terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Tó Zé, seguras-te?


Com o aproximar das Europeias, tem sido interessante acompanhar o cerco que no PS vai sendo feito a António José Seguro. Uma vez que se assume como certa a vitória dos socialistas nas próximas eleições, todos os que nunca estiveram convencidos com a sua liderança elevam naturalmente o patamar do objetivo a atingir em Junho. Já não basta ao PS de Seguro vencer as próximas eleições, será necessário vencer por muitos. O que, trocado por miúdos, equivale a algo como “ou consegues uma vitória brutal, ou então teremos todas as razões para te fazer a cama”. E sejamos claros: não há nada de verdadeiramente surpreendente nesta atitude. As dinâmicas de competição e poder internas nos grandes partidos ao centro, sobretudo quando estão na oposição, determinam que as suas lideranças estejam sempre a ser postas em causa. É normal que assim seja. Torna-se sim curioso observar todos os argumentos que vão sendo levantados pelos adversários internos para colocar em causa a referida liderança.

A liderança de António José Seguro nunca convenceu uma série de setores do partido. Mas as raízes desta dinâmica são sobretudo estruturais. Ou seja, uma liderança que assume um grande partido do centro no momento em que este atravessa o calvário da oposição, será sermpre fortemente criticada. E numa fase em que não há perspetivas de conseguir o regresso ao poder, tais críticas vão sendo pouco concretas. Não existe portanto um adversário ou corrente interna que se assuma como alternativa, existindo sim uma crítica que tem como principal objetivo marcar terreno para o futuro. 

Em linha com o acima exposto, Seguro sentiu esta semana as críticas mais diversas vindas dos seus adversários internos. Em entrevista à Rádio Renascença, Carlos César afirmou que a questão da liderança deve ser reaberta no caso de não existir um bom resultado nas europeias. César nunca se inibiu de criticar esta liderança. Estranho é o ângulo em que esta crítica tem sido feita mais recentemente, sendo agora colocado em causa o rumo “demasiado oponente e pouco proponente da atual liderança socialista”. Não é de facto a primeira vez que César critica Seguro pela direita. Em dezembro último, César também defendeu um governo de coligação PSD e CDS, não deixando de ser curiosa esta sede de uma maior aproximação ao centro.

Por seu turno, como não podia deixar de ser, António Costa também veio a público mandar a sua farpa. Apesar de afirmar que se obriga a bastante “recato” no comentário à liderança do atual secretário-geral, Costa considerou que não basta “ganhar poucochinho”. Ou seja, o maior fantasma que a atual liderança socialista possui não conseguiu deixar de sublinhar o patamar elevado de responsabilidade que António José Seguro tem pela frente. E como bom fantasma que é, António Costa voltou a socorrer-se da postura que o tem caracterizado nestes últimos anos: um habilidoso toca e foge.

Por último, neste mesma semana também vieram a público as reuniões que Mário Soares tem feito com os mais diversos setores conhecidos pela sua relativa oposição à liderança socialista. O histórico líder socialista nunca escondeu a sua pouca empatia com o atual secretário–geral, tendo sempre desenvolvido uma crítica cerrada pela esquerda à atual liderança. Agora já o faz reunindo sem disfarçar diversos setores, o que não deixa de ser um novo patamar de oposição interna.

É deliciosa a variedade de críticas que recaem sobre Seguro. César critica-o pela direita, Costa ao centro e Soares pela esquerda. A isto sim chama-se um verdadeiro cerco. Será que o Tó Zé segura-se após as Europeias? Acho difícil, mas a ver vamos…

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Troca-Tintismos



Trocado por míudos, o FMI que até já chegou a ser-nos apresentado como o membro mais bonzinho da troika, exige agora que a sangria continue. O Governo Português, conhecido por querer ir além da troika, prontifica-se agora a dizer que “já chega”. Mas fá-lo no mesmo dia em que, por mero acaso, aprova uma medida acabada de sugerir pelo FMI. Por seu turno, a Europa malvada que nos submeteu a esta terrível intervenção externa, vem agora dizer-nos que foi tudo um tremendo erro.

Momentos de crise como o atual sempre foram propícios a posicionamentos gelatinosos, capazes de criticar hoje o que ontem defendiam fortemente, capazes de elogiar hoje o que ontem desfaziam alegremente. Não é portanto novidade este troca-tintismo permanente. Pelo contrário, ele é o conhecido garante de que tudo seguirá o rumo traçado sem grandes sobressaltos e confusões. 

Também não é infelizmente novidade a confusão, a dificuldade de posicionamento e, em última análise, a desilução total que os cidadãos sentem perante os seus supostos representantes. Como é possível manter a sanidade e a confiança em algo tão manifestamente incoerente?

De qualquer modo, apesar do troca-tintismo ser claro, assumido e reconhecido por todos, a coerência tende a ser vista como uma atitude radical. Algo exótico, marginal até, utilizado sobretudo por uns chatos que por aí andam. Comentários para quê?

Artigo publicado no Esquerda.net

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Disciplina, mas pouco

Os partidos pressupõem sempre alguma disciplina. De qualquer modo, levá-la à letra ou sequer ser-se exigente a este respeito desencadeará sempre visões pouco democráticas internamente. Situações castrantes da liberdade de cada um, do direito a ter opinião própria, de oposição interna, entre outras dimensões. No fundo, a disciplina existe, mas pode e deve  ser quebrada. É mais prudente ser-se bastante flexivel a este respeito. De outro modo, em vez de partidos, teríamos bandos de carneiros.

Este processo de purga interna em curso no PSD é de uma loucura total. A possibilidade de expulsar militantes que apoiaram/integraram outras candidaturas, como António Capucho por exemplo, é totalmente doentio. Já sabíamos que o poder ataca facilmente as cabeças menos arejadas. Mas ver um partido com a experiência do PSD a fazê-lo roça o inacreditável.

Miróbolante

Percebo que termos uma semana inteira a discutir Miró foi, no mínimo, insólito. Percebo também que podem existir posições muito diversas e legitimas quanto a mantermos ou não os quadros.

Mas no meio da discussão, surpreendeu-me a quantidade de opinion makers que dizem não entender a importância de mantermos esta significativa colecção em Portugal. Porque ninguém virá a Portugal ver Miró...

Gostemos ou não, Miró é provavelmente um dos pintores do século XX mais conhecidos em todo o mundo. Top 10 seguramente. E os Mirós são sempre cabeças de cartaz em todos os grandes museus de arte contemporânea do mundo, seja no Reina Sofia, no Pompidou, no Tate ou no MoMA.

Podemos achar muita coisa. Mas ter uma colecção destas no Museu do Chiado, em Serralves ou na Gulbenkian não seria um pormenor. Sejamos sérios...

O Mandela da Lusofonia

Boa entrevista de Xanana ao DN. Mais do que as suas considerações sobre a crise Portuguesa e Europeia, que me parecem assertivas mas normais, continua a surpreender-me a sua serenidade. Uma serenidade, uma tão grande vontade de paz, de cooperação, de fraternidade vinda de um ex-guerrilheiro que sentiu e sofreu na pele a resistência não é algo que passe despercebido. Grande Xanana.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Ah, antes que me esqueça

Acho a história do sorteio das facturas uma bimbalhice inacreditável. Ainda me custa acreditar que uma das grandes apostas da política nacional de fuga aos impostos assenta num concurso de facturas que habilitam o cidadão a um carro. De grande cilindrada, note-se! L-I-N-D-O!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

What the fuck is praxe?

Ontem consegui ver em diferido o famoso Prós&Contras sobre as praxes. Fiquei comovido. Comovido por ter ficado a saber que aquilo que todos pensávamos ser praxe, afinal não é considerado praxe pelos defensores das praxes. Ou seja, não é praxe a subalternização dos novos alunos, não é praxe colocá-los de quatro, não é praxe pintar lhes a cara e atirar lhes farinha e ovos para cima, não é praxe obrigar-lhes a limpar casas de banho ou medir campos de futebol com palitos. Também não é praxe obrigá-los a fazer figuras tristes.

Tudo o que o documentário Praxis mostra, e que podemos hoje ver quando nos aproximamos de qualquer universidade no principio do ano lectivo, não é praxe. Ah, e esqueçam lá essa coisa dos códigos de praxe porque isso também não é praxe.

Mas afinal, o que raio é a praxe? What the fuck is praxe, perguntamos nós? Pelos vistos, a praxe para os defensores da praxe limita-se a umas aulas fantasmas e a ditar umas bibliografias em latim. Fazer serenatas e usar o traje é praxe. Mostrar aos novos alunos as instalações da nova faculdade, os núcleos desportivos e culturais que possui, isso sim é a verdadeira praxe. Fiquei comovido, a sério.

Hoffman

Hoffman remete-nos fatalmente para grandes filmes. Lembro-me sempre do seu deliciosamente perturbante papel em "Happyness". O filme passou algo despercebido, mas recomendo vivamente a quem nunca viu. É bem capaz de estar no meu Top 10 de filmes.

O oráculo italiano?

Em Itália, com o aproximar das Europeias, o Grilismo surpreende cada vez mais, com insultos e até violência no parlamento. Vale tudo, e Beppe Grillo assume-o, no que já é apelidado de "pornopopulismo".

Itália continua a ser um oráculo do caminho do possivel colapso dos sistemas políticos democráticos, tal como os conhecemos nos dias que correm. Apesar de ser um dos países do G8, a fragilidade do seu sistema político é evidente.

O seu sistema partidário colapsou há uns anos atrás, mostrando estar saturado de um centrismo que não respondia às espectativas do eleitorado. Deu origem a uma multiplicidade de forças políticas difíceis de enquadrar num eixo simples de Esquerda vs Direita. No meio da barafunda de partidos, surgiu então Berlusconi, um fenómeno difícil de compreender num país com o nível de desenvolvimento de Itália. Como se Berlusconi não fosse já pornográfico numa democracia, eis que surge Beppe Grillo, o derradeiro carrasco.

O caso italiano devia ser melhor estudado e entendido como um verdadeiro aviso. Já todos sabíamos que a democracia não é o fim da história. Mas o caminho da sua degradação é uma caixinha de surpresas, como o caso italiano muito bem demonstra.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A Esquerda devia aprender com a Direita


O país ficou a saber na semana passada a impossibilidade de um entendimento entre o Bloco de Esquerda, o Manifesto 3D, o Partido Livre e a Renovação Comunista. Após algumas notícias desgarradas na comunicação social, temos já um facto consumado. O problema é que poucos são aqueles capazes de esclarecer cabalmente as razões desta falta de entendimento. Entre explicações personalistas (ex: o Bloco não gosta do Rui Tavares) e explicações mais estruturais (ex: o Bloco não podia apoiar a proposta do 3D de formação de um novo partido que desaparecia após as eleições), tudo não passam de motivos parciais e nebulosos. E, sobretudo, são explicações exotéricas para um eleitorado que não tem tempo a perder com detalhes da “vida privada” da esquerda portuguesa.

O tema da união de esforços à esquerda em Portugal não é novo. É pelo menos tão antigo quanto a nossa democracia. E as razões desta desunião são muito diversas, existindo variadas teorias a este respeito. Algumas consideram que a base leninista dos partidos à esquerda do PS, que determina que cada um deles se considere a única verdadeira vanguarda política, impossibilita entendimentos eleitorais ou programáticos mais profundos. Outras teorias sublinham que, desde o período de transição para a democracia (1974-1976), o conflito político-ideológico não se faz entre a esquerda e a direita, mas sim entre o CDS-PSD-PS e a restante esquerda. Ou seja, existe uma muito maior divergência ideológica entre o PS e a sua esquerda, do que entre o PS e a sua direita. A meu ver, esta é uma explicação muito mais consistente, existindo alguns estudos académicos que assim o demonstram. 

De qualquer modo, seria de esperar que, passados quase 40 anos de democracia, as raízes de tal desunião passassem a ser coisa do passado. Que as velhas cicatrizes estivessem ultrapassadas, que os olhos estivessem postos no futuro com o necessário realismo que o presente exige. Mas não.

Neste sentido, também não é novo dizer-se que a esquerda tem muito a aprender com a direita política. Ao longo dos quase quarenta anos de democracia, sempre assistimos a uma grande capacidade de aproximação do PSD e do CDS. Mas não só. A criação de coligações eleitorais com pequenos partidos como o MPT ou o PPM também não são uma novidade.. A direita sempre teve uma relativa facilidade em colocar na gaveta as velhas divergências, encontrando pontes comuns que sustentem alianças eleitorais. E os resultados estão à vista, sendo o presente Governo um bom exemplo a este respeito. Na nossa democracia, não foram aliás raras as vezes em que, sendo a esquerda eleitoralmente maioritária, a impossibilidade de entendimento determinou que a direita fosse preponderante.

Como é evidente, acho que a esquerda apenas devia aprender com a direita no que ao pragmatismo diz respeito. O verdadeiro problema em diversos setores da esquerda é que cada pessoa pensa de mais pela sua cabeça. Pensa tanto pela sua cabeça, que as dificuldades de alinhamento são difíceis. A mínima discordância ideológica ou estratégica acaba por ser a razão que impossibilita qualquer alinhamento. O puritanismo mostra-se então em todo o seu esplendor.

No meio de tudo isto, o eleitorado olha para esta sempre ativa (mas confusa!) esquerda portuguesa com alguma apreensão. Como é possível que não se consiga entender? Nem sequer entre a esquerda à esquerda do PS? Não tenhamos dúvidas que esta esquerda à esquerda do PS acabou de dar um mau sinal a este eleitorado. Resta esperar que as reações negativas sobre tal falta de entendimento obriguem a um maior empenho em aproximações futuras. Não sendo possível uma frente eleitoral para as Europeias, comece-se pelo menos a trabalhar desde já em entendimentos capazes de crescer até às Legislativas de 2015.

Artigo ontem publicado no Açoriano Oriental

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

As Jotas

Começo a ficar cansado de citar Pacheco Pereira, mas aqui vai mais uma... Escreve este fim de semana no Público sobre como as Jotas do PS e PSD penetram nos aparelhos governamentais (dos gabinetes às empresas públicas, passando pela Administração Pública), e como levam a cultura do profissionalismo político para estas entidades. Uma boa análise, sem dúvida.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Eu é que sou a verdadeira vanguarda

Bom artigo de São José Almeida no Público de ontem. Atribui  a falta de unidade da esquerda em Portugal a mais um factor: o Leninismo que ainda faz muita escola na esquerda à esquerda do PS. Ou seja, cada força política continua a considerar-se como a grande vanguarda que conduzirá sozinha as massas ao socialismo. Já tinha ouvido diversas teorias sobre esta falta de unidade (nomeadamente o fosso criado em 74/76 entre o PS e a restante esquerda). Confesso que esta não deixa de ser interessante, se consumida com moderação.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Sobre os Mecos e Praxes


  1. Se o que se passou foi de facto um ritual de praxe, podemos naturalmente querer ver aqui um vilão (o Dux, que é um míudo) e um grupo de vítimas (os míúdos que tristemente morreram). Mas por mais que o maniqueismo leve a assim pensar, convém ter em conta que os míudos que morreram não estavam naturalmente a ser obrigados a nada. Pelo contrário, a acreditar nos contornos que a imprensa agora começa a revelar, estavam numa espécie de ritual de passagem para uma maioridade praxista. Eram todos membros da Comissão de Praxes. Faziam-no portanto convictos da necessidade de serem humilhados para mais tarde alcançarem a "glória". Não há aqui um vilão e um grupo de vítimas. Quando muito haverá um  grupo de míudos tontos e tristemente palermas que, no meio de rituais estúpidos, deram origem a uma tragédia.
  2. Que esta tragédia sirva pelo menos para que o país abra um pouco os olhos (já não era sem tempo...) para a palermice saloia e reacionária em que se apoia esta suposta tradição académica. A essência da praxe (humilhação do caloiro pelo veterano; ser hoje mandado para amanhã poder mandar; ser hoje humilhado para amanhã poder humilhar) representa precisamente a essência inversa do Ensino Superior. Santa patetice...

Fogo... Dia Complicado

Me no brain

Quando um líder de uma juventude partidária, um político, faz depender a sua opinião da opinião da "sociedade", está tudo dito....

domingo, 19 de janeiro de 2014

Vítor Pereira tentou reacender a Primavera Árabe


Foi o best da semana. Em plena Arábia Saudita, ninguém o cala. Gostei sobretudo da parte em que questionou: "Isn't this a free country?!". Por pouco a juventude saudita não acorreu à Praça Tahrir lá do sítio.

Bora lançar os foguetes?


Sem que se percebesse muito bem como, subitamente começou a ser-nos dito que o país já está no caminho do crescimento. Que o pior já passou, que a economia está a acordar e que começamos a ter razões para sorrir. Mas há mais. Dizem-nos que a malvada troika está prestes a ir-se embora, expulsa pela gente responsável deste país que soube apertar o sinto. Dizem-nos ainda, com ar semi-radioso, que a austeridade foi dura, mas serviu para colocar as coisas nos eixos. Devemos portanto estar todos agradecidos aos bravos capitães da direita portuguesa que, mesmo nos momentos mais tumultuosos, onde maiores dúvidas surgiram, nunca hesitaram sobre o rumo a seguir para sair desta crise.

E subitamente, bem típico dos momentos atuais, todo este conjunto de mensagens começaram a disseminar-se nos média. Os sinais da retoma começaram a ser procurados em todo o lado, desde a emissão da dívida pública que correu bem nos mercados internacionais, até às típicas reportagens da empresa portuguesa bem-sucedida na sua estratégia de exportações. 

Por mais martelado que pareça este discurso, alimenta-se sobretudo de um sentimento importante que as pessoas sentem neste momento: a vontade de acreditar. Acreditar que o pior já passou ou está prestes a passar. Acreditar que, após os anos terríveis em que temos vivido, algo (não interessa o quê) está ou irá fazer o país renascer das cinzas, vai tirar-nos deste pesadelo que temos vivido.

Frequentemente acusada de idealismos vários, a esquerda é insuspeita de querer atenuar a vontade de acreditar dos cidadãos. Mas importa que consiga no momento presente trazer um pouco à terra os permeáveis às ideias acima. Demonstrando, por exemplo, que os sinais de retoma apontados, mais do que provenientes da economia portuguesa, são sim uma consequência de sinais de viragem na economia mundial. Ou seja, são exógenos à política seguida a nível nacional. Assim sendo, achar que a retoma do país acontecerá como consequência da política de austeridade continua a ser um disparate. Por outro lado, importa continuar a não relativizar o cenário que temos atualmente: um país económica e socialmente em cacos, com níveis de desemprego inacreditáveis, com cortes assassinos nos salários e nas pensões sociais, com emigração e massa da sua juventude e dos seus quadros.

E o pior de tudo é que, após todos estes anos de austeridade, não existem sinais de que qualquer reforma profunda tenha sido levada a cabo para evitar este tipo de crise no futuro. As agências de rating continuam aí, a especulação financeira continua a ser uma ameaça a qualquer economia com vulnerabilidades, os bancos continuam a ter a certeza que o Estado cobrirá as suas aventuras “bolhistas”.

Como muitos têm vindo a sublinhar recentemente, uma das dificuldades atuais no discurso da esquerda é não conseguir fazer passar uma mensagem positiva aos cidadãos, uma mensagem inspiradora, de renovação, de criação de algo novo. Pelo contrário, a sua postura defensiva indica aos mais desatentos um estranho apego ao passado, aos direitos que anteriormente existiam. Contra aqueles que dizem que é sempre mais fácil o discurso negativista, diria que no momento atual o facilitismo está sim num discurso de crença, que procura encontrar motivos vários para fazer as pessoas acreditar. Não vai ser fácil desmontar este discurso. É sempre mais fácil convidar as pessoas para um brinde ou para virem lançar foguetes para a rua.

Artigo publicado sexta-feira no Esquerda.net

O País da Bola


A morte de Eusébio deve naturalmente levar-nos a celebrar o que ele foi e o que representou: um jogador impressionante, um gigante, uma lenda viva, um galáctico vindo dos tempos em que ainda existiam heróis nacionais. Não era um santo, nem os santos são para aqui chamados. Era um homem humilde, um jogador da bola que, detalhe dos detalhes, foi o melhor do mundo. Como jogador, como artista que era, teve o dom de trazer muitas alegrias aos adeptos do Benfica e da Seleção. Levava os estádios à loucura, inspirava e enchia de felicidade todos os que por ele torciam. Mas, como já na altura acontecia, um desportista do seu nível rapidamente se tornou num símbolo do país. O seu nome correu o mundo e levou consigo o nome de Portugal. Portugal tem naturalmente de lhe agradecer por levar o nome do nosso país tão longe.

Todos sabemos que Portugal é um país da bola. Somos o país dos três diários desportivos que dissertam sobre bola. O país dos programas televisivos intermináveis sobre a jornada passada, a atual e a seguinte, o penalti que ficou por marcar, o fora de jogo mal tirado e o estado psicológico deste e daquele craque. Somos o país dos ruinosos estádios do Euro 2004 e das perigosas ligações entre a política e a bola. Somos igualmente o país com mais intelectuais da bola e treinadores de bancada por metro quadrado e onde falar de futebol é sempre, mas sempre, um bom tema de conversa de circunstância. Ou seja, existem uma série de razões para “às vezes” nos chatearmos com a febre da bola que temos. Por sermos tão obstinados com o raio da bola.

Só há aqui um pequeno pormenor que não nos devemos esquecer: o futebol é o desporto rei em todo o mundo. Nenhum outro desporto arrasta multidões tão grandes como o futebol. E, vai-se lá saber porquê, este pequeno país de 10 milhões de habitantes é uma potência indiscutível da bola. Este país é agora o n.º 5 do ranking da FIFA. Este é o país do Cristiano Ronaldo e do José Mourinho, do Figo e do Eusébio. É o país com jogadores espalhados pelas melhores equipas do mundo. O país que, para além do selecionador português, leva ao mundial também o selecionador da Grécia (Fernando Santos) e do Irão (Carlos Queirós). Ou seja, somos um país de doentes da bola. E acreditem que muitos e muitos países o são. Mas somos também um país de facto muito bom na bola. 

Como é óbvio, preferia ter um país conhecido por uma poderosa indústria científica, por uma imponente indústria da tecnologia ou por uma contagiante indústria cultural. Mas achar que ser uma potência do desporto rei é coisa pouca revela alguma pequenez de espírito. Em última instância, o futebol é hoje um fenómeno que arrasta multidões em todos os continentes. Em todo o mundo se vibra com o futebol. E se Portugal é conhecido pelo futebol, não há razão nenhuma para não tirarmos todo o proveito desta indústria de milhões. 

Por exemplo, Cristiano Ronaldo é hoje a marca mais conhecida que Portugal tem em todo o mundo. Se hoje apanharmos um táxi em Amã, em Santiago do Chile ou em Seul, o taxista com certeza saberá quem é Ronaldo. Aliás, a probabilidade de acontecer um “Portugal? Cristiano Ronaldo!” num qualquer café ou restaurante do globo é gigantesca.

Portugal é grande na bola. E ser grande na bola num mundo onde a bola reina, se calhar não é tão mau quanto isso. Continuará a existir Portugal para além da bola e é bom que exista cada vez mais. De qualquer modo, o país deve estar grato aos Figos, aos Ronaldos e aos Mourinhos O nome deles leva o nome do país muito mais longe. E, bem a propósito, obrigado Eusébio por seres o rei que começou esta odisseia.

Artigo publicado a 7/01/2014 no Açoriano Oriental

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A Rainha

Em Ciência Política, quando são estudados os sistemas de governo parlamentaristas, as fracas competências atribuídas ao Chefe de Estado determinam que este tenha um papel sobretudo simbólico. Decorativo até. E o exemplo por excelência é o da Rainha de Inglaterra. Figura conhecida de todos, mas com pouco poder na governação efetiva do país. O sistema semi-presidencial (ou semi-parlamentar, é discutível) assumido na nossa Constituição determina que o Presidente da República tenha de facto um papel central no normal funcionamento das instituições. Deve ser um garante da constitucionalidade, um contrapeso/fiscalizador político do Governo, entre outras dimensões. Ora, pelos vistos, mais do que um presidente, temos tido em Portugal uma rainha. Ou pelo menos um Cavaco muito empenhado em parecer-se com a Rainha de Inglaterra.

Com certeza motivado pelas suas intervenções de fundo terem sido catastróficas, o nosso reformado preferido parece estar muito confortável neste seu papel decorativo. Escaldado por tristes episódios como o perigoso estatuto dos Açores ou a plantação de notícias pelo seu sempre fiel Duarte Lima, Cavaco resguarda-se agora neste papel, tipicamente monárquico, de garante da unidade da nação. Os seus insistentes apelos ao consenso político e os seus fretes ao Governo em funções, custe o que custar, demonstram bem este seu desejo de pertença à realeza.

Todo este processo seria deveras engraçado se dele resultassem apenas estes exercícios divertidos de caracterização do Sr. Silva. Haverá personagem da política portuguesa e arredores que mais se presta a estes divertidos exercícios? Tenho dúvidas. Cavaco é, neste sentido, o rei (ou a rainha, se preferirem) dos caricaturáveis. E continuará a sê-lo, está visto.

O problemazito à volta desta tendência de Cavaco é que o país paga caro estas suas graçolas. A falta de vontade em exercer o seu poder de fiscalização da constitucionalidade sai caro ao país e tem sido uma ameaça incomportável para os Portugueses. O auto-anulamento da função presidencial, no momento em que o país mais precisava do seu poder fiscalizador, do seu papel de importante frei e contrapeso, é um ato que chega a ser criminoso e não pode deixar de ser denunciado.

Cavaco até pode intimamente desejar ser a Rainha de Inglaterra (Oops, não resisti a caricaturar…), até pode não se incomodar em ser recordado como o cão de loiça que passou por Belém (Oops, caricaturei outra vez), mas o país não pode deixar incólumes estas suas estranhas tendências. Não sendo possível uma descavaquização de Cavaco, resta-nos defender um descavaquização urgente do Palácio de Belém.

Artigo publicado sexta-feira no Esquerda.net

sábado, 28 de dezembro de 2013

Javardice de Jornais

Assinei o Press Reader  em promoção, por 5,99 dólares por mês. Posso assim descarregar gratuitamente cerca de 2400 jornais de todo o mundo.

Hoje, bem ao estilo de "eat all you can", descarreguei logo de manhã: Público (e Fugas), DN, JN, Açoriano Oriental, New York Times, Washington Post, Los Angeles Times, Chicago Inquirer, Guardian, Le Monde, Jornal de Angola, Folha de São Paulo e... O Jogo.

Como é evidente, ainda consegui ler nem 1/10. Mas javardice de jornais não é pecado, certo?