompidou, no Tate ou no MoMA.

Podemos achar muita coisa. Mas ter uma colecção destas no Museu do Chiado, em Serralves ou na Gulbenkian não seria um pormenor. Sejamos sérios...

O Mandela da Lusofonia

Boa entrevista de Xanana ao DN. Mais do que as suas considerações sobre a crise Portuguesa e Europeia, que me parecem assertivas mas normais, continua a surpreender-me a sua serenidade. Uma serenidade, uma tão grande vontade de paz, de cooperação, de fraternidade vinda de um ex-guerrilheiro que sentiu e sofreu na pele a resistência não é algo que passe despercebido. Grande Xanana.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Ah, antes que me esqueça

Acho a história do sorteio das facturas uma bimbalhice inacreditável. Ainda me custa acreditar que uma das grandes apostas da política nacional de fuga aos impostos assenta num concurso de facturas que habilitam o cidadão a um carro. De grande cilindrada, note-se! L-I-N-D-O!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

What the fuck is praxe?

Ontem consegui ver em diferido o famoso Prós&Contras sobre as praxes. Fiquei comovido. Comovido por ter ficado a saber que aquilo que todos pensávamos ser praxe, afinal não é considerado praxe pelos defensores das praxes. Ou seja, não é praxe a subalternização dos novos alunos, não é praxe colocá-los de quatro, não é praxe pintar lhes a cara e atirar lhes farinha e ovos para cima, não é praxe obrigar-lhes a limpar casas de banho ou medir campos de futebol com palitos. Também não é praxe obrigá-los a fazer figuras tristes.

Tudo o que o documentário Praxis mostra, e que podemos hoje ver quando nos aproximamos de qualquer universidade no principio do ano lectivo, não é praxe. Ah, e esqueçam lá essa coisa dos códigos de praxe porque isso também não é praxe.

Mas afinal, o que raio é a praxe? What the fuck is praxe, perguntamos nós? Pelos vistos, a praxe para os defensores da praxe limita-se a umas aulas fantasmas e a ditar umas bibliografias em latim. Fazer serenatas e usar o traje é praxe. Mostrar aos novos alunos as instalações da nova faculdade, os núcleos desportivos e culturais que possui, isso sim é a verdadeira praxe. Fiquei comovido, a sério.

Hoffman

Hoffman remete-nos fatalmente para grandes filmes. Lembro-me sempre do seu deliciosamente perturbante papel em "Happyness". O filme passou algo despercebido, mas recomendo vivamente a quem nunca viu. É bem capaz de estar no meu Top 10 de filmes.

O oráculo italiano?

Em Itália, com o aproximar das Europeias, o Grilismo surpreende cada vez mais, com insultos e até violência no parlamento. Vale tudo, e Beppe Grillo assume-o, no que já é apelidado de "pornopopulismo".

Itália continua a ser um oráculo do caminho do possivel colapso dos sistemas políticos democráticos, tal como os conhecemos nos dias que correm. Apesar de ser um dos países do G8, a fragilidade do seu sistema político é evidente.

O seu sistema partidário colapsou há uns anos atrás, mostrando estar saturado de um centrismo que não respondia às espectativas do eleitorado. Deu origem a uma multiplicidade de forças políticas difíceis de enquadrar num eixo simples de Esquerda vs Direita. No meio da barafunda de partidos, surgiu então Berlusconi, um fenómeno difícil de compreender num país com o nível de desenvolvimento de Itália. Como se Berlusconi não fosse já pornográfico numa democracia, eis que surge Beppe Grillo, o derradeiro carrasco.

O caso italiano devia ser melhor estudado e entendido como um verdadeiro aviso. Já todos sabíamos que a democracia não é o fim da história. Mas o caminho da sua degradação é uma caixinha de surpresas, como o caso italiano muito bem demonstra.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A Esquerda devia aprender com a Direita


O país ficou a saber na semana passada a impossibilidade de um entendimento entre o Bloco de Esquerda, o Manifesto 3D, o Partido Livre e a Renovação Comunista. Após algumas notícias desgarradas na comunicação social, temos já um facto consumado. O problema é que poucos são aqueles capazes de esclarecer cabalmente as razões desta falta de entendimento. Entre explicações personalistas (ex: o Bloco não gosta do Rui Tavares) e explicações mais estruturais (ex: o Bloco não podia apoiar a proposta do 3D de formação de um novo partido que desaparecia após as eleições), tudo não passam de motivos parciais e nebulosos. E, sobretudo, são explicações exotéricas para um eleitorado que não tem tempo a perder com detalhes da “vida privada” da esquerda portuguesa.

O tema da união de esforços à esquerda em Portugal não é novo. É pelo menos tão antigo quanto a nossa democracia. E as razões desta desunião são muito diversas, existindo variadas teorias a este respeito. Algumas consideram que a base leninista dos partidos à esquerda do PS, que determina que cada um deles se considere a única verdadeira vanguarda política, impossibilita entendimentos eleitorais ou programáticos mais profundos. Outras teorias sublinham que, desde o período de transição para a democracia (1974-1976), o conflito político-ideológico não se faz entre a esquerda e a direita, mas sim entre o CDS-PSD-PS e a restante esquerda. Ou seja, existe uma muito maior divergência ideológica entre o PS e a sua esquerda, do que entre o PS e a sua direita. A meu ver, esta é uma explicação muito mais consistente, existindo alguns estudos académicos que assim o demonstram. 

De qualquer modo, seria de esperar que, passados quase 40 anos de democracia, as raízes de tal desunião passassem a ser coisa do passado. Que as velhas cicatrizes estivessem ultrapassadas, que os olhos estivessem postos no futuro com o necessário realismo que o presente exige. Mas não.

Neste sentido, também não é novo dizer-se que a esquerda tem muito a aprender com a direita política. Ao longo dos quase quarenta anos de democracia, sempre assistimos a uma grande capacidade de aproximação do PSD e do CDS. Mas não só. A criação de coligações eleitorais com pequenos partidos como o MPT ou o PPM também não são uma novidade.. A direita sempre teve uma relativa facilidade em colocar na gaveta as velhas divergências, encontrando pontes comuns que sustentem alianças eleitorais. E os resultados estão à vista, sendo o presente Governo um bom exemplo a este respeito. Na nossa democracia, não foram aliás raras as vezes em que, sendo a esquerda eleitoralmente maioritária, a impossibilidade de entendimento determinou que a direita fosse preponderante.

Como é evidente, acho que a esquerda apenas devia aprender com a direita no que ao pragmatismo diz respeito. O verdadeiro problema em diversos setores da esquerda é que cada pessoa pensa de mais pela sua cabeça. Pensa tanto pela sua cabeça, que as dificuldades de alinhamento são difíceis. A mínima discordância ideológica ou estratégica acaba por ser a razão que impossibilita qualquer alinhamento. O puritanismo mostra-se então em todo o seu esplendor.

No meio de tudo isto, o eleitorado olha para esta sempre ativa (mas confusa!) esquerda portuguesa com alguma apreensão. Como é possível que não se consiga entender? Nem sequer entre a esquerda à esquerda do PS? Não tenhamos dúvidas que esta esquerda à esquerda do PS acabou de dar um mau sinal a este eleitorado. Resta esperar que as reações negativas sobre tal falta de entendimento obriguem a um maior empenho em aproximações futuras. Não sendo possível uma frente eleitoral para as Europeias, comece-se pelo menos a trabalhar desde já em entendimentos capazes de crescer até às Legislativas de 2015.

Artigo ontem publicado no Açoriano Oriental

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

As Jotas

Começo a ficar cansado de citar Pacheco Pereira, mas aqui vai mais uma... Escreve este fim de semana no Público sobre como as Jotas do PS e PSD penetram nos aparelhos governamentais (dos gabinetes às empresas públicas, passando pela Administração Pública), e como levam a cultura do profissionalismo político para estas entidades. Uma boa análise, sem dúvida.