
Como é evidente, as forças políticas no poder não deixam de tirar todo o partido deste período. Quer dando-se ao luxo de alguns experimentalismos nesta fase inicial, quer levando à letra a velha máxima de “fazer o mal depressa e [eventualmente] o bem devagar”. Apesar dos já significativos erros estratégicos e de comunicação, o actual governo está a aproveitar intensamente o presente estado de graça. E como se tal não constituísse em si uma oportunidade já formidável, os compromissos assumidos com a troika são o alibi perfeito para todo o tipo de medidas menos populares, a maioria legitimidadas com duvidosos nexos de causalidade. “É aproveitar sem pensar duas vezes”, pensarão muitos dos apologistas das reformas em curso.
Para completar este ciclo, amedrontada com todo o panorama vigente, a opinião pública está fortemente convencida desta necessidade de sacrifícios redentores. O discurso do andamos a viver acima das nossas possibilidades tornou-se de tal forma hegemónico que argumentar fora dele passou a ser algo digno de excêntricos sonhadores que não vivem certamente neste mundo.
Não é pois de admirar que, num curto ápice, a direita política esteja a conseguir fazer passar uma série de medidas que há muitos anos ambiciona. Da reforma profunda das leis laborais às privatizações e ao fim das golden shares, da diminuição da carga fiscal sobre as empresas à contracção brutal na Administração Pública e à forte abertura da prestação de serviços públicos pelos privados. O surto liberal aí está, procurando espremer ainda mais o que resta do Estado-providência. Nem os próprios liberais parecem estar a acreditar na enorme passadeira vermelha que à sua frente subitamente se estendeu. Conter esta euforia não será fácil. Importa, por isso, ter presente o velho lema de transformar desafios em oportunidades.
Artigo hoje publicado no Esquerda.net
(Imagem: Lexington 4)
6 comentários:
O estado de graça dos governos explica-se pelo respeito que o povo tem relativamente aos resultados de uma eleição recente. Infelizmente nem todos os comentadores têm o mesmo bom senso.
Diria mais que é um surto neoliberal na medida em que se está a utilizar o Estado para transferir rendimento e recursos, da base da pirâmide social para o topo. Assistimos a um saque social e o Estado é o Cavalo de Tróia.
Mas como transformar estes desafios em oportunidades sem ser de forma violenta?
Penim Redondo: Acho mais do que legitimo e compreensível o respeito que refere. Mas daí a considerar que todos os que não o praticam têm "mau senso" vai uma grande distância.
Diogo: Escusado será dizer que não acho que a violência seja uma opção para mudar o rumo das coisas. De resto, julgo que ninguém tem a solução no bolso. Mas estranho seria se a tivesse.
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