quarta-feira, 18 de maio de 2011

Os camaleões, não gosto, pá

Para não variar, o Tiago Tibúrcio responde de forma inteligente a este meu artigo, fazendo um exercício provocatório sobre as motivações do meu voto. Devo dizer-te, Tiago, antes de mais, que julgo ter pouco jeito e feitio para defender a “minha dama” (não confundir com a minha senhora, sff). No entanto acho que, nestas eleições mais do que em muitas outras, estranho o facto de acusarem a “minha dama” de não apresentar propostas. Tem-no feito ao ritmo de uma por dia. Infelizmente tenho encontrado pouco debate com vista a rebatê-las individualmente. Pelo contrário, a forma encontrada para as contrariar tem sido colocá-las no saco da demagogia, do lirismo e do radicalismo. Nada de novo, portanto.

Por outro lado, acho infrutífero entrarmos aqui no ping pong do “tu foste a muleta da direita” versus “tu agiste como a direita”. Deixa-me portanto recentrar a nossa discussão no que julgo ser o cerne da questão que coloco no meu artigo.

Existem, como sabemos, as mais diversas explicações para o comportamento eleitoral dos cidadãos. Pessoalmente tenho particular dificuldade em perceber o voto em candidatos com grande inconsistência ideológica. Precisamente pelos efeitos camaleónicos que tal inconsistência implica no comportamento de tais candidatos. Tomemos o exemplo de José Sócrates. Quem nele votar nas próximas eleições, vota no Sócrates defensor do investimento público ou no Sócrates apologista do aperto do cinto? No Sócrates dos aumentos nos salários da Função Pública ou no Sócrates dos cortes em tais salários? No Sócrates que afirmou que a redução dos benefícios fiscais seria um ataque à classe média ou no Sócrates que considera que tal redução é uma questão de justiça fiscal? No Sócrates que afirmou que não governaria com o FMI ou no Sócrates que diz ser a pessoa indicada para aplicar o programa do FMI?

Existe muito eleitorado de esquerda que votará em Sócrates por uma série de políticas deste governo, mas sobretudo para evitar o governo mais à direita que até hoje tivemos oportunidade de conhecer. O típico voto útil, no fundo. Mas, em última análise, o que garante a este eleitorado que Sócrates cumpre o que hoje promete com toda a convicção? O que lhe garante que o Sócrates de hoje é o Sócrates de amanhã? Tiago, a “minha dama” tem uma série de defeitos, mas (não querendo ser panfletário) quem nela vota costuma saber ao que vai. A consistência ideológica, a meu ver, não é um preciosismo.

PS: As picardias com o Tiago são sempre bem-vindas, precisamente pelo relevo e sensibilidade das questões colocadas.

3 comentários:

Ana Paula Fitas disse...

Caro Ricardo,
Faço link.
Obrigado.
Abraço.

Tiago Tibúrcio disse...

Ricardo, não pretendia que defendesses a tua dama, coisa que fazes muito bem. Aquilo que te apontava (a acho que voltas a fazer) é confundires a tua leitura dos governos PS (ou de Sócrates) com aquela que faz um eleitor socialista, como eu. Por isso tentei inverter a situação, apontando (até com grosseiro exagero) a minha avaliação do mandato do BE nestes últimos anos como se fosse a tua a deixando no ar como é que votas no BE? Era neste sentido que era uma provocação. Ps (viva): quanto aos exemplos de contradições que referes tenho uma explicação que acho razoável para cada uma delas e que me convence. Para quando tiver tempo. abraço,

João Ricardo Vasconcelos disse...

Tiago, percebi o teu exercício provocatório e muito bem conseguido. Mas procurei (após a defesa da dama) voltar a centrar a discussão no ponto que julgo central no meu artigo: a questão da coerência ideológica e consequente previsibilidade do político em quem depositas o teu voto. Claro que quem tende a votar em partidos mais moderados não procura a mesma coerência dos que votam em partidos mais radicais. De qualquer modo, como é evidente, a coerência política e ideológica não tem de ser uma miragem no centro político. Aponto, neste sentido, exemplos claros de mudança de posição de Sócrates, questionando a opção de muitos ao nele depositarem o seu voto. O voto que é, por sinal, um gesto de confiança. Abraço