segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sobre as reações à saída de Varoufakis. Estavam à espera do quê?

A saída de cena de um dos principais protagonistas do Governo Grego não é algo fácil de justificar. Nunca o seria em momento algum. Mas retirar daí ilações sobre irresponsabilidade ou sobre o abandono num momento crucial parece-me objetivamente superficial e leviano até.

Sair após uma clara vitória nunca poderá ser considerada uma fuga ou uma saída pela porta pequena, parece-me evidente. Tão evidente quanto o desejo de grande parte do establishment em encontrar e explorar ao máximo qualquer brecha no seio do Governo Grego. Estão a fazer o seu papel, estavam à espera do quê?

A Grande Bofetada Democrática


Há sinais de coragem que nos fazem ter a certeza que tudo é possível. Que as alternativas existem, que a mudança é possível, que é possível fazer diferente, que é possível não vergar. Quando tinham tudo e todos contra si, quando tudo foi feito para que não resistissem, para que aceitassem uma suposta inevitabilidade, os Gregos souberam dizer que não. 

E disseram-no apesar de uma pressão inarrável dos líderes europeus, apesar de todo o aparelho mediático anunciar a catástrofe caso "não" vencesse. Fizeram-no quando o dinheiro nos multibancos começou a falhar, quando começaram a ter problemas a abastecer o seu carro, quando até os medicamentos nas farmácias começaram a faltar.

Hoje os gregos deram uma estrondosa bofetada democrática a toda a Europa. Mostraram-se fortes, dignos, grandes. Hoje o nome do seu país ecoou por todo o mundo. Tiro-lhes o chapéu. Têm todas as razões para estar orgulhosos de si e do seu país. 

Mais de 2000 anos depois, voltaram a ensinar ao mundo o que é a Democracia.

sábado, 4 de julho de 2015

Plasticobilism


Vale a pena visitar este blogue grego (plasticobilism.blogspot.pt/), hoje referenciado no Público. Utilizam-se os inocentes Playmobil para se expressar um pouco o que se passa na Grécia.

Inovação rima com Administração Pública?


Apesar de poderem ser constantemente desmascarados, desconstruídos, desacreditados, os mitos têm o grande inconveniente de ressuscitarem constantemente. Dificilmente desaparecem. As suas narrativas simplistas perduram no tempo e atravessam gerações. Centrando-nos no caso concreto da Administração Pública, verificamos que, no referencial de grande parte dos cidadãos, esta é sempre assumida como burocrática, pesada, ineficiente, fechada. E, consequentemente, os seus trabalhadores são frequentemente encarados como pouco dinâmicos, complicados, pouco produtivos e uma série de outros lugares comuns. 

A referida visão não sucede apenas em Portugal, como é evidente, mas é particularmente latente entre nós. Aliás, bem no espírito nacional, ressalva-se sempre que “existem excelentes funcionários públicos” e “excelentes exemplos na nossa Administração Pública”. É bonito. Garante-se assim o reconhecimento politicamente correto que nem tudo é mau. Que até existem algumas coisas boas.

Mas o mais curioso de toda esta perspectiva é que Portugal é de facto uma referência internacional nos domínios da modernização administrativa. As nossas conhecidas Lojas do Cidadão continuam a ser visitadas por delegações de todo o mundo que vêm cá aprender com a nossa experiência. Para os mais distraídos, o nosso Cartão de Cidadão representa um dos exemplos mais avançados de identificação electrónica na Europa. O nosso Portal do Cidadão, lado a lado com os portais das Finanças, da Saúde ou da Segurança Social, colocam-nos há vários anos no topo das avaliações europeias de serviços online. Fomos pioneiros a nível europeu na adopção mandatória de normas abertas nos nossos sistemas de informação e temos das políticas europeias mais avançadas na utilização de software livre. A lista de bons exemplos é quase interminável a este respeito.

Somos bons. Somos muito bons nestas áreas. Assim acontece porque a tal Administração Pública que muitos consideram gorda, burocrática e ineficiente não tem parado de evoluir. Tem encontrado na Inovação a poderosa arma para responder aos desafios dos tempos. E a referida cultura de inovação, de melhorar cada vez mais os serviços públicos, tornando-os mais simples, mais centrados nos cidadãos, mais transparentes, não é algo que se concretize no abstracto. É feita de pessoas. É feita de trabalhadores do setor público que, apesar de todos os constrangimentos, desvalorizações e humilhações até, não têm desistido de melhorar dia para dia a Administração Pública Portuguesa. 

Como é evidente, muito contínua por ser feito e este também não tem sido um caminho sem erros. Pelo contrário. As asneiras existem e muitas estão à vista de todos. Mas, apesar das mesmas, a liderança Portuguesa nos domínios da modernização administrativa tem-se mantido. Perante cidadãos cada vez mais exigentes e com constrangimentos orçamentais notórios, a inovação no setor público tem mantido Portugal como um gigante nestas áreas.

Espero com este texto ter ajudado a desconstruir um bocadinho este mito secular. Mas uma vez que os mitos renascem no dia seguinte, não me cansarei de voltar à carga sobre estes temas.

Artigo ontem publicado no tempodeavancar.net

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Obrigado! Vamos a isto!



Açores: Lista ordenada dos candidatos

Pedro Alves
Florbela Carmo
José Azevedo
João Ricardo Vasconcelos
Alexandra Ávila Trindade

Candidatos suplentes

Tiago Franco
Jorge Santos

Ops... Afinal esta Maioria pode Ficar


As últimas sondagens já vinham anunciando a aproximação cada vez maior entre a actual maioria e o PS. A margem, que nunca foi grande, foi diminuindo mês após mês sob o olhar atento de todos. E eis que, a menos de quatro meses das eleições, temos a primeira grande sondagem onde se verifica mesmo uma ultrapassagem do PS pela coligação PSD/CDS. Com uma diferença mínima, é certo, e dentro das margens de erro das sondagens, sem dúvida. Mas uma demonstração clara que a perspectiva de mudança nas próximas eleições deixou de ser uma certeza. Pelo contrário, chegámos ao momento em que a referida mudança começa a ser algo tão provável como a manutenção da actual maioria.

No meio deste cenário, os primeiros olhares debruçam-se naturalmente no PS. Não só não estão a conseguir descolar nas sondagens, como começam a dar alguns sinais de serem ultrapassados pelo PSD/CDS. E tal torna-se particularmente relevante quando António Costa sustentou a sua candidatura à liderança do PS após o seu antecessor vencer as Europeias, mas com um resultado que “soube a pouco”. Ou seja, assente no argumento de que António José Seguro não conseguia, apesar de um contexto de amplo descontentamento na opinião pública, fazer com que o PS descolasse nas sondagens. Costa depara-se agora com um cenário igualmente intrigante ao vivido pelo seu antecessor. E parece que não existe carisma, estado de graça ou empatia com a comunicação social que valha ao líder socialista no momento actual.

Mas a actual sondagem continua a não dar razões de festejo para a esquerda à esquerda do PS. O PCP mantém o score na casa dos 10%, sendo sim a verdadeira novidade uma subida abrupta do Bloco de Esquerda (passa de 4% para 8%). Candidaturas como o LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR mantêm valores na casa dos 2%, à semelhança do que tem acontecido nos últimos meses. A confirmar-se a real duplicação das intenções de voto no Bloco, temos uma esquerda na casa dos 20%. Mas tal duplicação carece ainda de alguma sustentação em próximas sondagens.

Tendo em conta o presente cenário, a pergunta da ordem do dia formula-se mais ou menos desta maneira: “Como é possível que, após anos de austeridade, anos de subida do desemprego e de diminuição dos salários, anos de recordes de emigração, anos de diminuição dos direitos em todas as frentes… Como é possível que o eleitorado não deseje de forma mais clara a mudança”? Estaremos perante uma espécie de síndrome de Estocolmo, em que a vítima estabelece, apesar de tudo, uma ligação sentimental positiva com o agressor?

O desgaste de imagem de António Costa e o fantasma Sócrates (a sua prisão, mas sobretudo a recordação da sua governação) são assumidos por alguns sectores como os principais motivos dos atuais resultados. Por outro lado, o que se está a passar na Grécia e, sobretudo, o que nos chega pela comunicação social sobre a crise grega gera um efeito conservador no eleitorado. O discurso do “nós não somos a Grécia” regressou em força. No fundo, começa a instalar-se em força a ideia que nós fizemos sacrifícios (e os Gregos, não), por isso não devemos deitar tudo a perder.

Vasco Púlido Valente, na sua crónica no Público do passado Domingo, apresenta ainda uma outra justificação. Comparando com o que sucedeu com determinados povos em dados momentos históricos, os Portugueses habituaram-se ao presente quadro. Ou seja, vivem uma situação objectivamente má, reconhecem os erros e a incompetência de quem os governa, mas temem sobretudo uma qualquer mudança de quadro. Habituaram-se a este referencial e não querem passar por novas incertezas.


As sondagens valem o que valem e esta é só mais uma. De qualquer modo, julgo que hoje já ninguém consegue negar a tendência de clara aproximação entre o PS e o PSD/CDS, com a consequente indefinição sobre o que se passará nas legislativas de Outubro. Até lá, valerá com certeza a velha máxima de “as eleições não se ganham, perdem”. Ou seja, ganhará as eleições quem cometer menos erros.

Artigo publicado terça-feira no Açoriano Oriental

terça-feira, 9 de junho de 2015

E se os Açorianos decidissem os seus candidatos?


Pela primeira vez na democracia portuguesa, os cidadãos serão responsáveis por escolher e ordenar listas de candidatos a deputados. E o referido processo está já em curso para as Legislativas de 2015. No quadro de uma iniciativa particularmente arrojada, a candidatura cidadã LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR (www.tempodesavancar.net) garante que qualquer cidadão possa ser candidato nas eleições primárias para a escolha dos candidatos à Assembleia da República. E o carácter inovador do processo não se fica por aqui. Qualquer cidadão pode depois escolher e ordenar os diversos candidatos, resultando as listas a apresentar à Assembleia da República deste processo de democracia participativa. Pela primeira vez na história da democracia portuguesa, a escolha e ordenação dos candidatos não competirá a uma direcção partidária.

Conhecemos o diagnóstico há muito. Os cidadãos estão afastados da política e não se revêem nos partidos políticos. Consideram que os partidos são máquinas de conquista de poder e de distribuição de benesses que estão afastadas dos verdadeiros interesses da sociedade civil. Os cidadãos sentem-se, por isso, mal representados. Aliás, não sabem quem são os seus representantes, nomeadamente na Assembleia da República, e questionam-se deste modo sobre a utilidade do modelo de representação actualmente existente.

O diagnóstico acima é assumidamente simplista. Destaca a questão da representação e o afastamento entre eleitos e eleitores como um dos grandes pontos críticos da democracia actual. Existem outros problemas na nossa democracia, como é evidente. Demasiados, aliás. Mas é hoje indiscutível que a representação é uma das questões centrais e as soluções para minimizar este problema são inúmeras. O convite a independentes para integrar as listas, a eleição do líder em primárias abertas à sociedade civil, entre outras. Sendo todas as soluções naturalmente meritórias, a possibilidade das listas de candidatos serem escolhidas e ordenadas pelos cidadãos eleva a vontade de abertura e de participação dos cidadãos a um novo patamar de democracia.

Como resultado de um amplo processo de mobilização, cerca de 400 cidadãos em todo o país decidiram avançar e apresentar-se como candidatos nas primárias do LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR. Alguns com experiência política, outros com experiência de participação em movimentos cívicos e outros ainda movidos pela importante simples vontade de participar. Nos Açores, 14 cidadãos apresentaram-se como candidatos e estão disponíveis para representar a região na Assembleia da República. Mulheres e homens com vontade de fazer diferente, que entendem que este é o momento de avançar e participar num processo deveras inovador na democracia Portuguesa

Eu sou um dos referidos candidatos. E dou este passo em frente porque sempre entendi a política como a materialização de uma cidadania que se quer ativa e interventiva. Porque vivemos um momento em que os impasses à esquerda têm de ser ultrapassados. E porque temos de deixar cair o tabu da vontade de governar, ao mesmo tempo que mantemos a exigência com os principais pilares da esquerda: educação, saúde e segurança social públicas. Espero contribuir para demonstrar que a alternativa existe, tomando em mãos a responsabilidade de desenvolver pontes e tornar possível a aplicação de um programa de um governo de esquerda em Portugal.

Compete agora a qualquer açoriano interessado participar neste processo de escolha e ordenamento dos candidatos do LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR. E pode fazê-lo até o dia 14 de Julho, inscrevendo-se em www.tempodeavancar.net e votando depois electronicamente no dia 20 ou 21 de Junho. Estou (e estamos) nas suas mãos.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Avancei (e agora estou nas tuas mãos)


Sempre assumi que a democracia deve ser vivida todos os dias. Que a participação se faz participando. E que, se queremos mudar algo na escola, no trabalho ou no país, devemos arregaçar as mangas e fazer por isso. Simples, não? Sozinhos não conseguimos mudar o mundo. Mas se fizermos a nossa parte, se entregarmos o que conseguimos  e o que achamos que devemos entregar, já estamos a ser verdadeiros revolucionários. 

Sou candidato nas primárias da Candidatura Cidadã LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR (www.tempodeavancar.net) porque tenho a certeza que o país necessita de facto de uma alternativa. Porque não basta criticar sem querer assumir responsabilidades governativas. E porque estou certo que o virar o disco e tocar o mesmo do PS e PSD foi precisamente o que nos trouxe até aqui. 

Quero ajudar a mudar o disco. Sei que posso ajudar a fazer diferente.

A apresentação da minha candidatura e as áreas preferenciais de intervenção podem ser consultadas aqui. Utilizarei o Ativismo de Sofá (Blogue e Facebook) como plataformas de comunicação desta candidatura.

Tratando-se de um processo de primárias para selecção dos candidatos a deputados à Assembleia da República, necessito do apoio de todos os que acham que o meu contributo será válido. Preciso mesmo que se inscrevam aqui até ao dia 12 de Junho e votem a 20 ou a 21 de Junho

Conto contigo!

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Observatório da Grécia


Numa altura em que a Grécia voltou a encher páginas nos jornais portugueses, vale mesmo a pena seguir os olhares um pouco diferentes disponíveis no Observatório da Grécia. Os autores dispensam apresentações. Tudo gente altamente suspeita, portanto.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Os Viradores do Disco e os Tocadores do Mesmo

Com o aproximar das legislativas, sente-se que a luta política está ao rubro. A agenda mediática é tomada de assalto pelos protagonistas políticos. Ora diagnosticam o estado presente do país e justificam porque é que farão melhor no futuro, ora tentam desmontar o argumentário dos seus adversários procurando mostrar que as suas soluções são melhores. Mas mais do que esta saudável competição de ideias e propostas, grande parte do combate político por estes dias faz-se com os pequenos casos, com as pequenas gaffes, com a oposição fácil às declarações do seu adversário no dia anterior. No fundo, apanha-se o assunto do momento como âncora (e.g. seja ele o bullying nas escolas, a violência contra o adepto do Benfica ou a biografia do primeiro-ministro) e prestam-se rapidamente declarações públicas que garantirão que a força política terá o seu espaço no jornal da noite. E é mais ou menos nesta roda-viva que a pré-campanha para as legislativas se processará até Outubro.

Simultaneamente a esta dinâmica, o cidadão é presenteado com a chuva de comentário político nos canais generalistas e nos canais de informação. Comentários estes protagonizados sobretudo por atores políticos interessados e comprometidos com as forças políticas em competição. Seja a rúbrica do Marcelo, do Marques Mendes ou do António Vitorino, a maioria do comentário que esmiuça a actualidade é parte interessada na luta política. Contribui pouco, ou poderia contribuir muito mais, para uma democracia de qualidade.

Sendo os atores políticos partes interessadas e estando os comentadores comprometidos, compete à comunicação social, às redacções e aos jornalistas individualmente, garantir que a agenda mediática não seja totalmente sequestrada por temas que se perdem na espuma dos dias. E neste aspecto, mesmo os órgãos de referência na informação a nível nacional raramente têm conseguido ser imparciais na formulação da agenda mediática. Aliás, frequentemente deixam-se levar em vagas de fundo, amaldiçoando quem ainda ontem era bestial e beatificando quem ainda ontem era uma besta. No fundo, coroam os novos vencedores e banem os perdedores, sendo sempre pouco claros neste processo.

Trocado por miúdos, a comunicação social que temos consegue ser um bom “virador de discos”, mas importa que controle também melhor quem teima em “tocar o mesmo”. Assumindo o seu papel de quarto poder e até de watch dog nos sistemas democráticos, a comunicação social terá de ter a capacidade de destronar quem lá está, mas também de assegurar que quem aí vem não faz o mesmo suportado num discurso ligeiramente diferente. Deverá ainda possibilitar que a sociedade civil tenha memória, não esquecendo o que apenas há seis meses ou há seis anos atrás sucedeu. Deverá ser a primeira promotora de massa crítica sobre o que se passa, a primeira garante que o contraditório existe e a primeira defensora de que abordagens alternativas são sempre possíveis.

Como é evidente, todos sabemos os atuais constrangimentos sofridos nas redacções de todos os órgãos de comunicação. Os orçamentos cada vez mais curtos, a concentração da propriedade dos media, a pressão da digitalização e da gratuitidade são apenas algumas das dimensões que colocam em causa o trabalho jornalístico com maior profundidade. Não haja portanto a menor dúvida que a profissão de jornalista atravessa, nos dias que correm, tempos particularmente difíceis.


Mas, por isso mesmo, para além de sermos solidários com as inúmeras reivindicações e alertas que têm vindo a público sobre os requisitos de um jornalismo de qualidade, importa não deixarmos de ser exigentes com o trabalho jornalístico que nos é apresentado. Importa demonstrar inconformismo com o mero papel de “viradores do disco” atribuído à comunicação social. Precisamente demonstrando todos os dias que contamos com ela como principal garante para que não se “toque sempre o mesmo”.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Já nas Bancas

Índice de Artigos aqui

No País dos Dias Loureiros


Elogiar Dias Loureiro é doentio. Um delírio tão grande de Pedro Passos Coelho que, num primeiro momento, foi quase desconcertante. Será alguma golpada mediática? Estará a passar alguma mensagem nas entrelinhas? Não, nada disso. Foi apenas mais uma demonstração de que temos um primeiro-ministro que há muito perdeu a “ligação à terra”. De alguém que vive numa espécie de realidade paralela. 

Mas para além de um primeiro-ministro alienado (se quisermos ser simpáticos), o episódio de Dias Loureiro reflecte de forma cristalina a cultura de mérito que nos rodeia. Demonstra bem o conceito de “subir na vida” para uma parte muito substancial das nossas elites políticas e económicas. É que por detrás do discurso quase humanista do trabalho árduo de sol a sol, do esforço e sacrifício pessoal que é preciso para se ser alguém na vida, existe também uma cultura fortemente arreigada que acha normal os compadrios, os tráficos de influência e até os pequenos e grandes fenómenos de corrupção. Tolera tais fenómenos porque encontra sempre uma razão mais ou menos parola, mais ou menos sofisticada, para os justificar.

Uma cultura que crítica a sujidade da política, os jogos que lhe são inerentes, os interesses que lhe estão subjacentes, mas que quando chega o momento de tentar atacar o referido problema, encontra sempre um bom motivo para o não fazer. E as linhas de raciocínio são brilhantes a este respeito. O Presidente da Câmara até se farta de dar trabalho aos seus amigos, mas se lá estivessem outros, acabariam também por fazer o mesmo. O Secretário de Estado ou o Ministro encheu o seu gabinete e os institutos que tutela com boys do seu partido, amigos e familiares, mas isto sempre foi e sempre será assim. Porquê chatear-nos com essas coisas? 

Uma cultura que sublinha que temos uma economia atrasada, que nos faltam profissionais nos negócios, que precisamos de ter um espírito mais empreendedor. Mas é também uma cultura que continua a desvalorizar significativamente a formação e o seu valor. Elogia a competência e o profissionalismo, mas acha que, no mundo dos negócios, o que importa é ser esperto, ter os contactos certos e conseguir abrir as portas necessárias. Isso é que é importante. Importa saber-se mover bem e fazer o que for necessário para que o negócio aconteça. Mesmo que com isso se atropele um pouco a lei ou se contorne esta ou aquela obrigação. Mesmo que um ou outro valor prometido na missa do último domingo seja sacrificado. Negócios são negócios, e as pessoas bem-sucedidas são-no porque se souberam mexer.

Por fim, uma cultura que crítica as ligações que existem às claras entre a economia e a política, afirmando que são os contribuintes que pagam tudo isto, mas que tolera bem estas ligações quando acontecem com pessoas que lhe são próximas. E encontra sempre um bom motivo para fechar os olhos a este respeito. É sabido que, lá na terra, o Presidente da Câmara adjudicou uma obra a uma determinada empresa e que esta arranjou forma de o compensar. Mas isso sempre funcionou assim e o tipo até é porreiro. É sabido que o presidente do Instituto X foi particularmente simpático no seu mandato com a empresa Y, e toda a gente sabe que a referida empresa até lhe dará trabalho no futuro. Mas, lá está, o tipo até é competente e tem mérito em algumas coisas que faz. 

No meio desta cultura de Dias Loureiros, importa de vez em quando ir sacrificando alguns nomes em praça pública, atribuindo-lhes toda a podridão do mundo. Tal deve acontecer para as pessoas não pensarem que esta é uma república das bananas sem rei nem roque. Importa ir encontrando uns Vales Azevedos, uns Migueis Relvas, uns Josés Sócrates e linchá-los bem. A moral pública fica assim mais equilibrada e cada um de nós fica satisfeito porque, de vez em quando, até parece que se tenta fazer justiça.

Artigo publicado na terça-feira passada no Açoriano Oriental

terça-feira, 14 de abril de 2015

Cinco Sinais de Fim de Ciclo

1 - O Governo tornou-se simpático. Depois de anos a fio com o discurso da austeridade, do viver acima das possibilidades, o Governo pretende agora mostrar a sua face humana. Suaviza algumas dimensões da austeridade que ele próprio iniciou, baseando-se numa suposta retoma que ainda ninguém viu, ouviu ou sentiu. Mas que diz ser uma realidade clara e que devemos acreditar nela. Realinha assim o discurso no sentido do crescimento económico e começa até a colocar as pessoas no centro do seu discurso. É maravilhoso. Subitamente percebemos que os maus tratos a que somos sujeitos são apenas para o nosso bem, uma espécie de correctivo duro mas necessário, sendo por isso tempo de virar a página. E, sobretudo, insiste-se na tecla para que não deitemos tudo a perder, para que não estraguemos esta suposta retoma que tanto se insiste estar a acontecer.

2 – Há que garantir o futuro dos boys. Se o início de um ciclo é o momento privilegiado dos jobs for the boys, o fim de um ciclo é também intenso a este respeito. Quem até agora dependia de cargos de nomeação política, seja de primeira linha ou nos gabinetes ministeriais, e que não possui uma solução de backup, encontra-se agora intensamente à espreita de um poiso seguro. Seja um lugar numa Direcção Geral, numa empresa pública ou numa fundação, estes últimos meses são o último cartucho para garantir o futuro. As entidades públicas começam assim a ser subitamente tomadas por súbitas reformulações e supostas mudanças estratégicas. Novas caras começam a aparecer, sem que ninguém tenha percebido de facto porquê. Boys ao ataque, portanto.

3 - O principal partido da oposição radicaliza-se. Apesar ter sido um dos signatários do memorando com a troika, há que gritar mais alto do que nunca que as medidas aplicadas não tinham nada a ver com o que foi acordado. Aliás, é tempo de dizer de forma mais afincada do que nunca que se é contra a austeridade, contra as políticas atuais, contra os seus protagonistas. E que um novo ciclo se aproxima, embandeirando expressões como “mudança”, “esperança” e outras semelhantes. Importa não ser claro quanto à revogação das medidas atuais e importa também não se comprometer muito. Mais do que ser, este é o momento de se parecer mais radical do que nunca.

4 – Os tachos futuros estão já a ser discutidos. E isso agita as águas no principal partido da oposição. Quem é amigo de quem, quem fica em que lugar na lista do distrito, quem faz esta ou aquela parte do programa eleitoral são aspectos que neste momento levam a tremendas cargas de ombro entre os correligionários do novo ciclo. É a estrutura e composição do novo Governo que está em causa. Assim sendo, o espaço, o palco, o protagonismo que hoje se conseguir interna ou externamente ao partido determinará o papel a assumir na próxima legislatura. Por isso, este é o momento para se colocar em bicos de pés nos mais diversos domínios, ao mesmo tempo que se elogia publicamente o grande líder do partido. Bajular hoje para colher amanhã.

5 – São todos iguais e a alternativa não existe. Seja pelos casos que vão surgindo e vão enchendo as notícias diariamente, seja pelas amnesias que tipicamente atacam os grandes partidos nestas fases, reforça-se em toda a linha a ideia que todos têm telhados de vidro. Todos têm as mãos sujas, todos têm os seus podres, competindo ao eleitor apenas escolher entre os menos maus. Convida-se assim à alternância, sem que a alternativa possa ser minimamente considerada. Porque experimentar novas soluções, isso sim seria perigoso. Nem pensar neste tipo de soluções.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

quarta-feira, 1 de abril de 2015

SATA, a nossa moeda de troca?


A revolução low cost já chegou aos Açores. O passado Domingo foi marcante a este respeito, com a chegada dos primeiros voos à região. Lançam-se agora vivas à Easy Jet e à Ryan Air, que parecem finalmente colocar um ponto final nos elevados preços do transporte aéreo entre os Açores e o Continente. Mas no meio desta euforia regional que parece ter-se generalizado, apenas um pequeno detalhe, apenas um pequeníssimo pormenor, parece ter ficado por resolver: a SATA, companhia aérea regional de bandeira, não só ficou de fora dos festejos, como vê agora o seu futuro com insegurança e apreensão. 

Sobretudo a componente SATA Internacional do grupo, que é agora obrigada a bater-se com operadores que jogam noutro campeonato. E escusado será sublinhar que a SATA não é apenas uma marca com um conjunto de aviões. Trabalhadores da empresa e suas famílias têm evidentemente razões para olhar de forma apreensiva para a revolução low cost em curso. Parte da empresa pública regional parece ser o cordeiro a sacrificar em todo este processo. No fundo, uma moeda de troca, como se de um mal necessário ou de uma fatalidade se tratasse. 

O Governo Regional, pela voz do seu Secretário Regional dos Transportes, bem tentam dar a volta à questão. O Plano Estratégico da SATA, apresentado três meses antes da abertura do espaço aéreo (?!), surge como a grande resposta. O Plano prevê a redução de receitas e refere de forma muito mitigada a necessidade de redução de pessoal. Poucos parecem acreditar na sua solidez, a começar pelos próprios trabalhadores da própria SATA. 

A chegada das companhias aéreas low cost é o culminar de uma discussão com muitos anos, que identificava há muito os problemas do anterior modelo de espaço aéreo fechado. Os elevados preços do transporte aéreo condicionavam o desenvolvimento da região, sobretudo em termos turísticos, mas não só. Qualquer solução que implicasse a redução dos custos das ligações aéreas com o Continente seria naturalmente muito bem-vinda, tais eram os constrangimentos provocados pelo anterior modelo. 

Precisamente por esta ser uma mudança que vinha sendo pensada, discutida e analisada há tantos anos, é grave constatar que a mesma parece ter sido muito mal preparada. Num dia, a o espaço aéreo fechado era fundamental para garantir a coesão entre ilhas, no dia seguinte deixou de ser. Num dia, as companhias low cost ofereciam pouca qualidade nos serviços prestados, no dia seguinte já não era bem assim. Num dia, a SATA era uma empresa regional de referência, levando o nome dos Açores a vários continentes, no dia seguinte passou a ser uma empresa pouco sustentável, que necessita de se “adaptar aos novos tempos”, de se “preparar aos desafios futuros”. 

Tudo indica que as low costs terão um papel positivo na região. Ainda bem que assim é. Mas que o referido processo tenha acontecido assumindo a SATA como moeda de troca é de uma gravidade e incompetência grandes. Não se pode achar que uma empresa habituada a um mercado fechado pode subitamente adaptar-se a um mercado liberalizado. Não se pode assumir que um Plano Estratégico aprovado três meses antes de tão grande mudança poderá fazer milagres. E, sobretudo, não se pode sequer considerar que os destinos de uma empresa pública e estratégica como a SATA são um mero detalhe.

Se não houve capacidade durante estes últimos anos para preparar decentemente a transição para o mercado liberalizado, que haja agora compromisso, tempo e vontade do Governo Regional para o fazer. A SATA não pode ser a moeda de troca de todo este processo. A empresa, e sobretudo os seus trabalhadores, merecem muito mais do que isso. 

Artigo ontem publicado no Açoriano Oriental

terça-feira, 17 de março de 2015

Atenção! Mudança em Curso


Começam a surgir peças jornalísticas a descodificar os diversos novos partidos e candidaturas que se apresentarão às próximas legislativas. Para além dos habituais 5 partidos/coligações com representação parlamentar (PS, PSD, CDS, CDU e BE), e dos partidos com pouco ou nenhum historial de representação (PPM, MPT, MRPP, POUS, PAN, PTP, PNR), existem novas formações que prometem baralhar o xadrez partidário em Portugal. Temos o Partido Democrático Republicano de Marinho Pinto, temos a Candidatura Cidadã LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR de Rui Tavares, Ana Drago e Daniel Oliveira (da qual sou apoiante), o Movimento Alternativa Socialista de Gil Garcia, o AG!R de Joana Amaral Dias (ainda em formação) e o “Nós Cidadãos” de Mendo Henriques (também em formação). Fazendo lembrar os tempos do PREC em que havia opções para todos os gostos, parece claro que estas legislativas serão diferentes. 

Esta entrada na arena política de novos atores não é um exclusivo do panorama Português. O fenómeno tem vindo a acontecer um pouco por toda a Europa. As tensões provocadas pelas políticas de austeridade e a falta de capacidade de resposta do mainstream partidário apresentam-se como as principais razões desta mudança em curso. E os novos atores surgem com perfis diferentes. Na Grécia, o Syriza demonstrou que a esquerda radical pode chegar ao poder, fazendo com que o partido de centro-esquerda PASOK desaparecesse do mapa. Em Espanha, o Podemos afirma-se como grande novidade, ameaçando o PSOE. Em França, a Frente Nacional assume-se cada vez mais como um grande partido, retirando espaço às forças políticas tradicionais. E uma série de outros exemplos menos emblemáticos poderiam aqui ser trazidos para demonstrar que algo poderá estar a mudar nas democracias europeias.

É ainda prematuro prever com certeza os impactos desta mudança em Portugal. Parece certo que a pré-campanha e campanha serão diferentes dada a diversidade de atores presentes. Mas os resultados reflectirão de facto esta mudança? 

Para já, é altamente improvável (ou impossível até) que qualquer das novas forças consiga assumir a dimensão eleitoral do Syrisa, do Podemos ou da Frente Nacional. Apesar das subidas vertiginosas, qualquer uma das referidas forças políticas teve bastante mais tempo para sustentar o seu crescimento. Ao mesmo tempo que beneficiaram de uma erosão muito acentuada dos até então principais atores políticos (p.ex: fruto de escândalos de corrupção). Não teremos, portanto, qualquer uma destas novas formações a disputar a hegemonia eleitoral com os dois partidos que têm sempre exercido o poder em Portugal: PS e PSD. 

A capacidade de mudança destes novos atores far-se-á de maneira diferente. As sondagens mostram que, para já, nem o PS, nem o PSD/CDS conseguem alcançar a maioria absoluta. Por outro lado, indicam que formações como o PDR ou LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR deverão conseguir alguma expressividade eleitoral e, consequentemente, alguma representatividade parlamentar. Logo veremos o que acontece com o AG!R e com o Nós Cidadãos. Caso as legislativas não originem uma maioria absoluta, a necessidade de entendimentos pós-eleitorais (nomeadamente à esquerda) afirma-se como forte possibilidade. 

Como é evidente, os tempos de mudança envolvem sempre uma série de riscos. No que ao sistema partidário diz respeito, a fragmentação da representação poderá levar a uma maior instabilidade governativa. É um facto. No entanto, se tivermos em conta que são mais do que conhecidos os sinais de saturação do actual sistema, onde a rotatividade no poder apenas significa alternância e não alternativa, e onde as taxas de abstenção espelham bem a satisfação dos cidadãos com a nossa democracia, não será este um tempo de assumir riscos? Não será este um oportuno tempo de mudança? Julgo que o leitor já percebeu muito bem qual a minha opinião a este respeito.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

Regresso ao Futuro

O Governo anuncia que vai extinguir uma Fundação que já toda a gente pensava ter passado à história. Há pelo menos três anos e meio que ouvimos falar desta extinção. É bonito...

O que justifica tanta morosidade? E, já agora, se o programa Magalhães foi ruinoso (foi?) que responsabilidades estão a ser apuradas? É bonito verificar que a comunicação social reproduziu ontem esta informação sem uma linha de pensamento crítico...

domingo, 15 de março de 2015

Angola são os negócios. O resto são detalhes


Sou só eu que acho inacreditável que tenham morrido mais de 70 pessoas nas cheias em Angola e a nossa comunicação social notície isso depois da nossa politiquice caseira, da bola e sei lá mais o quê? Um qualquer rumor de aquisição de mais uma empresa portuguesa pela Isabel dos Santos teria dez vezes mais destaque...

quinta-feira, 12 de março de 2015

Idiotices


O que hoje foi aprovado em Conselho de Ministros sobre a criação de um base de dados de pedófilos é de uma cretinice nauseabunda. Não tenho aqui de fazer disclaimers sobre o quão hediondo é o crime de pedofilia. Nem sobre o risco que este tipo de criminosos/doentes/desiquilibrados podem representar para o meio onde estão inseridos, nomeadamente para os mais novos.

Mas era capaz de enumerar aqui várias mãos cheias de crimes hediondos e consequentemente o risco de quem os cometeu para o meio envolvente. Porque não avançamos já para a criação de mãos cheias de bases de dados sobre este tipo de criminosos?

Pois... É que num Estado de Direito e numa Democracia, a Justiça tem de acreditar na reabilitação dos infratores. Tem de assumir que as penas visam, entre outros objetivos, reabilitar o individuo de modo a devolver-lhe a sua liberdade e o seu direito à integração social. 


terça-feira, 3 de março de 2015

O teu partido é mais podre do que o meu


Quando vi o PS a atirar pedras a Passos a propósito da dívida à Segurança Social, achei curiosa tal atitude vinda de quem tem um ex-líder preso preventivamente por graves suspeitas de corrupção. A reação de Passos veio hoje, com o argumento de que não é Sócrates e de que não enriqueceu com a política.

Seria interessante que entrássemos agora num pingue-pongue de "o teu partido é mais podre do que o meu". O PS lembraria Relvas e o PSD ripostaria com Armando Vara. O PS contra-atacaria com Dias Loureiro e o PSD responderia com Jorge Coelho. Era bonito. 

No entanto, não interessa a qualquer das partes entrar nesta "destruição mútua garantida". Ambos têm grandes telhados de vidros. Importa ameaçar, mas não concretizar.

"Não deitemos tudo a perder!"


Depois de termos passado vários anos com a narrativa do “vivemos acima das nossas possibilidades”, uma versão atualizada parece já ter chegado: “não deitemos tudo a perder!”. A ideia é bastante simples: depois de termos comido o pão que o diabo amassou, com níveis de desemprego recorde, com cortes dolorosos nos mais diversos sectores, com perda de poder de compra em todas as frentes, importa continuar a ser um bom aluno para não sermos castigados pelos mercados. Agora que até já nos estamos a financiar com juros razoáveis, mantenhamos a devida distância dos gregos para que os mercados não mudem de ideia a nosso respeito.

As narrativas são sempre redutoras, é um facto. Mas constituem uma óptima muleta na veiculação de qualquer mensagem política. Neste sentido, o discurso dominante sustenta-se sempre uma boa narrativa. No caso do “vivemos acima das nossas possibilidades”, a mesma foi desmontada vezes sem conta pela oposição, por especialistas, por fontes insuspeitas a nível internacional, mas ela ainda hoje subsiste em cada conversa de café, em qualquer argumentação de circunstância. Conseguiu-se que a maioria dos cidadãos interiorizasse que os nossos problemas se deviam aos gastos supérfluos das famílias, ao mesmo tempo que o Estado acumulava gorduras e ineficiências. A crise surgiu como um castigo inevitável e a austeridade como a penitência incontornável.

No momento actual, uma vez que os parceiros europeus até elogiam os nossos sacrifícios, os indicadores até dizem que o desemprego já teve pior e as taxas de juro nos mercados das dívidas até estão a descer, PSD e CDS fazem-nos crer que o pior já passou. Que já cumprimos a parte mais penosa da penitência e que chegou o momento de começarmos a pensar em desapertar um bocadinho o cinto. Devagarinho e com ponderação. Sempre cientes que devemos fazê-lo com muito cuidado para não irritarmos novamente os mercados. Porque se o fizermos, deitaremos tudo a perder. Tudo terá sido em vão.

Tratando-se de uma narrativa poderosa, que aproveita de forma inteligente a natural vontade que os Portugueses têm em virar a página e olhar para a frente, ela é profundamente inconsistente. Continua a assumir que não existia qualquer outra alternativa possível. Que só com os sacrifícios feitos conseguiríamos avançar com as necessárias reformas que garantirão um crescimento sustentado da nossa economia. Assume que o país apresenta hoje menores debilidades do que tínhamos anteriormente e que os juros baixos nos mercados da dívida reflectem esse reconhecimento.

Ora, é preciso ser-se muito optimista para considerar que foi feita qualquer reforma profunda em Portugal que garanta agora um crescimento sustentável. As poupanças foram feitas sobretudo através de cortes cegos na despesa e com aumentos na receita através de impostos adicionais. E, não menos importante, Portugal beneficia hoje de taxas de juro menores à semelhança do que está acontecer com toda a Europa. É um fenómeno sobretudo exógeno à economia e está muito pouco relacionado com o desempenho nacional. Neste sentido, se a mesma confluência de factores que nos levou à crise ocorresse, não temos razões para achar que o país estaria melhor preparado. Até porque a sua dívida pública é hoje bastante maior. 

De qualquer modo, fica feito o aviso à navegação: a narrativa do “não deitemos tudo a perder” está ai para ficar. Estará presente em todo o debate para as eleições legislativas de Outubro e povoará qualquer conversa de café que tenhamos. Importa, por isso, que a oposição consiga combatê-la afincadamente. Por oposição ao “não deitemos tudo a perder”, importa mobilizar o “valeu a pena?”, ou o “estamos melhor preparados?”. Melhor ainda, importa mobilizar o “é este o país que queremos?”.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental